Naruto | Machismo ou incompetência?

Mulheres fracas, pouco importantes e unidimensionais

A cultura oriental, no tocante a mangás e animes, tem diversos exemplos de conduta duvidosa em relação ao tratamento dado às personagens femininas. É possível abordar as personagens de cintura minúscula e volumosos seios, abundantes em One Piece, mas o ecchi é um aspecto mais explícito, óbvio. Os traços do arquétipo feminino existem também em obras que, aparentemente, são um ponto fora da curva nessa questão. Sempre admirei a baixíssima frequência do ecchi em Naruto, mas, basta uma análise mais aprofundada para se ver que não é uma obra isenta de erros.

Masashi Kishimoto, roteirista e desenhista de Naruto, adota um padrão no comportamento de suas personagens femininas. A primeira aparição feminina na obra ocorreu no volume 1, mas, até o volume 71, penúltimo da encadernação original, poucos aspectos mudam. De Sakura Haruno até Kaguya Ootsutsuki, se somam mulheres de poucos objetivos e habilidades genéricas ou mal exploradas.

O primeiro contato

No volume 1, são apresentados os três integrantes do trio de protagonistas, seguindo um padrão militar criado na história, dois homens e uma mulher. Naruto Uzumaki, Sasuke Uchiha e Sakura são levados pelo seu supervisor, Kakashi Hatake, a se apresentarem, dizerem os seus sonhos.

Naruto diz querer ser aceito pelos moradores da Aldeia da Folha, que o discriminam desde que nasceu; Sasuke troca a palavra “sonho” por “ambição” e afirma querer “reestabelecer a honra do clã e matar um certo alguém”; na vez de Sakura, ela insinua gostar de Sasuke e não acrescenta nenhuma outra informação.

Essa introdução sintetiza a jornada de cada personagem. Naruto segue até o volume 48 buscando a aceitação de seus conterrâneos; Sasuke persegue o “certo alguém” até o volume 43 e Sakura nunca deixa de ter a “paixão” como base fundamental de suas ações. Mais à frente, se torna ainda mais evidente, enquanto os homens alçam voos cada vez mais ousados em seus objetivos e capacidades, Sakura continua presa ao romance.

Naruto e Sasuke não apenas conquistam seus objetivos iniciais, como decidem se comprometer com causas maiores, se tornando os seres mais poderosos da Terra e debatendo sobre a possibilidade de instaurar uma ditadura do terror. Analisando a jornada de Sakura, fica clara a diferença.

Sakura e as decisões inexplicáveis

Até o volume 20, a sua motivação para se tornar mais forte era o desejo de não permanecer atrás de seus colegas, ou, em outras palavras, queria se fortalecer apenas para deixar de ser fraca. Após a deserção de Sasuke, seu interesse em ir resgatá-lo acabou como o novo pilar de seus treinos.

Ao mesmo tempo em que ansiava por retirar Sasuke da escuridão, era nítido que se aproximava de Naruto, e passava a gostar verdadeiramente dele. No volume 50, o possível novo romance é deixado de lado e ela decide matar Sasuke, que havia se tornado um renomado criminoso. A aparente evolução é relegada e, além de desistir de matá-lo, quase é morta por ele, sendo salva por Naruto e Kakashi.

Sakura é colocada em posições de destaque, mas, suas atitudes diferem tanto das dos outros protagonistas, que, fica óbvia a sua sub-relevância. Durante a Quarta Grande Guerra Ninja há um exemplo: apesar de ser uma ninja médica e o destino do mundo depender de sua ação, hesita e não destrói o olho de Obito Uchiha, dando a oportunidade para que Madara Uchiha o pegasse e tivesse os dois olhos mais poderosos de todos.

O início de um relacionamento amoroso com Sasuke, mesmo após a tentativa de assassinato que sofreu e todos os crimes que ele cometeu, finaliza a sua jornada, quase que unicamente embasada por romance. Sakura carrega outros traços de superficialidade, além da trajetória, em suas habilidades.

A força extraordinária sem nenhuma técnica substituiu sua inicial aptidão com genjutsu, tornando-a mais óbvia em suas ações. Somando-se a sua falta de habilidade com genjutsu, taijutsu ou ninjutsu e o uso das habilidades médicas unicamente para curar, se obtém uma ninja com um leque de possibilidades restrito e anormal.

Kabuto Yakushi, braço direito de Orochimaru, segundo mestre de Sasuke, quase derrotou Tsunade, mestre de Sakura e ninja médica de elite — que tem medo de sangue, diga-se de passagem —, utilizando as técnicas médicas de forma ofensiva, habilidade que Sakura nunca aprendeu.

Vale comentar a luta entre Sakura e Ino no Exame Chunnin. Foi a única a empatar, resultando na eliminação de ambas no torneio. O drama explorado envolveu romance e bullying (pela testa grande da Sakura), desenvolvendo uma amizade que nunca mais foi relevante.

Ausência de profundidade

Algumas superficialidades se destacam mais, em especial aquelas próximas ao seu oposto, o que é o caso da personagem Tenten. Praticamente o arquétipo de um ninja, especialista no uso de armas. Enquanto seus companheiros de equipe, Rock Lee e Neji Hyuga, possuem um intrincado background (a história do Lee é talvez a melhor de toda a obra), ela nutre uma única característica: quer superar a Tsunade.

Diferente de Lee e Neji, Tenten não é explorada e não tem nenhuma relevância para o personagem Naruto, ligado a Lee pela força de vontade e a Neji pela luta contra o destino. Seus pares tiveram lutas marcantes (Lee vs Gaara é tida por muitos como a melhor luta de Naruto Clássico), mas ela teve apenas duas batalhas, em off-screen, sendo uma delas a única luta off-screen das Preliminares do Exame Chunnin.

