De Homem de Ferro à Ultimato – A trajetória do MCU

O caminho entre a falência e a franquia bilionária

Com o coração acelerado, dei passos ansiosos até uma poltrona lateral pouco prestigiada. Respirei fundo e aproveitei aquelas três horas. Me diverti, senti medo e fiquei com um nó na garganta, mas consegui me controlar. O mesmo não posso dizer de quando vi todos os personagens em tela. Não resisti ao meu senso de vergonha e aplaudi. Quando o filme acabou, eu estava leve, a ficha não tinha caído, mas então subiram os créditos. Esperei, por instinto, a cena que viria a seguir, mas ela não veio. Entendi, por fim, que aquele era o final de uma era. O fim da era de ouro do cinema de super-herói. Foi só nesse instante que eu chorei. E não estava sozinho.

MCU
Um intrincado universo cinematográfico

A ausência da cena pós-créditos, marca registrada do cinema Marvel, representa o fim de um ciclo no mundo dos super-heróis. O ponto de maior glória em um processo que durou décadas até chegar ao seu apogeu. Além de um final, ela marca também um começo. É o início de um mega universo compartilhado, que, no futuro, incluirá os X-Men e o Quarteto Fantástico.

Universo Marvel ontem

Em 1993, foi criada a Marvel Studios. Devido a problemas financeiros, a Marvel licenciou vários de seus personagens a outras empresas, que poderiam produzir obras que os utilizassem. Dentre esses acordos de direitos, destacam-se Homem Aranha, adquirido pela Sony Pictures Entertainment, e X-Men, pertencente à 20th Century Fox.

O lucro dos licenciamentos foi suficiente para sanar o problema financeiro, mas, vendo o sucesso de X-Men e Homem Aranha, em meados do ano 2000, a cúpula da Marvel Studios, David Maisel, diretor operacional, Avi Arad, presidente, e Isaac Perlmutter, CEO, visaram uma fatia maior de ganho e decidiram produzir os próprios filmes.

Em 2008, com uma estrutura de financiamento pelo Merrill Lynch, banco norte-americano, os direitos sobre o Homem de Ferro e o Hulk retomados e sob a presidência de David Maisel, a Marvel Studios iniciou o seu universo compartilhado. O Marvel Cinematic Universe (MCU) é constituído de “fases”, agrupamentos de filmes que, na ordem em que são lançados, expandem e aprofundam o seu conteúdo.

Entre humanos e deuses

A Fase Um apresentou ao público os heróis principais do universo que se formava. Em vez de um típico bom moço, a estrela maior era o Homem de Ferro, um playboy genial e controverso, interpretado magistralmente por Robert Downey Jr.

Neste primeiro momento, são expostos os elementos-chave do grupo principal: Tony Stark representa a tecnologia e o egoísmo; Steve Rogers é o herói clássico e altruísta; Thor é a ponte para o mundo místico; e o Hulk, bem, o Hulk esmaga.

Os Vingadores (2012) foi um filme aclamado pela crítica, pelo público e entrou para as maiores bilheterias da história. Tendo de um lado Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Hulk, e, do outro, Loki e a armada alienígena Chitauri, demonstrou ser possível reunir vários personagens e, ainda assim, contar uma boa história. “A magia de Vingadores está em juntar ação, comédia e um bom vilão, sem pesar demais em um ou outro elemento. Uma nova definição do que é um filme de herói”, analisa Diego Domingos, colunista do blog Cinema News.

Ao final do filme, um alienígena roxo aparece. Esse é um dos vários detalhes esparsos que constroem a “história macro” do MCU, como um quebra-cabeça sendo montado. Outras duas peças surgem, a Joia do Espaço em Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) e a Joia da Mente em Os Vingadores.

Para a crítica especializada, muito do sucesso dos filmes Marvel se deve à presença de Kevin Feige no alto escalão do estúdio. “O que fez a Fase Um do MCU funcionar foi a criatividade do atual presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, em mostrar que esse era um modelo de negócio valioso”, afirma Domingos.

