O comércio livreiro em transformação

A agonia no mercado literário revela os erros no modelo de gestão

A crise financeira das livrarias Saraiva e Cultura é um dos maiores impulsores para a conclusão de que o mercado de livros está em crise. Apesar do pedido de recuperação judicial de ambas as gigantes do segmento, a realidade é que o mercado está se transformando e o modelo de negócios, outrora mainstream, está se tornando inviável.

Livraria
Livros físicos estão ameaçados de extinção?

Estatísticas jogam contra

Números da Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial Brasileiro, divulgados no dia 29 de abril, mostram que, em 2018, o mercado editorial apresentou queda nominal de 0,9%, o que significa um decréscimo real de 4,5%. A tendência negativa prossegue até o primeiro trimestre de 2019, quando o número de exemplares vendidos caiu 30% comparado ao mesmo período do ano passado, de acordo com uma pesquisa da Nielsen, encomendada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros. O faturamento total foi de R$ 134 milhões, enquanto no ano anterior fora de R$ 180 milhões.

A queda nas vendas puxa para baixo os orçamentos das livrarias e das editoras, o que, por sua vez, limita os seus catálogos, a entrada de novos autores e diminui a oferta de livros, engessando os estoques e retroalimentando a falta de interesse do público por ser cliente de tais livrarias.

O lado do leitor

O fator imprevisibilidade afasta alguns leitores, que preferem não comprar livros de ficção, por receio de se arrependerem depois de ler. “Acho melhor comprar livros de psicologia, para estudar. Essas histórias de aventura é mais seguro pegar da biblioteca. Se eu não gostar, é só devolver, sem ficar irritado pelo dinheiro gasto”, comenta o balconista Admilson Gama.

Ao mesmo tempo em que muitos preferem a leitura digital, outros tantos a rejeitam. “Realmente, eu não gosto. Prefiro gastar um pouco a mais de dinheiro, se preciso. É horrível a leitura, gosto de livro mesmo [livro físico]”, explica a estudante Isabella de Melo.

O lado do editor

A baixa nas maiores livrarias impacta diretamente as editoras, que são forçadas a reduzir os seus lançamentos e tiragens. Em meio à crise, destacam-se aquelas que possuem compromisso com algum determinado público, além do interesse financeiro. “Depois de auxiliar um jovem a produzir um livro de ficção e ver a dificuldade para publicá-lo, eu resolvi criar uma editora para ajudar escritores iniciantes a publicarem suas obras” relata o fundador da Editora Fross, Antônio Carlos Frossard.

“A maior parte das vendas vêm de dois lados. As que são feitas pelo autor, em que ele próprio as promove, aumentando o seu ganho, e a venda em plataformas online. Por enquanto, meu único retorno é a satisfação pessoal de poder ajudar escritores a realizarem seus sonhos”, complementou Frossard.

O lado do autor

Os problemas financeiros atuais dificultam o ingresso de autores inexperientes no mercado editorial, o que leva muitos deles a desistir ou procurar modos alternativos de publicação. “Tentei contato com editoras que pareciam mais receptivas, mas, em geral, elas prometiam retorno e não diziam mais nada. Optei por um tipo de publicação no qual o leitor paga todos os custos com gráfica, burocracia, valor da editora e os créditos da minha autoria. É vantajoso para mim, só que o preço final fica alto”, conta a escritora Katlin Caroline Silva.

Um dos obstáculos para aspirantes a escritor é o preconceito relacionado a obras nacionais. Para algumas pessoas, se algo é estrangeiro, automaticamente é melhor que o que foi produzido no Brasil. “Acredito que o crescimento de editoras menores contribui para a maior valorização do escritor brasileiro. Ainda há muito preconceito, mas, aos poucos, estamos evoluindo. Pelo que pude presenciar, está mudando essa ideia de que o que é feito no Brasil não faz jus a qualidade do que vem de fora”, aponta a escritora Sandra Milani Moreira.

Nichamento e o valor agregado

A tendência no mercado como um todo é a maior personalização dos produtos, uma experiência que o acompanhe. No mundo editorial, esse valor extra pode ser composto por exposições de livros e editoras em eventos conectados aos seus princípios. Dessa forma, quem compra o livro “ajuda a causa”.

A atuação nas redes sociais é fundamental, como também o cuidado em compreender que, independente do faturamento com e-books, o comércio literário vem migrando para o meio digital, ainda que exista um público que jamais dispensará andar por entre estantes e folhear um livro antes de comprá-lo.

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