Crítica | Death Note vol. 3: surge o Segundo Kira

Após especificar a causa da morte, detalhes da mesma podem ser escritos nos 6 minutos e 40 segundos seguintes

Crítica do vol. 2                                                                                                           Crítica do vol. 4

Um bom resumo para este volume seria “ele sabe que eu sei, mas não sabe que eu sei que ele sabe que eu sei”. Esta é a dinâmica desenvolvida ao longo dos capítulos, que trazem talvez a mais icônica cena de Death Note. A estrutura do vol. 3 lembra uma narrativa interna, com um começo em ritmo lento, um clímax, confrontos empolgantes e um cliffhanger deveras poderoso.

37970834671_d0801e1b46_o
Um novo shinigami surge

Contrariando suas palavras sobre ser um observador, Ryuk localizou todas as câmeras e explicou o posicionamento delas para o Light. Uma das saídas dele para lidar com elas foi a televisão dentro do pacote de batatas, que é uma das coisas inteligentes que devemos aceitar serem lógicas, para não perdermos a imersão em Death Note.

O Light foi esperto o suficiente para não parecer suspeito, mas sua inocência era tão evidente que L ficou mais desconfiado. Ironicamente, Light parecia normal demais, perfeito demais. Com tantas dezenas de câmeras instaladas no quarto, é bem difícil acreditar que Light conseguiria encontrar um ponto cego, mesmo que Ryuk o orientasse. No fim, não parece que a ajuda de Ryuk foi um fator decisivo para que Light se colocasse à frente de L.

Uma diferença entre o mangá e o anime, neste ponto, é que no mangá não há enfoque nos efeitos colaterais da abstinência de maçãs do Ryuk, algo que é mais explorado no anime, com o Ryuk se contorcendo.

Light é cuidadoso, mas em vários momentos deixa o ego falar mais alto e diz coisas que podem ser suspeitas, por exemplo, a análise que fez do anúncio dos 1.500 investigadores que chegaram ao Japão.

L tinha como único suspeito o Light e possuía também a certeza de que o controle mental de Light, caso fosse o Kira, devia ser gigantesco, mas que sua obsessão por parecer normal o tornava artificial. Partindo daí, L fez a coisa mais inteligente de até então — quiçá, da obra inteira —, se apresentou para Light.

Em uma forma dicotômica de apresentação, a arte e o roteiro se uniram para mostrar um L excêntrico e cheio de trejeitos no mesmo patamar intelectual de Light Yagami, muito mais pomposo, como um espectador chega a apontar. Essa diferença de aparência cria no leitor uma espécie de desejo por vê-los se confrontando, pois são polos opostos.

A partida de tênis é o ponto alto do vol. 3. Light, apesar de ter sido campeão nacional de tênis, tem dificuldade em vencer L. Como no restante do volume, nos concentramos em ver o que se passa na mente de cada um, ao mesmo tempo em que, em segundo plano, assistimos ao duelo equilibrado e em alto nível. Mesmo tendo a confusão mental do adversário ao seu favor, L perde.

Após alguns testes mentais, Light agiu conforme L planejara e garimpou sua vaga na Força Tarefa. O ataque cardíaco de Soichiro é um elemento que me agrada sempre que vejo em alguma obra de ficção: coisas acontecem, doenças e acidentes. Claro que Ohba deve ter pensado nisso a partir da capacidade do Kira de matar, mas não deixa de ser uma consequência lógica para tanto esforço empregado por Soichiro desde o começo da história.

A jogada do L em se apresentar encurralou totalmente Light. Sua presença o levou a bolar estratégias e planejar seu comportamento, o que aproximou Light de decisões estúpidas, como pegar leve na partida de tênis. Jogar iscas para ver a reação do suspeito é genial, como as fotos dos bilhetes, armadilha na qual Light caiu.

Levando em conta a frieza de Kira em lidar com a vigilância, foi uma medida arriscada e potencialmente eficaz L o confrontar face a face, pois seria o máximo de estresse que poderia fazer Light passar. Mesmo que a desestabilização emocional não tenha extraído algo mais revelador de Light, se L não morresse, Light poderia ser o Kira, enquanto a morte dele comprovaria, ou ao menos indicaria com muito mais certeza, que Light era Kira.

Cada pergunta sobre o Caso Kira fazia Light precisar pensar em como agir de modo a não parecer artificial e ao mesmo tempo não se entregar. É o ápice do jogo de gato e rato praticado por ambos e rende diálogos incríveis.

A participação da TV sensacionalista é pertinente, afinal, assassinos em série vendem e as informações sobre o Caso Kira deveriam ser escassas. É um detalhe importante sobre o mundo humano que não costuma aparecer em Death Note, que se foca muito mais no lado detetive do que na reação das pessoas à existência de um ser que mata criminosos usando ataque cardíaco.

A existência de um Segundo Kira foi providencial para Light ter o foco desviado de si. É lógico que algum outro shinigami poderia jogar seu Death Note no mundo humano, como Ryuk. Depois de observar Kira “de perto”, L não teve dificuldade em deduzir que as fitas foram criadas por outra pessoa.

O cliffhanger de Kira ter de lidar com um potencial aliado, ou inimigo, mais poderoso que ele e com um senso moral ainda mais distorcido é sensacional. Em uma história na qual vemos de cima todos os fatos, um mistério que é desconhecido pelos espectadores tem um potencial elevado de ampliar o nível da trama. O desfecho torna o vol. 3 intenso e mais que satisfatório.

A revelação do Segundo Kira, no entanto, é motivo de críticas por parte dos fãs de Death Note, mas isso é um assunto para a próxima resenha.

Após este caderno tocar no solo, ele passa a ser de propriedade do mundo humano

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s