Crítica | Vingadores Ultimato (2019): a saga chega ao fim

Um desfecho digno para uma dupla inigualável

Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, no original) foi o 22º filme do Universo Cinematográfico Marvel, lançado em 25 de abril de 2019. Contou com todo o elenco principal dos filmes anteriores, foi dirigido por Anthony e Joe Russo e escrito por Christopher Markus e Stephen McFelly.

Vingadores

O filme cobre o desfecho dos eventos iniciados pelo estalo de Thanos, que varreu a vida de metade do Universo, quebrando o time de heróis. Os Vingadores remanescentes precisam enfrentar uma última batalha na grande conclusão de 22 filmes da Marvel Studios.

Após o final baixo astral de Vingadores: Guerra Infinita (2018), em mais uma jogada ousada da Marvel Studios, Thanos é morto com meia hora de filme, de forma seca, ríspida e sem conseguir reagir. Ser pego de surpresa é bom, mas não gosto dessa cena. Ela não corresponde com a antológica sequência de luta do final de Guerra Infinita, o que me decepcionou.

Vingadores: Ultimato se concentra em explorar arcos dramáticos dentre os Vingadores restantes, com destaque para Gavião Arqueiro e Viúva Negra. Clint foi tão impactado pela morte das pessoas que amava, que se tornou um assassino, um justiceiro. Embora não tenha se desvirtuado dessa forma, Natasha demonstra guardar uma forte angústia pelo ocorrido, uma dor emocional intensa.

É poético que justamente os menos “super” do grupo sejam os responsáveis por buscar a Joia da Alma, já que para consegui-la, não basta batalhar contra alguém, é preciso um sacrifício, uma alma por uma alma. Esse é, sem dúvidas, o preço mais alto a se pagar pela vitória. Me surpreendi com a morte da Natasha, e a senti. Depois de ver o sofrimento de ambos, era compreensível seu desejo por morrer de uma forma que contribuíssem para a derrota de Thanos.

Como de se esperar, o drama mais destacado é o de Tony Stark. A cena em que ele põe para fora o seu rancor e a sua dor diante do Steve Rogers é uma das minhas preferidas. Ao mesmo tempo em que Tony está acabado física e mentalmente, Steve está perfeito, como sempre. Engoli a contragosto o visual do Steve sem barba.

O filme parece ter sido feito de fã para fã. O humor foi provavelmente o mais galhofa de até então, com direito a Thor gordo e barbudo xingando player em jogo online. Ainda no humor, há piadas um tanto exageradas e outras plenamente funcionais, de acordo com o contexto no qual foram inseridas, como as que envolvem o Hulk na lanchonete e o Scott na viagem temporal.

Os arcos internos dos personagens se estendem e, no caso de alguns, se encerra. Thor renuncia ao trono da Nova Asgard; Bruce e Hulk aparentemente se entendem; Steve e Tony fazem as pazes com a devolução do escudo e Tony encontra o pai no passado. A viagem para 1970 também abriga um olhar de Steve para Peggy Carter, que é a maior justificativa de sua escolha, ao fim do filme.

A aparição do Stan Lee hippie teve uma carga emocional maior devido ao seu falecimento, que deixou toda a comunidade fã de filmes e quadrinhos de luto.

Ao optar pelo mecanismo das viagens temporais, a Marvel entrega um presente inigualável ao público que acompanhou todos os filmes do MCU: novos pontos de vista dentro dos eventos passados, como a batalha em Nova Iorque de Os Vingadores (2011). A sequência que envolve a Joia do Espaço, que é pega pelo Loki, é hilária e o gancho para a visita aos anos 70.

Dentre as autorreferências empregadas na viagem temporal, uma das mais empolgantes é a jornada do Steve Rogers para pegar a Joia do Espaço, que passa por uma cena no elevador bem parecida com a que ocorre no Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014), tendo um desfecho diferente, no qual Steve diz “hail Hydra”, o que me lembrou de imediato a HQ em que algo semelhante ocorre.