Bilheteria (em dólares)

Os Vingadores – 1,519 bilhão

Homem de Ferro 2 – 623,9 milhões

Homem de Ferro – 585,2 milhões

Thor – 449 milhões

Capitão América: O Primeiro Vingador – 370,6 milhões

Orçamento (em dólares)

Os Vingadores – 220 milhões

Homem de Ferro 2 – 200 milhões

O Incrível Hulk – 150 milhões

Thor – 150 milhões

Homem de Ferro – 140 milhões

Criminosos e piratas espaciais

Os filmes da Fase Dois ampliaram o aprofundamento em seus temas. Enquanto a cena pós-créditos de Homem de Ferro 3 é a cereja do bolo nas sacadas humorísticas, Thor: O Mundo Sombrio (2013) amplia o mundo místico e Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014) é um filme de espionagem que destaca o espírito heroico de Steve, sendo apontado por fãs como um dos melhores filmes de herói da história.

Guardiões da Galáxia (2014) foi uma jogada ousada da Marvel, ao investir em personagens pouco conhecidos e muito, mas muito humor. Elogiado por sua trilha sonora e efeitos visuais pertinentes à ambientação espacial, o filme obteve a terceira maior bilheteria de 2014.

No segundo longa do grupo dos “maiores heróis da terra”, Vingadores: Era de Ultron (2015), Tony cria Ultron, uma inteligência artificial que concluiu que, para salvar a Terra, era preciso exterminar a humanidade. Essa motivação mais complexa acompanhou um fim mais trágico do que o esperado de um filme do gênero. “Bem diferente do unilateral e caótico Loki, Ultron tem um objetivo que faz sentido. Na verdade faz sentido demais, e isso é suficiente para que os Vingadores sejam pegos completamente desprevenidos e tenham que, realmente, dar a volta por cima antes do final apoteótico”, aponta Vinicius Carlos Vieira, editor do videoblog Cinemaqui.

De agente secreto até o humor pastelão, a Fase Dois contribuiu com mais peças para o quebra-cabeça. Apresentaram-se as Joias da Realidade, em Thor: O Mundo Sombrio, do Poder, em Guardiões da Galáxia, e a ameaça de Thanos tomou proporções mais claras. “É a mais fraquinha, meio da trilogia, mas foi extremamente importante para o desenvolvimento do universo. Lançou caras novas e detalhes que resultaram nos filmes mais profundos da Fase Três”, ressalta Maria Clara Tenório, articulista do blog Cine Laje.

Bilheteria (em dólares)

Vingadores: Era de Ultron – 1,4 bilhão

Homem de Ferro 3 – 1,2 bilhão

Guardiões da Galáxia – 773 milhões

Capitão América: O Soldado Invernal – 714 milhões

Thor: O Mundo Sombrio – 644 milhões

Orçamento (em dólares)

Vingadores: Era de Ultron – 250 milhões

Homem de Ferro 3 – 200 milhões

Guardiões da Galáxia – 170 milhões

Capitão América: O Soldado Invernal – 170 milhões

Thor: O Mundo Sombrio – 170 milhões

Quebra-cabeça concluído

Na Fase Três, tudo toma proporções máximas. Nota-se, também, a expansão do uso de personagens menores, diversificando e massificando o leque de heróis disponível.

Capitão América: Guerra Civil (2016) é considerado um “Vingadores 2.5”, devido a presença de muitos outros heróis. A alta expectativa foi premiada com um enredo centrado nas consequências das próprias atitudes dos Vingadores. O vilão, Barão Zemo, vence, ao dividir e colocar os heróis uns contra os outros. Nesse ponto, a Marvel rompe de vez com o rótulo de “filmes coloridos” e continua a jornada para readquirir os direitos de produção, com o retorno do Homem Aranha.

Doutor Estranho (2016) eleva à potência máxima o universo místico, com um show de efeitos visuais, não só empolgantes para o público, como também determinantes para o rumo das batalhas. “Assim como Guardiões, Doutor Estranho usa muitas cores, capricha no visual e dá passos mais largos para o universo cósmico que existe nos quadrinhos”, destaca Diego Domingos. Entra em cena mais uma peça, a Joia do Tempo.

