Crítica | Coraline (2002): um rascunho do que podia ser um bom livro

Personagens rasos, universo raso e enredo raso

Coraline é uma novela fantástica de terror do autor britânico Neil Gaiman, publicado em 2002 pela Bloomsbury, no Reino Unido, e pela Harper Collins, nos Estados Unidos. Ganhou os prêmios Hugo e Nebula Award de melhor novela de 2002 e o Bram Stoker Award de melhor trabalho de novos escritores de 2002.

Coraline acaba de se mudar para um apartamento num prédio antigo. Seus vizinhos são velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas encorajam sua curiosidade e seu instinto de exploração. Em uma tarde chuvosa, consegue abrir uma porta na sala de visitas de casa que sempre estivera trancada e descobre um caminho para um misterioso apartamento vazio no quarto andar do prédio. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam serem seus “outros” pais.

Se tem uma coisa que Coraline não é, é prolixa. Neil Gaiman vai direto ao ponto e entrega um livro dinâmico que não se arrasta antes de revelar qual é a história central. Essa característica é tanto boa quanto ruim, pois Coraline é fácil e rápido de ler, porém, é excessivamente superficial em seus personagens.

Excluindo as criações da Bela Dama, há onze personagens no livro: Coraline, a filha carente exploradora; Sra. Jones, a mãe reservada; Sr. Jones, o pai indiferente; Gato, o arrogante nômade; vizinhos, os três velhos artistas; as três crianças fantasmas; Bela Dama, a criatura faminta e carente.

O predicado que dei para cada um deles é a definição do que são ao longo de todo o livro. Com exceção do Gato e do Sr Jones, que terminam demonstrando mais afeto à Coraline, todos os outros seguem da mesma forma. Além de não se transformarem, possuem pouca profundidade.

Seria tolo exigir aprofundamento em coadjuvantes, mas, a família Jones é pouco explorada, o que, para um livro que tem como tema a relação familiar, é um erro terrível. Especialmente se levar em conta o peso que o desenrolar da história tem, ao apresentar pinceladas do conflito familiar aqui e ali, sem nunca ir mais fundo.

O início da trama mostra a Sra. Jones demonstrando seu amor de forma sutil, o Sr. Jones sendo indiferente à filha e a própria Coraline não demonstrando interesse pelos desejos culinários do pai. A insatisfação dela é o principal elemento dessa parte da história, no entanto, a apresentação negativa do outro mundo (Bela Dama com aparência monstruosa e Coraline desconfortável com o lugar) é rápida demais para que haja um paralelo.

Gaiman perdeu a oportunidade de explorar o quanto a carência da Coraline poderia fazê-la preferir o mundo da Bela Dama ao invés do mundo real. A ausência de dicotomia entre as realidades elimina qualquer tensão em relação à escolha de Coraline por ficar ou não no outro mundo.

A obviedade da escolha torna irrelevante qualquer diálogo amoroso e sedutor entre a Bela Dama e a Coraline, já que, ainda que se possa argumentar sobre o desejo afetuoso da Bela Dama, é quase certo que seu interesse na garota era tê-la como almoço.

Há coisas um tanto estranhas no decorrer do livro, como a Bela Dama sequestrando os pais da Coraline antes que ela se sentisse confortável no outro mundo, algo que obviamente acabaria com as chances de uma transição natural. A Bela Dama espantou sua presa. O jogo de procurar as almas e os pais foi outra coisa que me incomodou, afinal, a Bela Dama não estabeleceu regras (como um limite de tempo) e nem chegou perto de ameaçar a integridade física da Coraline, então tudo pareceu muito fácil, apenas uma questão de tempo.

O que fica ao final da leitura, é que Coraline é uma obra vaga. Explora pouco a família e a mitologia do outro mundo. Algumas coisas são sugeridas, como o corredor ser uma criatura mais antiga e poderosa do que a Bela Dama, todavia, o desenvolvimento acaba por aí. O livro é especialmente frustrante para aqueles que assistiram ao filme, essencialmente mais completo e esmagadoramente superior.

Coraline não é simplesmente um livro ruim. Ele apresenta boas ideias, mas parece ser um rascunho, não uma obra finalizada. O dinamismo excessivo da história lembra mais um resumo de um livro do que o produto final, com detalhes simples pouco observados, como nome, idade e aparência dos pais e da própria Coraline.

A arte de Dave McKean é irrelevante e não chega a acrescentar nada à narrativa, mesmo ao longo do final, quando a casa se torna mais abstrata do que concreta. Definitivamente, Coraline não tem o melhor de Neil Gaiman.


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