Hulk usar a Manopla do Infinito para reverter o “estalar de dedos” foi aceitável, especialmente por não terem revivido o Loki ou a Gamora, sendo que ela foi reinserida no universo regular através da sua versão de outra linha temporal, o que foi uma boa escolha, dada a emoção incutida na sua morte em Vingadores: Guerra Infinita.

Mesmo com a morte rápida de Thanos, sua sombra paira ao longo do filme pela possibilidade de ele tentar pegar as Joias que os Vingadores estão reunindo, concretizada com a Nebulosa alternativa se infiltrando no grupo. Para superar Vingadores: Guerra Infinita era preciso uma batalha ainda mais grandiosa. Apesar do número massivo de personagens, o embate principal ficou aquém do esperado.

Ver o Capitão América digno de empunhar o Mjölnir, a Capitã Marvel, Homem de Ferro e Thor enfrentando Thanos de igual para igual é empolgante e tenso, ante o risco de vida que os heróis correm, mas não chega a ser tão bom quanto os Guardiões, Homem Aranha, Doutor Estranho e o Homem de Ferro tentando tirar a Manopla do Thanos, ou a batalha antes do “estalar de dedos”.

A guerra, no geral, é excelente. Aparecem em tela todos os heróis e seus respectivos grupos de seguidores, com as mais distintas habilidades e personalidades. O momento é carregado de emoção por mostrar aqueles que foram mortos por Thanos, aumentando a relevância da batalha. Se o Thanos debilitado do início do filme foi fácil de matar, o da batalha final estava saudável e muito mais forte, o que contrabalanceou a pouca ação anterior com uma bela coreografia.

Não digeri bem o fato de o Tony poder usar o poder da Manopla, todavia, o momento foi de arrepiar, com enfoque na expressão de Thanos, que, ao observar seu exército virar pó, senta no chão e aguarda a própria morte. Essa é a justificativa para o que todos esperavam, a morte do Homem de Ferro.

Apesar das muitas mortes que se esperava do filme, apenas dois personagens morreram e um se aposentou, um fator que diminui o peso dramático. O fim da Natasha foi merecidamente forte, o de Tony Stark foi excessivamente poético e demorado, o que para quem já esperava sua morte, se tornou enfadonho. O final, com o Steve ficando no passado e levando uma vida comum, foi uma grande decepção. Depois de chegar ao auge de seu poder com o Mjölnir e sobreviver a uma luta contra Thanos, não cabe dizer que ele quis viver uma vida comum. Mesmo levando em conta seu olhar para a Peggy Carter, é muito pouco para embasar uma decisão tão grave.

A passagem de escudo, do Steve para o Sam, é o selamento da passagem de bastão e o fim da formação original dos Vingadores do MCU. Como fechamento para todo o resto que fora lançado, Vingadores: Ultimato funciona perfeitamente, a cereja no bolo do, já muito bem feito, MCU.

Existem determinadas obras que são um marco, um símbolo de qualidade dentro de seu segmento. Essas obras tendem a ter sua genialidade imortalizada pelos fãs e pelos subprodutos da cultura pop. Dentre essas obras, encontra-se Watchmen (1986), cujos aspectos geniais incluem simular realisticamente documentos sobrepostos, exibindo parte de seu texto e permitindo “meia compreensão”, além de contar uma história em quadrinhos, o Contos do Cargueiro Negro, um gibi dentro de um gibi.

Em suma, Watchmen é a expressão máxima de como se trabalhar quadrinhos. Em Vingadores: Ultimato, de modo semelhante, a exploração do filme como uma obra que engloba todo o MCU o leva ao limite do que um longa poderia abarcar, com humor acentuado, autorreferências e releituras de cenas que se tornaram clássicas, como o Hulk em Nova Iorque, tornando-a um deleite para fãs e qualquer espectador que buscar o fechamento de pontas soltas na franquia.

O penúltimo filme da Fase Três do MCU não é perfeito, mas os seus acertos são tão precisos e suas sacadas tão astutas que, segundo a legião de fãs da Marvel, Vingadores: Ultimato está no pódio dos melhores filmes de herói de todos os tempos.

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