Crítica | Death Note Netflix (2017): o oposto da Shonen Jump

Reverso, inverso e do avesso

Em 2017, foi lançada, na plataforma digital de streaming Netflix, uma adaptação live action da obra Death Note, inicialmente serializada pela editora de quadrinhos Shonen Jump. O longa contou com a direção de Adam Wingarde e foi protagonizado por Nat Wolff. Duramente criticado pelos fãs do original, o filme não teve sequência.

caderno
A maior arma de destruição em massa já criada

Muitos criticaram o filme pelos motivos errados. É preciso avaliar tanto como adaptação quanto como obra isolada, das duas formas, é possível obter o veredicto. Vi o filme como algo isolado, conversei com pessoas que gostaram ou odiaram e reavaliei os personagens principais. Sumariamente, eles são o oposto dos originais.

L emotivo e desajeitado

Fez raciocínios ilógicos e teve deduções inexplicáveis, como a sobre a localização do Kira. Começou como um detetive que não gosta de morte em hipótese alguma e terminou tentando matar o indivíduo que ele queria prender por assassinato. O aspecto de usar máscara sumiu sem motivo aparente ao longo do filme. Mesmo desconsiderando que se trata de uma adaptação, as incongruências são uma constante.

No campo das comparações, o L original tem como características marcantes a pele branca, a racionalidade e a delicadeza com a qual segura os objetos, enquanto o L da adaptação tem pele preta, se deixa levar pela emoção, beirando a loucura, e carrega certo desleixo com os doces.

Light fracassado social

O protagonista começa como um jovem de caráter questionável e, subitamente, passa a querer um mundo melhor. A reação natural seria como a de Higushi, o terceiro Kira, que mata para ganhar dinheiro. Aquele grito completamente descabido ao ver Ryuk fez pouco sentido. Uma coisa é um grito de susto, outra coisa é toda uma sequência de reações histéricas. A forma com que revelou o caderno para Mia soou patética e, ainda por cima, matou um cara que estava fazendo bullyng, demonstrando mais uma vez seu caráter questionável.

Light Turner é um fracassado socialmente. Um nerd que faz as lições dos outros, apanha de valentão e, na maior parte do tempo, reage ao que ocorre ao seu redor, sem ambições, sem projetos, apenas navegando ao sabor das ondas. Light Yagami era a perfeição, popular, bom em esportes e ambicioso. O padrão de contrariedade se repete.

 Light tem momentos absurdamente sem nexo de inteligência, faz planos complexos ao mesmo tempo em que toma decisões incompativelmente estúpidas. Não há coesão no personagem. Isso é tão nítido que chega a parecer proposital.

Mia, o verdadeiro Kira

O personagem mais coerente durante o filme. Seu único problema foi a burrice de, ao final, não usar o caderno pra conseguir a posse, sendo que ela poderia evitar a morte do Turner do mesmo jeito, queimando a folha escrita. Misa Amane, a sua contraparte, é ingênua, donzela e totalmente devota ao Kira, que a manipula impiedosamente. Mia, no entanto, é quem manipula Turner, agindo mais como uma “garota má” e maquiavélica. A sensação que fica é de que Mia é o verdadeiro Kira, e não Light Turner.

Watari, apenas Watari

Não é um personagem muito importante, mas carrega os seus problemas. Deixando de lado cenas patéticas como a da canção de ninar, Watari tem uma morte estranha. Sendo o braço direito de um famoso detetive cuja identidade nunca foi revelada, o normal seria que ele próprio também tivesse uma identidade secreta, como na obra original, mas, Light o mata escrevendo “Watari” no Death Note. Concluímos, com isso, que seu nome é Watari e que o Death Note do filme dispensa a presença de sobrenomes para matar. Fácil demais, no mínimo.

Ryuk muito ativo

O fator mais importante no Ryuk original é não interferir, ser um expectador que se diverte com o que ocorre. Na adaptação, ele não só interfere, como induz Light a matar pela primeira vez.  É apontado como a melhor coisa do filme, noção da qual não discordo.

Um difícil veredicto

Praticamente tudo no filme ou é o oposto da obra original ou não faz sentido dentro do universo criado, como o pai de Light ser chefe da investigação. Dito isto, não é fácil dar um veredicto. Embora seja tentador classificar o longa como ruim, sua trilha sonora é boa, a direção de arte capricha na atmosfera “terror” e os efeitos visuais das mortes empolgam.

Os furos no roteiro soam negativos, a princípio, mas as resenhas que eles geram, apontando a quantidade de incoerências e fatos sem sentido, garantem longos períodos de entretenimento, que é o objetivo maior de produções audiovisuais do tipo. Em síntese, Death Note é tão ruim que chega a ser bom.

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2 comentários

  1. Mt boa análise! Única coisa q eu não pontuaria é o L ter pele mt clara na obra original enquanto no filme colocaram um de pele preta. Eu não acho q essa característica seja relevante pq o L é inglês então seria bem coerente ele ser negro. A cor da pele por si só não interferiu no enredo em relação ao L. Ainda mais quando levamos em conta q o Light do filme é ocidental, então daí o L negro já tá valendo tb kkkkk.

    Pra mim, pior foi a aparência do Light. Isso sim interferiu no enredo – a começar q o Light é japonês, mas isso até q eu não exigia q colocassem um japa não. É uma característica marcante o Light Yagami ser bonito, andar bem vestido/arrumado, estilo simples, passando um ar de sobriedade. Até pq ele usa a aparência pra seduzir e manipular as mulheres. No filme colocaram um Light vestido igual um rebeldezinho perdedor – típico dos filmes americanos. Q cabelo foi aquele? Imperdoável! E olha q eu nem exigi um Light japonês, mas, poxa, pelo menos q colocassem um com o estilo do personagem!

    Eu, bem antes do lançamento do filme, lembro q aguardava ansiosamente por ele – eu e mh amg trocávamos informações sobre a obra: qm iria atuar etc. Daí, lembro q qdo lançou, fui correndo assistir sozinha, à noite, toda animada – mas já com medo pq eu sempre tenho um pé atrás.
    Indescritível a minha decepção. Saí criticando tanto! Nem voltei a assistir e prefiro esquecer q hollywood um dia teve a petulância de cagar na minha obra fictícia favorita.

    Curtido por 1 pessoa

    1. A cor do L é parte do pacote da impressão que ele causa e essa impressão é essencial: parece anêmico, que não toma sol e que dorme pouco. Isso integra características marcantes do personagem, o qual é um contraponto à perfeição que é a aparência do Light. Isso é deixado bem claro quando eles vão fazer o discurso juntos por terem obtido a maior nota na prova.

      O que você disse sobre o visual do Light Turner é o que eu extraio do comportamento dele e do roteiro. Só que ser oriental não compõe um traço da personalidade do Light e ele nem parece oriental, então, assim como no caso do L, vejo a nacionalidade como algo pouco relevante.

      Eu nunca tinha dado bola para esse filme, mas o assisti porque um amigo insistiu. Eu não me decepcionei porque já sabia que era ruim, mas acabei impressionado com a quantidade de decisões erradas que o filme toma.

      Gostei muito do ponto visual que você abordou.

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