Naruto | Indra, Ashura e o problema da predestinação

Grandioso, místico e absolutamente imperdoável

A série de mangá Naruto, escrita e desenhada por Masashi Kishimoto, possui 72 volumes em sua versão clássica encadernada. Somente nos volumes 49, 50, 70 e 71 são abordados elementos mitológicos que estruturam o universo ninja, e, o efeito disso não é apenas um súbito estranhamento, mas a total negação do tema da obra.

A mitologia revelada

Nos volumes 49 e 50, Tobi conta, em mais uma das corriqueiras pausas de Kishimoto para ilustrar conceitos e eventos passados, a história de Rikudou Sennin, um lendário eremita que teria criado o ninjutsu. Sua abordagem manteve o distanciamento necessário para se entender, de forma folclórica, e não literal, que houve um ser poderoso, cujos descendentes foram poderosos e iniciaram um conflito que perdura geração após geração (ver nota ao fim do texto).

Fugindo do sentido figurado, Kishimoto utilizou-se de uma experiência de quase morte para levar Naruto a um plano onírico, no qual ele encontrou Rikudou Sennin, cujo nome é Hagoromo. No volume 70, cheio das mais variadas conveniências, mais de um capítulo é destinado à revelação do passado mitológico.

O eremita conta que sua mãe, Kaguya Ootsutsuki, comeu um fruto que lhe deu enorme poder. Ela acabou com todas as guerras e governou o mundo. Seus dois filhos, Hagoromo e Hamura, herdaram seu poder e, sem maiores detalhes, derrotaram a Jyuubi, a personificação da Árvore Divina, da qual provinha o fruto comido pela sua mãe. Hagoromo selou a Jyuubi em si mesmo e teve dois filhos. Um herdou seu poder, era solitário e arrogante, enquanto o outro era mais fraco e usou o amor, os amigos, para conseguir um poder equivalente ao de seu irmão.

O solitário era Indra, e o que tinha amigos, Ashura.

Hagoromo escolheu Ashura para ser o seu sucessor, como líder máximo da sua filosofia. Indra não concordou e se voltou contra o irmão, dando início a um conflito que perdurou mesmo após as suas mortes, com o chakra de ambos renascendo em novos seres, levando ao mesmo fim. Ashura, dotado de elevada vitalidade, é ancestral do clã Senju, enquanto Indra, dono de um forte poder ocular, é ancestral do clã Uchiha.

Ao fim, Hagoromo conclui que Naruto é a reencarnação de Ashura e diz que vê semelhanças entre ambos até nos pequenos detalhes. Por conseguinte, Sasuke é a reencarnação de Indra.

O tamanho da predestinação

Hagoromo cita que o Naruto é mais imprevisível que as demais encarnações e é impossível elucidar o quanto essa imprevisibilidade o torna diferente de Ashura, afinal, o eremita não entrou no mérito da questão. Todavia, também ressalta que ambos se parecem até nos menores detalhes, portanto, a imprevisibilidade aparenta não alterar significativamente um em relação ao outro.

As informações fornecidas pelo Hagoromo deixam como semelhanças entre Naruto e Ashura a preferência pela solução pacífica, a valorização da amizade, o efeito das relações sociais no aumento do poder e a força vir da união. Certamente, todas essas características são efeito da reencarnação e, naturalmente, não são originárias do Naruto.

No caso do Sasuke, ser solitário, poderoso e capaz de resolver as coisas sozinho. Ironicamente, ou não, Sasuke se torna mais arrogante após a conversa com Hagoromo.

Aprofundando-se na construção de ambos os personagens, essas características originalmente eram fruto de experiências que tiveram, mas, após a revelação mitológica, o motivo se torna astral. As amizades que o Naruto cultivou, a sua falta de força e, o principal, seu carisma, são fruto de Ashura. Para Sasuke, a solidão que o tornou mais forte, sua aptidão natural, a forma com que via o Naruto e seu apego ao poder, tudo advinha de Indra.