Apenas o par do protagonista

Hinata Hyuga, prima de Neji, tem forte apelo à força de vontade, superação de limites e um caminho para um relacionamento amoroso com Naruto, mas nenhuma dessas coisas foi desenvolvida de modo convincente.

Seu olhar sempre repousava sobre Naruto, mas ele nunca a via como algo além da “garota meio estranha que mora bem ali”. No volume 64, existe um princípio de desenvolvimento, mas, ele não justifica o relacionamento amoroso entre ambos.

Após a luta contra Neji, seu empenho e desejo de ser forte não mais entrou em pauta e suas aparições eram, em geral, voltadas a alguma piada com timidez ou alguma tentativa de demonstração de força que desaguava em falha (sua luta contra Pain ou a proteção que deu ao Naruto durante a guerra, a qual culminou na morte de Neji).

A deusa sem sal

A tônica de parte das personagens femininas de Naruto é essa, mas há a vilã final, Kaguya Ootsutsuki, um contra-argumento por vezes utilizado.

Kaguya pode até compensar, devido a sua posição hierárquica na obra, todas as personagens mal elaboradas e mal desenvolvidas de Naruto, mas a sua postura não é, nem de longe, comparável aos demais vilões. Kaguya não possui nenhum traço de personalidade além de uma expressão vazia e frases relacionadas à maternidade. Para compensar a sua deficiência, Zetsu Negro age como um papagaio no ombro de um pirata, falando como um vilão, o vilão que ela não era.

Além da personalidade ausente em Kaguya e a mística, antiga na obra, envolvendo Zetsu Negro, pesa contra ela a comparação com os vilões predecessores. Diversos outros tiveram muito mais carisma e profundidade do que ela, como Tobi, Madara, Pain, e até os mais antigos, como o Zabuza.

Machismo ou pura incompetência?

Existem evidências de negligência no tratamento dado às personagens femininas, mas, os personagens masculinos de Naruto também possuem grandes problemas narrativos (como a predestinação e a saturação do tema). Cabe ao leitor ponderar sobre a intencionalidade ou não destas formas distintas de planejar personagens de sexos diferentes.

Uma reflexão

Tomemos as personagens femininas que aparecem em Naruto: Sakura, Ino, Hinata, Tenten, Anko, Kurenai, Tsunade, Shizune, Kin, Temari, Tayuya, Rin, Kushina, Karin, Kaguya, Konan e as outras de que você se lembrar.

Quantas delas são ninjas médicas? Compare com o único ninja médico, Kabuto. Quantas delas são mais fracas do que um parceiro próximo? Quantas delas demonstram ter um interesse amoroso específico? Quantas delas têm sonhos e valores morais elevados? Quantas delas são menos interessantes que seus parceiros?


Abaixo está a versão em podcast do artigo.


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6 comentários

  1. A coisa que me deixa mais irritado é o fato de quase todas as kunoichis da geração ter virado dona de casa em Boruto, não consigo assistir sem ter desgosto disso. Maioria dos casais de Naruto foram fan-service, entendo que o anime é voltado pra lutas e não romance, mas poderiam ter trabalho isso mais, ficou algo muito forçado. E é verdade, maioria das personalidades femininas tem um filtro: São apaixonadas, possuem sentimentos fortes, não tem uma história bem explicada e sempre são as mais fracas dos grupos. Fico triste por Kishimoto ter falhado nesse lado do anime.

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  2. Não sei se cultura seria uma grande desculpa para o Kishimoto não, afinal, se fossemos assumir isso, nenhuma autora mulher escreveria personagens masculinos bons, nem outros autores homens escreveriam personagens femininas boas. A criadora de Fullmetal tá aí para desmentir isso, e tá cheio de animes escritos por homens que tem boas personagens femininas. Creio que da parte dele foi negligência/desinteresse ou preconceito (por ser um anime de luta, “não tinha porque dar destaque a personagens femininas”).

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  3. FINALMENTE!
    É incrível como isso é tratado. Dá agonia.
    Isso pq vc nem chegou a falar sobre a história de Temari. Que é uma das ninjas mais fortes da Aldeia da Areia. É nítido, você ve na prova chunin, na guerra ninja ela é vista como um “dos mais fortes”. Ela até então foi a única que não teve uma “paixão”. Algo que com o Shikamaru já demonstrava algo no Clássico e que era esperado que eles se juntassem, oq analisando os romances foi o mais convincente e melhor desenvolvido (ainda que pouco).

    Em boruto TODAS as ninjas viraram donas de casa. WTF qual a lógica? E Temari, Sakura, Hinata, que a comparar com os outros quase não foram trabalhadas e ainda tiveram que se submeter a isso…

    Não sei se é um problema do escritor ou da cultura.
    Mas o machismo é de certeza. Achei ridículo.

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    1. A Temari e o Shikamaru são interessantes pontos fora da curva de Naruto. Ela é uma pessoa normal, que tem sim algum interesse romântico, mas que não é definida apenas por ele. Não chega a ser uma grande personagem, mas é bem melhor que as outras. E o Shikamaru não precisa de passado triste para ser envolvente. Só as cenas dele “casualmente” com a Temari já são mais desenvolvimento que uns 99% dos casais de Naruto. As mulheres em Naruto são tão qualquer coisa que quando o Kishimoto faz o mínimo necessário já parece melhor que o resto.

      A única coisa de Boruto que eu li foi o Naruto Gaiden e não faço questão de ler mais que isso. O problema não é apenas com o autor porque isso é um costume em obras do gênero. Não conheço a cultura japonesa, mas creio que lá estejam as raízes do problema.

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