Crítica | Death Note vol. 9: Mello e as conveniências

O material para escrita pode ser qualquer um (tinta, sangue, batom, etc.). O caderno funcionará se o nome for escrito de forma legível

Death Note vol. 8

A crítica ao volume 2 de Death Note está intitulada como “Naomi e as conveniências” e essa repetição do título não é despropositada. Lá, as convenções narrativas não apagam a qualidade do conteúdo, mas, aqui, é diferente. As descobertas de Near e Mello, além de suas interações, parecem ser fruto da mente de um autor com preguiça, mais ou menos como o resto do que ocorre na segunda metade de Death Note.

No início do volume, há um momento pesado no qual se vê a Sayu Yagami inerte, de modo suspeito. Ela não parece bem e o Soichiro Yagami se sente culpado por isso. Neste ponto, ele entende que o melhor para a família dele é a aposentadoria. A atitude é louvável. De que adianta deter Kira e destruir toda a família?

Talvez planejando um novo álibi, Light Yagami decidiu ficar com o caderno da Misa grudado nele e abdicar da posse do seu próprio, assim, mesmo sem a posse, ele não perderia suas memórias. Como ele tomaria banho? Aí eu não sei. Apesar de isso fazer mais o estilo do Light antigo, é tão claramente arriscado ele ficar sem o caderno e virar o Light bonzinho do arco Yotsuba que me causou estranhamento.

Quando a força tarefa recebeu o Death Note e o plano do Kira, eu tive que parar um momento e respirar, para digerir aquela situação. Assisti ao anime algumas vezes e li o mangá inteiro há tempos e, toda vez em que rememorava os fatos da segunda metade, eu percebia que não me lembrava dessa cooperação entre a Força Tarefa e o Kira.

Observando com calma, essa situação é surreal. Os policiais que há tanto tempo caçam Kira e são caçados por ele trabalham lado a lado para matar Mello porque “Mello é pior que a polícia usando o caderno”. Toda a sequência de fazer o acordo dos olhos para enfrentar Mello e a máfia é absurda de destoante do resto da obra.

Depois de ver o Matsuda querer pedir os olhos de shinigami, eu refleti sobre o quão patéticos ele e a Força Tarefa como um todo são. Vou falar mais sobre isso na resenha do vol. 12 de Death Note, para não faltar nenhum detalhe da burrice da polícia japonesa.

Apesar de ser um bom momento quando Light se conforma em ter que matar o pai (algo assustador, devo acrescentar), o volume perde qualidade ao tratar algumas coisas óbvias como se fossem surpreendentes. Soichiro escolher se sacrificar usando o Death Note e, principalmente, a sua recusa em matar o Mello eram coisas que até o Matsuda poderia prever, mas Light foi pego desprevenido — mais uma vez, agindo sem inteligência — e falhou.

A morte do Soichiro é triste, principalmente pela perspectiva de que Light está mais interessado em matar Mello e obter um álibi do que em aproveitar os últimos momentos de vida do pai. Ao menos, Soichiro morreu feliz, vendo a realidade que ele queria ver, da mesma forma que L morreu. Ambos olhando para Light. Um vendo um culpado, outro vendo um inocente.

A partir daí, Near deduziu o óbvio: se Kira cooperou com a polícia japonesa apenas após o Death Note cair nas mãos da máfia, é porque acredita que os policiais não são uma ameaça, logo, Kira deve estar na Força Tarefa. É como se o Near fosse capaz de enxergar a mesma estranheza que eu enxerguei em Kira estar trabalhando junto com a polícia japonesa, algo que merece ser creditado ao roteiro de Tsugumi Ohba.

Em uma demonstração de como o mundo está se moldando a partir da existência de Kira, o presidente dos EUA se rendeu a ele. Como poderia se opor? As estatísticas jogam a favor de Kira e o medo de ser assassinado faria um político vender a própria mãe, quanto mais deixar de fazer algo.

Agora sem apoio governamental, Near ordenou um recrutamento de pessoas dispostas a caçar Kira e montou um plano para atrair Mello, e é aí que as conveniências tomam proporções máximas.

Através dos seus métodos de moralidade discutível, Mello chegou ao QG da SPK para pegar a sua foto, cinco anos depois de deixar o orfanato. É curioso o tempo que ele demorou para fazer isso, independente de ser por desconhecimento ou por opção.

Muito agradecido pela devolução da foto (embora ele pretendesse pegá-la na marra, se preciso fosse), Mello contou ao Near que há regras falsas no caderno. Ele conseguiu essa informação de forma estranha, ou pelo menos abaixo da qualidade geral de Death Note: através da entrega do caderno sem plano pelo Light (o resgate da Sayu) e do shinigami ex machina que veio apenas agora recuperar o Death Note que fora roubado há cinco anos e que é burro o suficiente para ajudar Mello em vez de deixar o proprietário do caderno morrer, pegá-lo e ir embora de fininho.

