Crítica | You: redonda até os 47 do 2° Tempo

Todo mundo é babaca

You é uma série de televisão americana do gênero suspense psicológico, desenvolvida por Greg Berlanti e Sera Gamble. Produzido pela Warner Horizon Television, em associação com Alloy Entertainment e A&E Studios, a primeira temporada é baseada no livro homônimo de 2014, escrito por Caroline Kepnes.

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O bibliotecário e a escritora

Guinevere Beck (Elizabeth Lail) é uma aspirante a escritora, que vê sua vida mudar completamente ao entrar em uma livraria no East Village, onde conhece o charmoso gerente, Joe Goldberg (Penn Badgley). Assim que a conhece, Joe tem certeza de que ela é a garota dos seus sonhos, e fará de tudo para conquistá-la — usando a internet e as redes sociais para descobrir tudo sobre Beck. O que poderia ser visto como paixão se transforma em uma obsessão perigosa, uma vez que Joe não vai medir esforços para tirar de seu caminho tudo e todos que podem ameaçar seus objetivos.

Terminar de assistir You me gerou um misto de frustração e satisfação. Satisfação pelo roteiro bem amarrado e frustração por saber que haveria uma segunda temporada. Depois de um enredo tão redondo e com um final tão corajoso, naturalmente surge o receio de que, para expandir o número de episódios, a qualidade da trama caia. Além disso, a série, que parecia se tratar da relação entre Joe e Beck, tomaria um rumo mais amplo, desfazendo a aura que existia. No mínimo, as pessoas que viram a série como o romance entre os dois protagonistas se sentiram enganadas e frustradas, pelas suas expectativas, análises e conclusões terem sido subvertidas pelo plot twist do episódio 10 e pelo conteúdo da segunda temporada.

Sei que a série foi baseada em um livro, mas, assim como o gancho para a segunda temporada, ignorarei essa informação a fim de facilitar a análise da primeira temporada.

You é, basicamente, uma narrativa em primeira pessoa. Os fatos são vislumbrados pelo olhar de Joe, o que nos leva a navegar junto com as suas paranoias, permitindo muitas inversões de expectativa. Essa perspectiva é eficiente em tornar o protagonista alguém para o qual torcemos ao longo dos episódios.

Outro fator que contribui para que o “protagonista vilão” não seja considerado tão desprezível quanto qualquer outro vilão seria é o caráter dos outros personagens. Em suma, todas as pessoas mais relevantes da série possuem falhas de caráter que podem ser consideradas inadmissíveis. Preconceituosos, infiéis, assassinos e agressores. Um dos poucos que não possui tais características, é o Ethan, aquele que tem menos exposta a sua vida pessoal.

A “maldade” em cada personagem é uma das maiores qualidades de You, pois leva a subtramas interessantes e, por vezes, complexas. Destaco duas: a vida de Paco, com a mãe viciada que vive presa a um relacionamento abusivo do qual não quer sair e Peach, tão obcecada por Beck quanto o próprio Joe. Uma de minhas cenas preferidas é quando Peach está observando Beck tomar banho enquanto Joe, mais ao fundo, observa ambas e reflete sobre a obsessão da melhor amiga de Beck.

As intrigas, traições e manipulações recorrentes entre os personagens os tornam humanos e palpáveis, de forma a não existir muita distinção entre “bons” ou “maus”. Evidente que Joe é um ponto fora da curva, mas a sua relação paternal com Paco acaba equilibrando a balança de suas ações, sem torná-lo “bom”, mas não o deixando totalmente “mau”.

Joe é um homem brilhante, mas, a obsessão o leva por caminhos mais perigosos do que seria necessário. Dois de meus personagens preferidos da ficção passam pela mesma situação, Light Yagami e Hannibal Lecter. Claro que não haveria história se eles não se descuidassem, mas ainda é um ponto.

A série é muito bem estruturada. Fragmentos de informação são jogados no ar ao longo dos episódios e vão se unindo aos poucos, formando a imagem da realidade. Candace, por exemplo, vai surgindo em algumas palavras e devaneios de Joe, até o penúltimo episódio, no qual há dois lados de exploração, as lembranças de Joe e a investigação de Beck. A progressão da trama também inclui a ordem natural dos assassinatos e o agravamento na situação familiar de Paco.

Com a verdade cada vez mais clara, chega o episódio final. É interessante a guerra de manipulação. Beck ilude Joe com o plano para ele se safar, mas, acabou sendo vítima da própria ideia, pois deu ao Joe a saída de que ele precisava. Poético o sucesso dela como escritora vir após a sua morte, em mais um momento de genialidade do protagonista.

Paco foi quem teve a maior transformação. Da mesma forma que Joe passou por um processo traumático psicologicamente, o garoto foi do zero ao cem. Ele aderiu à filosofia do protagonista, na cena aterrorizante em que deixa Beck, que estava presa no porão da livraria.

O desfecho deixa claro que, independente do quão errado fora matar Ron, isso permitiu que Paco e Claudia tivessem uma vida melhor. Essa suavização da morte também se aplica à Peach, que era praticamente tão maníaca quanto Joe, corroborando a minha tese de que ninguém nessa história é bonzinho.

Nos instantes finais do último episódio, quando uma mulher misteriosa entra na livraria, imaginei o final perfeito: Joe a aborda e se apaixona por ela. Pena que não foi isso o que aconteceu.

O final da série é quase o clichê bonitinho, exceto por Joe continuar ileso e Beck morrer. Esse descompromisso com a fórmula do bem vencendo o mal é um dos maiores motivos para eu considerar You uma série completa, redonda e profunda, digna de nota 10.

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