Crítica | Death Note (mangá) vol. 1: Light Yagami, Ryuk e o tédio

O humano cujo nome for escrito neste caderno morrerá

Crítica do vol. 2

Este é o primeiro de uma série de 12 posts de resenha, os quais avaliarão cada volume do mangá de Death Note, lançado em 2003, escrito por Tsugumi Ohba e desenhado por Takeshi Obata.

Em suas primeiras páginas, o volume já define Light e Ryuk como seres descontentes com o seu mundo. Ambos estavam entediados e é este um dos motivos para suas ações, ainda que Light tenha outros princípios, além da “saída do tédio”.

Apesar da descrença inicial, natural para qualquer humano em sua situação, a hipótese de o Death Note funcionar prende na mente de Light, que o carrega consigo, lê suas regras e, por algum tempo, tenta resistir ao desejo de utilizá-lo. A escalada moral pela qual transita é orgânica, entre a recusa da condição de assassino e a consideração da possibilidade de matar criminosos.

O conjunto de valores de Light são distorcidos e a forma com que vê os humanos é de cima para baixo. Seu complexo de superioridade o leva a dizer que pessoas inúteis poderiam tornar o mundo melhor se não existissem. Sua frieza ao cogitar matar pessoas próximas denota o quão forte era seu desejo de tornar evidente ou ampliar sua sensação de superioridade.

Light tenta, também, manter-se no controle, antecipar-se aos eventos. Não se coloca como superior apenas em relação aos humanos, mas em relação ao Ryuk, na maior parte do tempo. Apesar disto, especialmente no primeiro encontro com o shinigami, é possível ver a apreensão de Light quanto à morte ou a perder o caderno, chegando a se colocar como um “escolhido” de Ryuk. Mais uma vez, ele desejava materializar a sua superioridade em comparação com o resto dos humanos, pois ele, e apenas ele, teria sido escolhido para ser portador do caderno.

Se proclamar um deus permitiu ao Light proteger sua mente do remorso que poderia sentir por ser um assassino. Sendo um deus, ele abdicou de sua vida e da condição de inocente para assumir o fardo de tornar o mundo um lugar melhor. Não fosse isto, não duvido que Light escreveria o próprio nome no caderno.

O desejo de ser adorado e o desejo de adorar criaram Kira, o salvador dos bons e carrasco dos malfeitores. O monstro egocêntrico de Light conseguiu resultados ao diminuir a criminalidade no mundo e obteve seus seguidores, como um fenômeno da internet. Porém, havia L.

Personagens misteriosos sempre atraem. Como um agente secreto de elite, o super detetive também olha a humanidade de cima para baixo, só que ele se agarra ao lado jurídico de “justiça”, enquanto Light busca por algo mais revolucionário.

Neste primeiro volume, já são deixados claros os aspectos mais importantes de Kira e L. Ambos se interessam por desafios e possuem motivações dúbias por detrás de suas ações. Os dois querem não apenas derrotar, mas humilhar o adversário. Por isto, Light deixa pistas para que L se aproxime e este contou seu plano durante a transmissão da morte de Lind L. Taylor.

A mirabolância dos planos de Light para esconder o caderno e descobrir quem o está seguindo esconde o desejo pelo confronto, por encontrar alguém que o investigue e que possa ser esmagado sem nenhuma piedade. Light poderia, facilmente, ignorar L e continuar sua faxina no mundo, mas não, para ele, mais importante do que mudar o mundo era ser glorificado.

Há uma tensão emocional breve criada pelo parentesco entre Soichiro e Light, mas a própria desconexão do último com seus laços familiares afasta o leitor da perspectiva deste conflito. Além do pai policial, nada além do núcleo “Caso Kira” importa realmente para Light.

A parte dos planos, investigações e deduções é empregada de forma coerente. Tendo um pouco de boa vontade não há incômodo em acompanhar as engenhocas de Light e a aproximação de L, especialmente por esta ser embasada em evidências deixadas propositalmente por Light. De certa forma, Ohba criou um motivo consistente para que o jogo de gato e rato continue por mais tempo.

A mitologia acerca dos shinigamis é pincelada aqui e ali, bem como as regras do caderno, mas o foco da trama está mais no jogo mental que na parte mística. O clima fantasioso permeia as páginas do volume no tom adequado, sem sobrar nem faltar. O que pode soar negativo é o tom expositivo de vários diálogos e certa repetição de frases que surge vez ou outra.

Este volume introdutório a Death Note se inicia como uma grande questão filosófica sobre justiça e termina como a disputa intelectual entre o gênio da lei e o gênio do crime. No geral, um bom mangá.


A escrita do nome não terá efeito se o escritor não tiver em mente o rosto da vítima. Assim, pessoas que compartilham o mesmo nome não serão afetadas


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