Death Note | Quem é a justiça, L ou Kira?

Kira, L ou nenhum dos dois?

Death Note é uma série de quadrinhos, desenho, filmes e série inicialmente escrita por Tsugumi Ohba e desenhada por Takeshi Obata. Obteve grande sucesso dentro e fora do Japão, carregando em seu cerne uma disputa intelectual norteada por uma questão filosófica: o que é a justiça?

Estátua
Justiça: uma palavra pequena, porém profunda

Justiça é uma palavra a qual se atribui diferentes significados. Para uns, é dar a alguém o que ele merecer. Para outros tantos, é fazer cumprir a lei. Segundo um dicionário online, “justiça” é a “particularidade daquilo que se encontra em correspondência (de acordo) com o que é justo; modo de entender e/ou de julgar aquilo que é correto”. Em Death Note, o conceito se estende a reflexões mais profundas.

Os protagonistas de Death Note possuem diferentes opiniões. O senso de justiça de Light Yagami é puro, devido ao contato com o mundo policial que seu pai permitia. A partir disto, ele desenvolveu a crença de que as pessoas boas não deveriam sofrer e que as más deveriam. Isto foi reforçado pelo caderno, mas já era uma tese sonolenta em seu interior.

L, por outro lado, é um legalista. Externamente, defende que a lei seja cumprida independente das consequências que isso trará. Isto torna o detetive um arauto dos Códigos Penais, mas um tecnicista incapaz de enxergar o todo, ou, pelo menos, um negador voluntário da realidade. Uma pequena dose de legalismo torna o sistema de justiça mais eficiente, mais rápido, e permite a elaboração de leis mais objetivas e capazes de chegar ao resultado desejado, no entanto, esta visão simplista pode levar ao erro em casos mais complexos.

Há um agravante individual para cada um em sua noção de justiça. Light se ver como superior aos outros lhe serviu como desculpa para “aceitar” todo o fardo de ser um assassino para tornar o mundo um lugar melhor. Sua capa divina lhe deu um motivo óbvio para qualquer expectador e para os moradores daquele mundo, todavia, era mais um desdobramento de sua arrogância do que um desejo pela paz.

O complexo de superioridade de Light e seu interesse por desafios eram tão maiores do que o seu senso de justiça que ele matou Lind L. Taylor, o dublê do L, sem nenhum motivo além do prazer de ser maior que os outros. Ao longo da história, se faz mais presente esse lado de Light indiferente ao que é ou não justiça.

L, como revelado no Capítulo Extra, jamais foi motivado pelo senso de justiça. Seu interesse era apenas em resolver quebra-cabeças, o que bate com decisões “estranhas” que ele tomou, como colocar a Misa em uma prisão. Tal fato não o impede, contudo, de reprovar as atitudes de Kira, só demonstra que seu envolvimento era bem menos ideal e mais um entretenimento, entendimento de Near, ainda no Capítulo Extra.

Por trás da máscara de ambos estava o desejo por sair do tédio. Uma brincadeira de alto nível que fez com que gostassem de conviver, apesar de saberem que, ao final, um deles morreria.

Pensando no sentido puro de justiça, Light era mais “justiça” do que L, por ter em seu pensamento uma conexão maior, ainda que distorcida para acomodar-se ao seu ego, com “justiça”.

Entretanto, é comum argumentarem que ambos os lados eram distorcidos ou verdadeiros, e essa discussão não chega a um consenso nas mesas de debate sobre Death Note. Para alcançar um veredicto menos subjetivo, tomemos os resultados, o cenário macro do mundo.

Quando L pega o Kira, embora esteja capturando um serial killer — e espero que quanto a esta designação não haja dúvida —, está também impedindo a transformação que ocorria no mundo. Light fez a criminalidade reduzir em mais de 70%, e isso é um número absurdo.

Ignorar os benefícios do assassinato de criminosos e se agarrar a detalhes que não invalidam o todo, como Near faz ao dizer que Light é apenas um assassino, é de uma mesquinhez atroz. Quem tem este tipo de visão não costuma enxergar as consequências ao redor das ações, e vive com opiniões superficiais.

A discussão acerca da possibilidade de se transgredir a lei para causar um bem maior é longa e se resume a princípios VS resultados. Mais uma vez, existem partidários de ambos os lados. Não obstante, para responder a pergunta que intitula este artigo, prefiro uma avaliação estilo “no fim das contas”.

Ao final de tudo, quem fez um bem maior para o mundo, Kira matando criminosos ou L (no caso, Near) vencendo Kira? Pela redução da criminalidade, Light Yagami foi melhor para o mundo do que os detetives, e, por isto, Light era a justiça.


Abaixo, a versão em podcast do artigo.


Confira outros posts sobre Death Note no blog:

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Crítica | Death Note vol. 1: o tédio humano e shinigami

Crítica | Death Note Netflix (2017): o oposto da Shonen Jump

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