Passando direto pelo diálogo ridículo entre Mello e Near (“qual de nós vai pegar Kira primeiro?”), reforço minha crítica à preguiça de Tsugumi Ohba. Era mesmo necessário apresentar tantas conveniências para Near descobrir sobre as regras falsas? Não seria possível criar uma situação em que ele comandasse o teste da regra ou mesmo alguém da Força Tarefa?

E as ações estranhas não param. Não sei o que é pior, Light perguntar ao Ryuk se há regras falsas, esperando que uma negativa convença Near de que Mello estava errado, ou o Ryuk mentir sem nenhum motivo. Mesmo as outras ajudas do Ryuk eram planejadas explicitamente, esta foi apenas uma colher de chá que não combina com ele.

A burrice do Light nesse ponto é absurda. Near conhece Mello, então obviamente confiaria mais no velho companheiro do que em um shinigami desconhecido. Mesmo que a força tarefa acreditasse em Ryuk, em algum momento Near os convenceria a testar a regra dos treze dias, afinal, ele já suspeitava da confiabilidade do novo L.

Então Near deduziu que Kira estava entre a Força Tarefa e que ele estava fazendo o shinigami mentir para ajudá-lo, o que é óbvio. Light se surpreendeu, mas é uma proposição lógica: se o shinigami está mentindo sobre uma regra que parece ser um álibi para provar que Kira não é totalmente culpado ou que ele não é o Kira (em caso de confinamento), significa que ele está ajudando Kira e se Kira está na polícia japonesa, como N suspeitava pelo estranho comportamento deles, o mais provável é que Kira seja o segundo L.

Depois de todo aquele papo de “quem pega o Kira primeiro”, Mello levou o Mogi ao covil de Near, num encontro muito rápido e, de certa forma, anticlimático.

N suspeitou que Mogi fosse L, então, para checar e se proteger, ligou naquela linha direta entre ele e L. Como L atendeu, Near deduziu que Mogi não era L. O problema é que essa dedução não faz sentido. Mogi poderia ser L e a voz ser de outra pessoa. Ao menos, Near devia ter escondido seu rosto durante a conversa. Foi muito imprudente.

Novamente de forma óbvia, o silêncio de Mogi deixou claro para Near e Mello que alguém na polícia japonesa o instruiu a não dar informações sobre o caso Kira. Em outras palavras, alguém na polícia japonesa estava protegendo Kira. Fato reforçado pela recusa da Força Tarefa em testar o caderno.

Um dos meus problemas com o Near é o fato de que ele depende das conveniências de roteiro para se aproximar de Kira. Seja por burrices inexplicáveis de Light ou por dicas de Mello, tudo parece vir sem esforço para N.

Nesse ponto da história a imprensa sensacionalista ganha seu lugar. Demegawa é talvez um lunático, mas certamente um homem ganancioso que viu em Kira uma fonte de renda, através da audiência dos kiraminions. É estranho que Near tenha certeza de que Demegawa é um porta-voz legítimo de Kira, afinal, ele poderia ser apenas uma pessoa qualquer querendo chamar atenção.

É interessante o papel da mídia em criar heróis e vilões perpétuos. Não há dúvidas de que o novo mundo de Kira precisaria do apoio das emissoras de TV para trabalhar a opinião pública em direção ao seu ideal, ainda que no vol. 9 de Death Note esse conceito não tenha sido explorado.

Após notar a existência de Demegawa como um agente mobilizador das massas, Light fez talvez sua jogada mais bizarra, espalhafatosa e obviamente reveladora: mandou os kiraminions, liderados por Demegawa, para a sede da SPK, a fim de linchar Near e quem mais estivesse no prédio. Tal decisão indica com ainda mais probabilidade que Kira está na Força Tarefa, por conta do encontro entre Near e Mogi, poucos dias antes.

O tempo todo Light toma decisões tão inconsequentes que parece que ele quer dar todas as evidências possíveis para Near suspeitar que ele é o Kira.

O destaque negativo na arte do Takeshi Obata é o sorriso do Near. Aquilo é tão irrealmente arqueado que faz o Near parecer um assassino demoníaco.

Conveniências, decisões burras, ação e dinamismo. O vol. 9 de Death Note me desperta um misto de sensações, entre a satisfação por uma história que anda e a frustração de ver um personagem outrora inteligente agindo como um completo tapado.

A causa e os detalhes da morte podem ser escritos antes do nome. Para funcionar, o proprietário tem 19 dias (conforme o calendário humano) para colocar o nome em frente à causa descrita

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