Se o que chamava a atenção no primeiro Guardiões da Galáxia era o excesso de cor e de humor, o combo Guardiões da Galáxia Vol. 2 e Thor: Ragnarok (ambos de 2017) explora esses fatores até o público ter um ataque epilético e a barriga doer de tanto rir. “O público pediu humor e a Marvel entregou tudo o que podia, remodelando alguns personagens para afiar as piadas”, constata Bruno Bebianno, em vídeo publicado no videoblog Luz Câmera Ação.

Pantera Negra (2018) e Capitã Marvel (2019) são mais um degrau de aprofundamento na diversidade, sendo Pantera Negra o primeiro filme de super-herói a receber indicação ao Oscar de melhor filme. Não apenas colocou personagens negros para poder “riscar da lista” esse item, como também explorou o conflito racial e o usou como base para o seu vilão. “É um filme político. Quem acompanha a política global certamente vai perceber algumas alfinetadas. Algumas pessoas não fazem ideia do impacto que tem a presença de tantos personagens negros em um filme, que é, para mim, um dos melhores da Marvel”, comenta Alan Tadini, autor do blog O Quadrinheiro Véio.

Após uma década de seu início, o MCU chegou ao apoteótico e apocalíptico Vingadores: Guerra Infinita (2018), no qual todos os personagens batalham pelo universo e a última peça, a Joia da Alma, surge. Thanos mostrou ser o maior vilão de todos e venceu, matando bilhões com as Joias do Infinito, em um final que chocou os fãs.

Com a difícil tarefa de superar seu antecessor, Vingadores: Ultimato (2019) usou de suas três horas de duração para fazer uma grande homenagem ao MCU e aos fãs, o que justifica os relatos de sessões de imprensa que acabaram com os críticos chorando.

A recepção foi a melhor possível, batendo a marca de 1 bilhão em bilheteria após cinco dias, o mais veloz de até então. Tomou também o posto de maior bilheteria norte-americana em uma estreia. Encerrou as jornadas de Tony e Steve, apresentando os caminhos para o futuro.

O sucesso nos cinemas não é proporcional à fidelidade aos quadrinhos, sem que isso retire o mérito do MCU. “Não acho que tenha sido uma adaptação fiel, na verdade, foi bem diferente. São veículos distintos e épocas diferentes de lançamento”, avalia Tadini.

Bilheteria (em dólares)

Vingadores: Ultimato – 2,7 bilhões

Vingadores: Guerra Infinita – 2 bilhões

Pantera Negra – 1,3 bilhão

Capitão América: Guerra Civil – 1,1 bilhão

Capitã Marvel – 1 bilhão

Orçamento (em dólares)

Vingadores: Ultimato – 356 milhões

Vingadores: Guerra Infinita – 300 milhões

Capitão América: Guerra Civil – 250 milhões

Pantera Negra – 200 milhões

Guardiões da Galáxia Vol. 2 – 200 milhões

X-Men, Quarteto Fantástico e o futuro

Pelo que foi revelado sobre a Fase Quatro do MCU, sabe-se que ela explorará os personagens já expostos e apresentará novos, seguindo a linha utilizada na Fase Dois. Já foram confirmados Viúva Negra, Thor: Amor e Trovão, Blade, Doutor Estranho 2, Shang-Chi e Os Eternos.

Apesar da compra da Fox pela Disney, a tão aguardada inclusão dos X-Men no MCU não possui previsão para ocorrer e demandaria um reboot em ambas as franquias, algo que parece contraproducente, diante do legado já construído. Outra saída, seria a utilização de alguma ferramenta de alteração da realidade, como as próprias Joias do Infinito, para fundir os universos.

De seu passado conturbado ao presente avassalador, o Universo Cinematográfico Marvel encerra a sua “era de ouro”, e caminha, rumo a um futuro promissor.

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