Editorial | Parcialidade e imparcialidade

Sempre que se pautam as qualidades e deveres de um jornalista, aquele que compartilha e expõe informações e fatos, frisa-se a necessidade da imparcialidade. O indivíduo deve discorrer de forma neutra, sem “puxar sardinha” para um lado ou outro. O problema é quando o expositor em questão trata, não de um fato, mas de uma análise acerca de um fato.

Os “dois lados”, tão exigidos pelos fiscais de texto, nem sempre existem da forma como se pensa — que há pontos de vistas diferentes e nenhum deles pode ser colocado como o único correto —, em verdade, o fato possui duas faces: a certa e a errada.

Assim como em uma operação matemática o resultado é verdadeiro ou falso, um fato segue esse binômio. Aconteceu ou não aconteceu. É ou não é. A diferença entre lidar com números e palavras é que as palavras podem ser dispostas de modo a levar o interlocutor para uma conclusão equivocada.

Apesar da maior complexidade, não se deve abandonar a busca pela verdade absoluta e abraçar a relatividade, ou teremos de dar crédito aos teóricos da conspiração, em vez de ignorar suas suposições baseadas em malabarismo argumentativo.

Esse interesse na “exposição das diferentes visões” é particularmente utilizado em função de grupos políticos, que usam a imparcialidade como pretexto para divulgar suas teses. Não há problema em apresentar uma ideia, mas deve-se colocar na mesa suas bases teóricas, efeitos práticos e perspectivas futuras, sem permitir que pessoas desavisadas passem a crer em algo que tenha sido refutado há tempos, pelo exercício lógico ou pela experimentação.

Para alguém que escreve resenhas de obras ficcionais é natural que se emita opiniões mais diretas, como “isso é bom” ou “isso é ruim”, todavia, um crítico, seja de cinema, esporte ou política, deve apresentar os motivos que embasam o seu veredito. Por isso se escreve longos textos antes de uma avaliação de 0 a 10. Quanto mais bem elaborados e convincentes forem os motivos, mais credibilidade o autor terá, ainda que utilize falácias para reforçar seu ponto.

Quanto aos comentaristas e analistas, é compreensível que, tendo a sua posição definida, deem preferência para fazer piadas com o outro lado, sem exigir de si próprio uma argumentação sólida, especialmente se o público com o qual fala tem a mesma posição que ele.

O filtro contra ideias falaciosas é o questionamento, a exigência de uma argumentação que sustente o que foi dito anteriormente. Uma pessoa parcial irá contra a lógica para defender o seu interesse, enquanto uma pessoa imparcial se firmará nos fatos para apresentar como chegou à conclusão de que, por exemplo, um método de investigação é ético ou não.

A parcialidade e o uso de falácias pode ser natural, uma forma de tentar convencer alguém do que você acha certo, um movimento involuntário, portanto, por via das dúvidas, sempre que se opina é indicado avisar que é a sua opinião, em vez de uma simples leitura dos fatos. Isto não garante a sua isenção, mas o previne de enganar outras pessoas sem perceber.

A função deste texto é ser mais instrutivo que os demais posts do Blog do Kira. Parte do processo de saída da caverna é compreender que jornalismo e manipulação andam lado a lado e são separados por um espaço bem estreito.


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