A negação do tema

O tema de Naruto é a aceitação, a forma encontrada para lidar com a dor e o seu resultado. Naruto se abre para as pessoas e Sasuke se fecha. Neste sentido, a discriminação sofrida por Naruto é a força motriz da trama, afinal, o seu “(…) sonho pro futuro, é superar o Hokage e fazer com que todos da Vila me aceitem!”. No momento em que se descobre que o carisma e as suas amizades, como fonte de força, são fruto do encosto Ashura, todo o seu esforço e seus desejos se tornam redundantes, pois, independente do quanto ele se esforçasse, era predestinado a ser querido pela Vila e se tornar mais forte com a força dos amigos.

Os ideais de vingança de Sasuke, seu ódio e, talvez, até o assassinato do clã Uchiha, existiram por causa de Indra. Se a trajetória dele se dá no trato destes pontos, assim como Naruto, incluir a predestinação é o mesmo que invalidar todo o desenvolvimento que tiveram, já que, suas conquistas e suas motivações não eram suas, mas de Indra e Ashura.

A teoria de Neji

Nos volumes 9 e 12 do mangá, Neji Hyuga explica para Hinata Hyuga e Naruto a sua concepção de destino. Diz coisas como “Um fracassado sempre será um fracassado (…)”, que inflamam Naruto e o motivam a lutar. Com a sua derrota, passa a crer que, embora o destino exista, não se é obrigado a segui-lo. Embora pareça um contrassenso, é uma perspectiva válida diante do que ele viu ocorrer com seu pai.

Durante a guerra, a tese da correnteza inexorável do destino, a qual Neji abandonou, se prova correta em dois momentos. O primeiro é quando Neji morre protegendo Hinata, seguindo o destino dos integrantes da Família Secundária, que devem morrer pela Família Principal. O segundo momento, é a conversa entre Naruto e Hagoromo, que, ironicamente, prova que Naruto sempre foi destinado a vencer, mesmo a batalha em que ele acreditava lutar contra o destino.

A palavra chave é ironia, ou contradição, pois Kishimoto construiu um conceito primordial na constituição do personagem, o destruiu completamente e sequer deu sinais de que Naruto ficou abalado com aquela revelação.

O que foi real?

Sabendo da predestinação, uma análise geral nos permite subentender que a escolha de Nagato por reviver todos da Aldeia, a aceitação do Naruto como um herói e até detalhes pequenos, como o carinho de Zabuza pelo Haku ser despertado pelo Naruto, foram apenas resultado do destino. Desta forma, nada do que é retratado no mangá tem peso individual.

O mesmo vale para a inexplicável decisão de Sasuke por chamar Naruto para lutar, em vez de matá-lo sorrateiramente e prosseguir com seu plano de paz pelo medo. Aquilo que convencionou-se chamar de “Discurso no Jutsu” teria a ver com Ashura, e não com o carisma de Naruto.

A existência dessa mitologia torna impossível identificar o que era realmente “o Naruto”, se é que algo o foi. Com isso, o que vemos é a história da reencarnação de Ashura, e não de Naruto Uzumaki.

Seja entendendo como plot twist ou como incoerência, as noções de destino apresentadas no volume 70 negam o tema que Naruto carregava até ali e o cerne da sua trama, definhando a qualidade que a obra acumulou até meados do volume 52.

E se eu estiver errado?

Muito tempo depois de escrever o texto acima, li algumas objeções a esse pensamento de que o Naruto foi guiado pelo Ashura em suas principais características. Basicamente, dizem que Ashura escolheu o Naruto e que a transmigração veio depois de eles serem parecidos, não antes. Isso não é impossível, mas seria uma colossal conveniência.

Madara e Sasuke, bem como Hashirama e Naruto, são parecidos demais para que não tenham sido forçados a tal. É difícil crer que seja apenas conveniência Naruto ser carismático e ter aptidão física, enquanto Sasuke é solitário, arrogante e tem poder nos olhos, além do óbvio parentesco entre Madara e Sasuke e do possível (não sei se foi confirmado) parentesco entre Naruto e Hashirama (ou pelo menos entre Naruto e o clã Senju).

