Crítica | Advogado do Diabo (1997): uma questão de escolha

Entre a ética e a ambição

Advogado do Diabo (The Devil’s Advocate, no original) foi lançado em 1997. Dirigido por Taylor Hackford e escrito pela dupla Jonathan Lemkin e Tony Gilroy, o filme teve em seu elenco Al Pacino (O Poderoso Chefão), Keanu Reeves (Matrix) e Charlize Theron (Uma Saída de Mestre). Contou com um orçamento de US$ 57 milhões e arrecadou mais de US$ 152,9 milhões nas bilheterias de todo o mundo. Al Pacino chegou a recusar o papel várias vezes, até que mudanças no roteiro o convenceram a aceitar.

Direito
A lei e a ganância, péssima combinação

Kevin Lomax (Keanu Reeves), advogado de uma pequena cidade da Flórida que nunca perdeu um caso, é contratado por John Milton (Al Pacino), dono da maior firma de advocacia de Nova York. Kevin recebe um alto salário e várias mordomias, apesar da desaprovação de Alice Lomax, sua mãe e uma fervorosa religiosa, que compara Nova York a Babilônia. No início, tudo parece correr bem, mas logo Mary Ann (Charlize Theron), a esposa do advogado, sente saudades de sua antiga casa e começa a testemunhar aparições demoníacas. No entanto, Kevin está empenhado em defender um cliente acusado de triplo assassinato e cada vez dá menos atenção a sua mulher, enquanto que seu misterioso chefe parece sempre saber como contornar cada problema e tudo que perturba o jovem profissional.

Advogado do Diabo mantém os pés no chão durante a maior parte do filme. Pequenas insinuações demoníacas surgem aqui e ali casualmente, mas, o foco maior está na expectativa e nas falas de Milton, detalhes sugestivos de sua verdadeira identidade (embora não sejam dicas realmente, dado o nome do longa). Com o transcorrer da última meia hora de filme, no entanto, a quantidade de elementos místicos se eleva exponencialmente, o que causou estranheza em muitos espectadores, chegando a baixar a nota dada ao filme por conta de seu final.

Mais especificamente, podemos localizar dois pontos de mudança no tom: o fim do caso do magnata, que marca o momento a partir do qual as forças místicas tornam-se protagonistas, em vez de coadjuvantes, e o encontro de Kevin com Milton no escritório, composto por uma cena patética de chamas. Retirando da pauta uma óbvia crítica aos efeitos especiais, essa suposta mudança de rumo mais agrega do que desagrega ao filme.

Em síntese, a trama trata da vaidade e da capacidade de escolha. Kevin é um advogado ambicioso, que relega os cuidados com sua esposa para seguir lucrando e vencendo. Sua conduta moral duvidosa o levou a defender pessoas culpadas e as livrar da justiça. Ao final, quando tenta colocar a culpa em uma suposta manipulação feita por Milton, este o faz lembrar que sempre teve escolha.

A escolha está acompanhada da predisposição. Não é possível afirmar que Milton, de forma direta ou indireta, controlou as ações de Kevin, contudo, não é impossível cogitar a possibilidade de Milton ter ampliado a predisposição à vaidade presente em seu filho. Esta tese é reforçada pelo final do filme, no qual Milton, sob um disfarce, o provoca até sua decisão vaidosa surgir. O sentimento já devia estar dentro dele, mas, precisava de um pequeno empurrão.

Milton critica o modo divino de estabelecer regras, mantendo um objeto próximo às pessoas e dizendo a elas para não tocá-lo. É uma objeção válida, já que Deus poderia simplesmente impedir que os humanos fossem tentados, todavia, o próprio Milton explicou sobre o livre arbítrio. Não há sentido em criar regras se não haverá a possibilidade de as pessoas quebrarem-nas. Sem escolhas, não existe a necessidade de estabelecer leis.

A escolha de Kevin permite a ele recusar gerar o Anticristo, ainda que sua vaidade o tente a isso. O mesmo princípio não o impediu de aceitar conceder a entrevista ao Milton. Liberdade e predisposição, sempre presentes.

Agrada-me a discussão acerca dos valores morais religiosos, porém, Advogado do Diabo poderia ter sido muito mais consistente se abordasse menos o lado místico, não incluindo o nascimento do Anticristo entre as escolhas de Kevin.

Apesar de seus excessos em alguns momentos, Advogado do Diabo é um bom filme, com um roteiro que leva o espectador a refletir sobre o quão longe se pode ir pelo dinheiro e pela vitória.


Deixe suas dúvidas, críticas ou sugestões nos comentários. Siga o Blog do Kira por e-mail e não perca os próximos posts. Acesse o Podcast do Kira, um canal com versões em áudio de alguns textos daqui e conteúdos inéditos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s