Crítica | Coringa (2019): entre a tristeza, a loucura e a satisfação

Depressivo, impactante e independente

Quando Coringa foi anunciado, não me empolguei. Entendi que, se o filme fosse bom, não importaria. Se o filme fosse ruim, também não importaria. Isto porque ele não integra o Universo Estendido DC, e, para mim, seria desnecessário. Ao final das duas horas de duração, a sensação que fica é de que sim, ele não muda nada no DCEU, contudo, o longa é muito bom e funciona mesmo se tirar as referências aos quadrinhos.

Lançado em 3 de outubro, Coringa é um filme norte-americano que foi dirigido por Todd Phillips, com roteiro de Phillips e Scott Silver. Tendo em seu elenco Joaquin Phoenix (Maria Madalena), Robert De Niro (Taxi Driver), Zazie Beetz (Deadpool 2) e Frances Conroy (Homens em Fúria), o longa-metragem teve orçamento de 55 milhões de dólares

Coringa é centrado no icônico arqui-inimigo e é uma história solo original, nunca vista antes nas telonas. A exploração de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um homem negligenciado pela sociedade, não apenas ganha um estudo de personagem arrojado, como também um amplo conto preventivo.

Em A Piada Mortal, o Coringa testa sua tese de que um dia ruim enlouquece o mais são dos homens. Ocorre que Arthur Fleck nunca teve um dia bom.

Arthur é um homem doente, no qual a vida bate sem a menor piedade. A cena em que ele faz uma criança rir e é repreendido pela mãe dela exemplifica bem o quanto seus momentos felizes acabam destroçados. Vemos isso novamente quando ele anima crianças em um hospital e quando está com a mãe assistindo TV. Arthur é mostrado pelo programa de seu ídolo da comédia, mas, ele é a piada.

A exibição no programa é a maior humilhação que Arthur poderia sofrer, exceto, talvez, pela que iria ocorrer ao final do filme. Primeiro, quase não conseguiu se apresentar no stand up por conta da risada involuntária, depois, o alcance dessa vergonha atingiu a TV, propagando ainda mais tal humilhação.

Mais um momento de felicidade surge, quando Arthur mata os três homens no trem, mas, a prefeitura corta a verba e sua consulta semanal é cancelada. Ele fica sozinho e percebe que não se sente mal em matar pessoas. Talvez esta perspectiva venha pela má índole daqueles que foram alvejados.

O maior peso na “balança da loucura” foi a relação familiar de Arthur. Após descobrir a verdade sobre sua mãe, estava sozinho e ciente de que, desde o início de sua vida, foi infeliz e atingido por pessoas más. Nesse momento, ele abraça os sentimentos negativos e a despreocupação com o assassinato.

A narrativa vai construindo a virada do Arthur em Coringa como dois quebra-cabeças. O primeiro trata da esperança, a qual vai se esfarelando ao longo do filme. O segundo é a sensação de existência. Arthur não era nada. Não era ninguém. Mas, depois de matar três pessoas, se tornou uma marca. Um símbolo da luta contra os poderosos. A máscara de palhaço se tornou uma espécie de marca da rebelião, tal qual é a máscara do Guy Fawkes.

Porrada atrás de porrada, Arthur perdeu tudo que o mantinha na realidade: sua mãe, o sonho de ser comediante e a terapia. Em meio a esse deserto de esperança, ele encontrou na violência, na rebelião, aquilo que o fazia se sentir vivo. Aquilo que o fazia existir. Assimilando completamente essa ideia, ele foi para o programa do Murray, onde sabia que a plateia riria dele, não de suas piadas. Ante essa nova humilhação, Arthur preparou seu grand finale.

Após discursar sobre a sociedade doentia de Gotham, Arthur matou Murray e admirou o caos que se instaurou na cidade, ciente de que tudo ocorria por sua causa. Esse apreço por ser o vento que faz girar o catavento lembra o Coringa de Heath Ledger, mas, os motivos são um tanto diferentes.

Em O Cavaleiro das Trevas, Coringa quer ver até onde os humanos vão. Ser um observador do caos. Em Coringa, Arthur se sente realizado por ser reconhecido. Enfim as pessoas olham para ele e ele é alguém. Como o reconhecimento veio através do assassinato, Arthur incorporou esse desejo, mesmo após ser preso.

A sociedade foi o gatilho para Arthur e vice-versa. O péssimo ambiente de Gotham propiciou a bagunça que vemos no filme, do ralé que aprendeu a gostar de desafiar a lei até o rico que menospreza as pessoas e acha que é a solução para os problemas delas. Uma sociedade que transformou um assassino em justiceiro apenas por ele ter matado homens de boa saúde financeira. Uma sociedade tomada por ódio, sofrimento e desvio de caráter, palavras que sintetizam bem quem é o Coringa e como se transformou.

Coringa tem um bom roteiro. O roteiro é tão bom que se não envolvesse personagens da DC ainda seria muito bom, ou até melhor. Digo isto porque a cena final de Thomas Wayne, coerente dentro do filme, é desnecessária. É um easter egg óbvio que acrescenta pouco (uma alusão ao ciclo de ódio estabelecido em Gotham, que viria a tornar Bruce Wayne uma pessoa má) e satura a já saturada origem do Batman. Não era preciso simular além da morte do Thomas.

Prefiro chamar o protagonista de Arthur, em vez de Coringa, pois, na maior parte do tempo, ele é uma pessoa sofrida hesitante em fazer o que gosta, algo peculiarmente distinto do Coringa palhaço criminoso, que podemos dizer que só aparece verdadeiramente nas cenas finais de Coringa.

A fotografia e a trilha sonora se complementam ao entregar uma mistura de momentos tristes, solitários e sombrios com outros de alegria cartunesca. Na maior parte das cenas, Arthur é inserido num ambiente com iluminação indireta. Ele está no escuro, entre uma leve sombra e um ponto luminoso, como num palco. O filme é o seu palco.

O clima depressivo que acompanha o longa é quebrado ao final, quando vemos um Arthur feliz no sanatório. Este sim, sem dúvidas, é o Coringa.

O discurso de oprimido do Arthur, somado ao desfecho criminoso, causa certa glamourização da violência. Reconhecer isto, todavia, não muda o fato de eu dispensar a necessidade de obras de entretenimento mostrarem que o seu conteúdo não é “legal no mundo real”.

Coringa tem momentos cômicos que às vezes podem causar estranheza, especialmente a cena com um anão e uma porta, mesmo sendo engraçados.

No geral, o filme é muito bom. Seria um ótimo filme de origem caso utilizassem o Joaquin Phoenix no DCEU. Com esse intrincado background, é possível imaginar uma adaptação de A Piada Mortal para o cinema e filmes excelentes usando Batman e Coringa. O problema é que o DCEU é uma bagunça e a Warner continua esticando o problema em vez de resolvê-lo de uma vez.

Coringa é triste, trágico e perturbador. Um ótimo filme solo, que seria excelente, caso seu final fosse menos positivo.


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