Crítica | Death Note vol. 5: Yotsuba e o Terceiro Kira

O humano que utilizar o Death Note não poderá ir para o Céu nem para o Inferno

Crítica Death Note vol. 4                                                                        Crítica Death Note vol. 6

O vol. 5 de Death Note começa com o Light tendo o seu pedido atendido: é confinado em uma cela para saberem se ele é ou não o Kira.

Rem e Ryuk
Essência parecida, personalidades opostas

Por algum motivo que desconheço, Light se entregou para L sem abdicar da posse do Death Note. O estranho é que, fazendo isso e sem programar mortes para o período no qual ficaria preso, ele deixou mais uma evidência contra si. A ausência de ações do Kira é um bom motivo para L suspeitar que Light deixou de ser Kira ao mesmo tempo em que mudou seu comportamento.

L mais uma vez fez uma jogada psicológica, ao colocar Soichiro em uma situação de execução para com o filho. Na cabeça do L, Light Yagami, como um indivíduo sem escrúpulos, mataria o pai, se preciso fosse. Com a presença da Misa Amane no carro, ficava ainda mais provável a morte do Soichiro, caso um deles fosse o Kira.

O interessante é que L não assumiu que não eram o Kira, mas sim que haviam deixado de ser. No caso de Light, essa conclusão não foi bem explicitada, mas a adoração de Misa por ele, somada ao seu apreço por Kira e sua história de vida, deixavam claro que ela foi o Segundo Kira. Com a culpa incontestável de Misa e a origem de seu amor por Light em Aoyama, fica óbvio para L, e qualquer investigador com meio cérebro, que Light era Kira.

A Força Tarefa se focou tanto na postura insuspeita de Light — filho de um policial honrado, o maior aluno do Japão, bom filho e bom irmão — que não percebeu, ou talvez não quisesse ver, a quantidade de evidências apontando Light como Kira. Pode até ser um comportamento humano, mas é notável a burrice da polícia japonesa em contraste com a sagacidade do L.

Rem entregou o caderno para um humano que provavelmente o utilizaria em benefício próprio. Um empresário esperto o suficiente para matar criminosos de modo a evitar criar a suspeita da mudança de “Kira”. O Terceiro Kira mata também pessoas do mundo empresarial para elevar os ganhos da Yotsuba, o que a maioria das pessoas faria, caso o Death Note caísse no mundo real.

O novo Kira mencionou que, durante o período sem mortes de criminosos, a taxa de criminalidade se elevou. Um fator importante a se considerar caso você queira saber quem era a justiça.

Para fins de vigilância, L algemou-se ao Light, o que garante alguns bons momentos de comédia, como a briga entre eles. Sendo o Light menos suspeito, sua ajuda se tornou mais valiosa para a captura do Kira. Durante a investigação, Light entendeu evidências que o apontavam como Kira — o encontro com Naomi Misora, que disse achar que Kira mata com mais do que ataques cardíacos, e com o Raye no ônibus — e, sem maiores justificativas, não as compartilhou com L.

Essa postura demonstra que a mente de Light já era distorcida antes do caderno. Não havia maldição, destino ou qualquer coisa do tipo, apenas a concretização do que já se imaginava, ou ao menos, do que não se rejeitava por inteiro. Essa deve ter sido a parte mais interessante do desenvolvimento do Light até este ponto.

L tinha certeza de que Light e Misa eram Kira, mas não entendia o que lhes ocorreu, o que o levou para um estado deprimido. Se estivesse errado sobre eles, não saberia por onde prosseguir e, se Kira tivesse seu poder transferido de pessoa a pessoa, caçá-lo a esmo seria perigoso. A atitude desanimada, diante de um quebra-cabeça possivelmente insolúvel, revela mais um pouco sobre a motivação de L, não tão nobre quanto o que se costuma imaginar. Contudo, tal reação é natural, diante das dificuldades que enfrentava desde o começo do mangá.

Em mais uma demonstração de inteligência, L era o segundo e o terceiro melhor detetive do mundo. Uma medida lógica para saber quem deseja descobrir sua identidade, afinal, quem melhor do que o segundo melhor detetive do mundo para caçar o melhor detetive do mundo? Imagino que esse trabalho traga bastante renda para L, até porquê, não há como manter a fama de duas identidades detetivescas sem resolver muitos casos.

O Terceiro Kira “comprou” as autoridades e garantiu que não haveria uma instituição o perseguindo. Era de se esperar que isso ocorresse. L, sem razão aparente, quis testar o quanto os policiais estavam comprometidos com o caso, não revelando que os sustentaria, se precisassem. Aizawa, com muita razão, se irritou e deixou a equipe. O gênio do L afasta as pessoas e o torna antipático, talvez pela maneira de enxergar tudo como um jogo. Sem o apoio da polícia, L perdeu muito em poder de fogo, ainda mais sem ter um suspeito tão próximo quanto o Light.

Não sei se houve diferença na tradução/adaptação, mas a clássica cena do “Matsuda, me traz um café” não está no mangá. São dadas pistas de que ele se sente insatisfeito com a pouca utilidade que tem, agindo então por conta própria. Ele quase estragou tudo, mas as coisas se encaminharam para uma exagerada encenação de morte. Matsuda nunca foi relevante e nada mudou com esse volume, além de termos mais certeza do quão ele é patético.

Com um estelionatário, L tinha a Yotsuba achando que o estava investigando e, com uma ladra, obteve imagens das reuniões secretas dos 8 “um de nós é o Kira, mas não sabemos quem o é”. Engraçado que a Força Tarefa utilize mão de obra criminosa para caçar um criminoso. A linha moral parece bem tênue, não só neste volume, como no restante também.

Tenho um sério problema com esse arco Yotsuba. Ao longo dele, há uma dinâmica de que o grupo empresarial sabe que o Kira está entre eles, mas ninguém sabe quem de fato ele é. Além de essa perspectiva me soar forçada, essa situação é muito diferente do que há de melhor em Death Note.

Death Note não é um mangá de mistério, é um mangá de conflito intelectual, e se tem uma coisa que não existe no arco Yotsuba, é o conflito intelectual. L deprimido não tem graça. Light Yagami “bonzinho” não tem graça. Os dois conversando já não tem a emoção de antes. O esfacelamento da esgrima intelectual entre os protagonistas é a cereja no bolo do vol. 5 de Death Note, a primeira parte do arco Yotsuba, que é a pior fase da história.

Se a data e hora da morte forem especificadas como parte da causa, assim será, desde que não seja superior à expectativa de vida da vítima

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