Editorial | A função da crítica

Já se perguntou por que existem críticos e por que se lê textos críticos? Claro que ver resenhas é um bom passatempo, eu mesmo já passei horas e horas o fazendo, mas, há muito além disso.

A meu ver, a crítica existe para te ajudar a entender o que você gosta, entender os motivos que levam uma pessoa a gostar ou desgostar de algo. No momento em que vir um jogo, por exemplo, e sentir uma empolgação inexplicável, um crítico te explicará que a empolgação veio em decorrência do uso de cores quentes pela direção de arte. Assim, você passa a entender o que sentiu e se torna mais hábil em buscar por outras obras que lhe tragam a mesma sensação, ou fugir delas, caso seja um sentimento que queira evitar.

Segundo o filósofo e sociólogo suíço Jacques Leenhardt (2000), o crítico de arte sabe, ou deveria saber, apreciar uma cor, uma intensidade, os detalhes, e, por isso, o texto crítico funciona como uma escola do ver, um guia para a sensibilidade. O crítico é aquela pessoa que, no museu, te explica o motivo de um quadro ser valorizado, embora para você, e para muitos, seja apenas um conjunto de manchas sem sentido.

Em 1977, a cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann propôs uma teoria da comunicação de massa, a qual foi nomeada Espiral do Silêncio. Prefiro chamá-la de efeito manada, no entanto. De acordo com essa teoria, uma ideia amplamente aceita pela maioria das pessoas tenderá a pressionar opiniões contrárias a deixarem de existir.

Evidente que isso pode ser feito pela força, mas a mera intimidação moral e o desejo de ser aceito pode levar muitas pessoas a não apenas esconderem a sua opinião, como também remodelarem-se de forma a pensar como “a maioria”.

Em um sentido progressivo, espiralado, a partir do momento em que um indivíduo entra em um grupo que ofende algo, caso ele discorde do uso da ofensa, irá se abster. Ficará calado, para evitar desagradar aos demais. O segundo passo, é a exposição prolongada aos xingamentos deixá-lo anestesiado. Agora, ele não vê mais tanto problema em ofender aquilo. O terceiro passo é a incorporação do comportamento da maioria no seu próprio. Neste ponto, a naturalidade com que enxerga a ofensa distorce o seu caráter e ele, que originalmente discordava daquela postura, passa a ofender como os demais.

Se a massa segue alguns poucos pensadores e estes emitem uma opinião consensual, a massa provavelmente irá rechaçar qualquer um que discorde desses pensadores. O famoso apelo à autoridade. O solitário que defender uma perspectiva diferente pode ouvir dos outros que ele não pode falar se não tiver a graduação x, como os “líderes intelectuais” têm.

O que quero dizer com isso é que, se a crítica especializada disser que algo é ruim, a tendência é que o público geral replique essa informação sem pensar, apenas porque “se o crítico falou, então está certo”. Passei muito por isso por gostar de Homem Aranha 3 (2007), que coloco facilmente no top 5 de melhores filmes de herói, embora ele seja completamente massacrado pelos sites mais famosos e pela maioria do público. Os portais cinéfilos, por exemplo, se referem ao desfecho da trilogia como “um desastre”.

Escrevi este texto para te dar um alerta, leitor. Não deixe que um suposto especialista dite para você o que é bom ou ruim. Também não o despreze, mas aprenda com ele as ferramentas necessárias para discordar e provar seu ponto de vista, com argumentos sólidos, em vez de achismos.

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