Mesmo que eu acreditasse nessa coincidência absurda, ainda tem o problema de Hagoromo dizer que Naruto e Ashura se parecem até nos pequenos detalhes. Indra sempre ataca o sonho de Ashura. Madara atacou a Vila da Folha e Sasuke queria matar as bijuus, as quais haviam sido conquistadas pelo carisma do Naruto. Isto não é coincidência, é predestinação.

Naruto e Sasuke acabaram com o ciclo?

Este é outro tópico que merece atenção. Já vi muita gente dizendo que o ciclo foi encerrado, só que não há base alguma para falar isso. Sasuke atentou contra o sonho do Naruto e mudou de ideia (não achei convincente, inclusive) na base da porrada, e o conflito é parte da relação entre Indra e Ashura. O simples fato de eles não terem se matado não pode ser o suficiente para interromper a transmigração porque Madara e Hashirama também saíram vivos de seu confronto final.

Creio que o fim do ciclo só viria caso o conflito não ocorresse. Lembra quando o Naruto decidiu não matar o Nagato para não ceder ao ódio? Talvez se Sasuke também pensasse isso, a maldição terminaria. Outra saída, esta a mais provável, seria Ashura e Indra sentarem para conversar e resolver suas diferenças, pois é o desejo deles pelo conflito que faz o chakra renascer.

Nota: levando em conta tudo o que o Tobi contou, é possível concluir que é o destino do Naruto enfrentar o Sasuke. O ponto é que essa é uma interpretação da realidade, como dizer que era o destino de Romeu e Julieta terem um final trágico. Ali a ideia não era um ciclo místico literal, mas uma consequência da grande quantidade de poder. Madara e Hashirama acabavam sempre se enfrentando por serem os líderes dos clãs mais poderosos e a linhagem de ódio Uchiha advinha de seu grande amor misturado ao grande poder. A rivalidade dos clãs nasceu das condições de trabalho do mundo ninja, por isso é plenamente possível fazer uma análise histórica no sentido de haver um destino de ódio sem precisar da predestinação. Se excluir o elemento místico, acaba casando muito melhor com todas as histórias de sofrimento mostradas no mangá, desde Haku até Kabuto.


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5 comentários

  1. naruto e sasuke nunca nasceram com ashura e indra. naruto foi escolhido para ser a reencarnação de ashura, como foi mostrado no anime e no mangá, ele foi escolhido pois tem a personalidade parecida, essa personalidade que foi moldada com seu passado e com a vontade de naruto de ser da “paz”. naruto só é determinado porque ele quer mudar a realidade, ele só se importa tanto assim com os outros porque ele sempre foi solitário seus amigos são como sua família( a família que ele nunca teve), ele só é carismático por causa de sua forma de falar(querendo chamar atenção) e como ele trata as pessoas e por último ele resolve as coisas de forma pacífica porque ele entende os vilões pois ambos tem passados parecidos então ele acaba tendo uma compaixão por eles. assim como sasuke e madara que são desse jeito por causa do seus passados, e hashirama é assim também por causa de seu passado. se não fosse pelos seus passados seriam pessoas totalmente diferentes e não seriam escolhidos.

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    1. acredito que sasuke foi escolhido para ser a reencarnação de indra depois que ele mudou sua personalidade( após a luta do bee que ele ficou muito mais arrogante e solitário não querendo mais a ajuda de seus companheiro como foi mostrado na reunião dos kages) e também mudou seu chakra logo após isso ( como a karin disse na reunião).
      e naruto foi escolhido após ele se tornar a criança da profecia. Ele acabou mostrando aí que ele era totalmente pacífico pois não quis se vingar de Nagato. Ashura viu em naruto um cara que poderia acabar com a rivalidade.

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