Crítica | Death Note vol. 2: Naomi e as conveniências

Se a causa da morte for escrita dentro dos próximos 40 segundos após o nome ser escrito, assim acontecerá, desde que a causa não seja impossível

Crítica do vol. 1                                                                                                           Crítica do vol. 3

O vol. 2 de Death Note começa de onde o primeiro terminou, a morte do sequestrador do ônibus. Essa cena deixa claro que, se Light não quisesse “caçar e destruir” L, Raye Penber atestaria sua inocência. Seu desejo pela vitória o fez buscar mais.

Light e L
Gênios da lei e do crime

O plano do ônibus era extremamente arriscado, pois permitiria ser criado um registro de que Raye apresentou sua identidade para Light, fosse através do investigador — como de fato o foi —, fosse através de Yuki. O passo seguinte envolveu ainda mais riscos.

No vol. 1, Light teve suas ações offscreen reveladas por meio de flashback e, neste, o plano do metrô foi mostrado da mesma forma. Escolha errada de Ohba, pois o artifício deixa claro o fim antes de aprofundar o meio, tornando todas as páginas do flashback despidas de peso dramático, afinal, o leitor já sabe que Kira matou os agentes do FBI. O uso deste recurso dá a impressão de a leitura ser mais maçante do que é na realidade.

No plano do metrô surge uma diferença notável em relação ao anime. Enquanto no mangá Raye pede para outro agente pedir ao chefe o arquivo com nomes e rostos dos demais investigadores, no anime, ele escreve o nome do chefe no Death Note, e, por conta da descrição de sua morte, é enviado o arquivo para os doze agentes.

O Light do anime parece ser mais inteligente que o do mangá.

Com Naomi Misora, noiva de Raye, surgem as conveniências — possivelmente — mais irritantes de toda a história. Light a encontra na recepção do departamento de polícia, ouve dela suas suposições sobre Kira antes de qualquer outra pessoa e a enrola até deixá-la confortável para revelar seu verdadeiro nome.

Há um obstáculo interessante criado naquela situação: o nome falso que Naomi deu. Como uma ex-agente do FBI, era natural que isso ocorreria, porém, Light agiu de modo extremamente suspeito ao se apresentar dizendo como seu nome é escrito. Após aquilo, é difícil acreditar que ela confiaria em Light, e, mesmo sem a soletração do nome, não é fácil engolir a forma com que ela “se entrega”.

Contudo, a sequência é boa. Light precisou se virar nos trinta para conseguir matar Naomi e agiu de maneira humana, ao se focar tanto no mais complexo que deixou passar o óbvio, desligar seu celular para não receber uma ligação do pai. O jeito com que ele a provoca, instigando uma reação mais enérgica e o desejo de entrar para o time de investigação, é satisfatório.

Vale ressaltar a mania do Light de contar vitória, seja com Naomi e a olhada no relógio, seja com Raye e o metrô. Seu desejo por humilhar os adversários, praticamente um vício, é o que mais lhe levou para perto da derrota.

As precauções tomadas por Light foram impressionantes. Com o grafite, a maçaneta e o pedaço de papel na porta, ele não só pôde identificar se haviam entrado em seu quarto, como também avaliar sua intenção. Todavia, as câmeras de segurança trazem um contraponto útil para desmistificar a inteligência de Kira, afinal, seu plano “fazer a polícia investigar o L” deu errado e ele acabou se enrolando sozinho, tornando-se mais suspeito.

Muito me admira que Light tenha demorado tanto tempo a perceber que, caso ficasse incapacitado para escrever no Death Note, as mortes cessariam e ele se tornaria imediatamente suspeito. Felizmente, para ele, o caderno mata com data marcada. Com tantas regras e necessidades de regularidade, ser o Kira é praticamente um emprego.

Como uma trama de investigação, era óbvio que se afunilaria a quantidade de personagens. Os policiais que deixaram o Caso Kira deixaram nas mãos do L um pequeno time. Talvez não o mais capacitado, mas cheio de motivação. A aparência do L faz sentido, um homem excêntrico que parece meio desnutrido, pouco saudável. Há também um pequeno salto lógico, quando ele afirma que Kira trabalha sozinho, sem dar maiores explicações, mas esta é uma situação recorrente em Death Note.

Quanto mais o leitor pensar no “Team L” como um conjunto de nomes e rostos, mais se importará individualmente com cada um deles. Acerto dramático essa condução, que não se reflete no “Team Kira”, formado apenas por um Light isolado do resto do mundo.

A decisão de Ryuk por auxiliar Light, procurando pelas câmeras de segurança, representa um desvio do comportamento observador. Apesar da justificativa relacionada ao vício do shinigami em maçãs, a ajuda sobrenatural não parece justa, soando mais como uma muleta para o avanço de Kira em sua batalha intelectual.

Existem problemas tão frequentes em Death Note que não valeria a pena dizê-los mais do que uma vez, então o farei agora. Os diálogos expositivos e a repetição de frases fazem parecer que o Ohba acha que o leitor é muito burro para entender o que está acontecendo, e isso me tira um pouco da imersão na história.

A arte de Obata é hora tenebrosa, com quadros excessivamente simples, hora impressionante, com o desenho dos cabelos de Light. Imagino que ele se dedicava na maior parte do tempo para deixar o cabelo do Light bonito.

Neste vol. 2, Death Note apresenta diversos erros, mas o conflito à distância entre Kira e L compensa, tornando-o bom, no balanço final.

Se a causa da morte não for especificada, a vítima morrerá de ataque cardíaco

Um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s