Crítica | Os Caçadores de Sonhos (1999): o amor entre uma raposa e um monge

Sob os cuidados de Gaiman e Amano, o conto japonês ganha um roteiro lírico e uma arte deslumbrante

Em 1999, para comemorar o aniversário de dez anos da publicação inicial, a editora de Neil Gaiman em Sandman, Karen Berger, lhe pediu que fizesse uma história especial. Para a ilustração, foi convidado Yoshitaka Amano (Vampire Hunter D). Por preferência de Amano, em vez de uma história em quadrinhos, fizeram um livro ilustrado. Gaiman optou por escrever uma releitura de um conto japonês, adaptou seus conceitos ao universo Sandman e criou Os Caçadores de Sonhos.

Uma raposa e um texugo, que viviam nos arredores de uma montanha, fizeram uma aposta ao observar o templo cuidado por um jovem monge. Quem o fizesse abandonar o lugar primeiro, poderia utilizá-lo como casa. Através de seus poderes místicos, ambos tentaram e falharam. Agora apaixonada pelo monge, a raposa ouviu de criaturas das trevas um plano para matá-lo e se decidiu a não deixar que o fizessem, a qualquer custo.

A história tem um forte apelo ao abstrato, com a caracterização dos cenários e personagens, em especial, as criaturas místicas e o mundo dos sonhos. Isso contribui para a atmosfera folclórica envolta por lirismo e tragédia, que se estende ao longo das quase 130 páginas da obra.

O desfecho dos personagens é bem arquitetado, com o Monge se sacrificando pela raposa e esta o vingando. A punição para o Onmyoji foi abrangente, sua luxúria o levou a perder tudo o que tinha, permanecendo apenas com a sua vida.

A relação entre o monge e a raposa não é clara, mas há um comentário dele sobre a beleza da raposa enquanto mulher e a história de seu macaco de estimação, que, somados à sua solidão como monge, podem justificar seu apreço por ela.

Gaiman acerta ao não deixar claro o fim para o laço entre o monge e a raposa, apresentando duas possibilidades, que são ventiladas pela tradição oral. Uma diz que o monge e a raposa ficaram juntos após a morte e a outra diz que eles eram de mundos diferentes, tanto na vida quanto na morte.

A arte de Amano é tão grandiosa quanto o roteiro de Gaiman. Com cores ora fortes e expressivas, ora monocromáticas e quase homogêneas, Amano “desenha o lirismo”, unindo traços abstratos com as figuras peculiares da trama. Destaca-se o uso da proporção em vários momentos, colocando seres místicos como gigantescos perto de outros personagens, encaixando o leitor na perspectiva do quão pequeno se é perto de todo o resto.

Em síntese, Os Caçadores de Sonhos é uma história de amor e fantasia que, embora utilize elementos de Sandman, pode ser lida de forma avulsa.

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