Crítica | Death Note vol. 10: Mikami, o radicalismo ideológico e a bússola moral

Mesmo não tendo a posse, qualquer humano pode escrever no caderno e causar o mesmo efeito

Death Note vol. 9

Avaliar os eventos ocorridos em cada volume desta segunda metade de Death Note me leva a uma sequência de conveniências, situações exageradas e deduções que não descem redondo. Não à toa eu criei uma birra inconsciente com essa fase da história. Todavia, é no vol. 10 de Death Note que surge o único personagem verdadeiramente ideológico do panteão dos inteligentes.

No início do volume, já que os kiraminions eram provavelmente meros baderneiros sem fé, Near despejou dinheiro para distraí-los enquanto fugia. Até Demegawa deixou a “missão” de lado para arrecadar algumas notas. Quem foi linchar Near não eram os partidários de Kira, mas pessoas interessadas na bagunça, como há em toda manifestação.

Sendo pessoas descompromissadas com o ideal de Kira, o chamado da ganância foi mais que suficiente para entretê-las e arruinar o plano de Light. Ao fim, N fugiu disfarçado de policial em meio ao tumulto. Não sei o que é mais exagerado, o plano do Light ou a resposta de Near. Mais uma vez, é surreal.

Em outro momento capaz de provar que Near não é lá muito moralmente correto, ele mentiu sobre a morte de Mogi para convencer alguém da força tarefa a cooperar com ele. Apesar de Light ser obviamente suspeito, fazer isso gerava um risco desnecessário de angariar a inimizade da polícia japonesa. Near, ironicamente, foi impulsivo. E finalmente, após muita hesitação sem sentido, Aizawa assumiu a desconfiança quanto ao Light.

Misa como Segundo Kira chegar ao fim e haver um novo é algo positivo, que dá mais fôlego para a história. Contudo, a forma com que Light escolheu Mikami foi ridícula e absurda. Entregar o Death Note a um homem no qual confia apenas pelo que viu dele num programa de TV beira a irracionalidade, afinal, Near poderia usar o mesmo raciocínio e deduzir que Mikami se encaixaria no modo de pensar de Kira.

Em um momento curioso, Near, ao que parece, defendeu o que Mello fez. Ele suavizou os crimes cometidos por Mello por serem com “boa intenção”, relacionados a mafiosos e não totalmente executados pelo próprio Mello. Comparando isso com sua forma de julgar a Takada, vemos uma clara hipocrisia.

Cada um com seu bandido de estimação.

É interessante como Near vai puxando o fio da investigação do L e concluindo tudo o que L já havia concluído. Embora N tenha iniciado sua investigação do zero, fica claro que, sem L, seu caminho teria sido bem diferente. Isso faz parte das conveniências.

Talvez nem possa ser encarado como conveniência, mas ao menos é um jeito bem anticlimático de avançar a história. Aizawa contou mais do que Near precisava saber: o cativeiro-álibi, a desconfiança de L e o teatro feito por Soichiro para pressionar Light e Misa ao limite. Juntando tudo isso, fica óbvio que Light é Kira e o Segundo L. É fantástico como as coisas são servidas de bandeja para Near ligar os pontos e alcançar Light.

Em um dado momento, Near disse que Light usou a regra dos 13 dias como álibi e ludibriou até mesmo L, o superou e assim o venceu, mas eu discordo. L nunca acreditou na inocência de Light. Evidente que Kira causou sua morte e, portanto, saiu como vencedor da guerra, mas isso se deve a méritos do plano do Light para encurralar Rem, não a alguma falha de raciocínio de L.

É engraçado como o Aizawa é tapado, ainda recusando passar informações ao Near porque “trabalha na Força Tarefa”. Se era assim que se sentia, por que foi lá? Ou coopera totalmente ou não. Ou desconfia ou não desconfia. Se Near não era de confiança, então o mínimo que Aizawa contasse poderia prejudicar a Força Tarefa. Burrices constantes da polícia japonesa.

Por algum senso moral bizarro, Aizawa avisou Light que o investigaria junto de Ide e Mogi. Fazer isso é igual aos personagens de desenho que, antes de acertar um golpe pelas costas, chamam a atenção do inimigo. É imprudente, é desnecessário e é inexplicável.

Em um vislumbre da reação do mundo ao Kira, Demegawa foi mostrado pedindo ofertas para construir um templo para Kira. Mikami percebeu que aquilo não era coisa planejada por Kira e matou os sensacionalistas. Depois disso começou o flashback do Mikami, cujo passado de injustiças e luta pelos mais fracos criaram nele um desejo puro pelo bem.

O problema é a definição de bem que ele desenvolveu.

Só existem pessoas boas ou pessoas ruins e todas as ruins devem ser eliminadas. Entre as ruins, ele colocou os ex-presidiários, toda classe de criminosos e as pessoas que não faziam do mundo um lugar melhor. Sua condenação se estendia aos que ficam em cima do muro e ele mudou as regras da justiça de Kira.

O jeito novo de julgar incomodou Light, já que dispensava a benevolência e era intolerante a quaisquer tipos de erros. Ideias parecidas tendem a divergir em algum momento, e essa diferença de pensamento enriquece o debate erguido por Death Note. Inclusive, acho difícil encontrar alguém que concorde 100% com o modo de agir do Mikami.

E eis que surge o porta-voz. Por algum motivo que não entendo, Mikami e Light acharam que era uma boa ideia ter alguém que levasse a mensagem de Kira para o mundo. A meu ver, é óbvio que se Kira elege alguém como representante, tal pessoa carregará um alvo enorme nas costas escrito “me sequestre e descobrirá quem é Kira”.

Além de essa decisão em si ser difícil de aceitar, a escolha pela Takada é mais uma gigantesca conveniência, só não maior que a ligação feita por Mikami na hora oportuna. A conveniência não só beneficia Light, como também Near, já que a conclusão lógica é que Kira está no Japão e que talvez Light tenha buscado em sua antiga colega de faculdade um parceiro para Kira.

Uma situação curiosa é o Matt vigiando o Mogi vigiando a Misa. Vigília inútil, a essa altura, mas, ao menos existe alguma tentativa de pegar Light com a boca na botija.

Eu consigo aceitar o comportamento debiloide do Matsuda com o Ide durante o encontro de Light com Takada. Aceito também que tudo saia de forma perfeita para Light. O que não me desce são as deduções e a ajuda mútua entre Near e Mello. O tempo todo tenho a sensação de que devo subentender que N descobre o que descobre de forma lógica, e isso tira a minha imersão de Death Note.

O vol. 10 de Death Note ostenta de forma pomposa aquela palavra-chave que usei em outras duas resenhas: conveniência. Ruim até que não é, mas bom também não.

A vítima ficará imune aos efeitos do caderno se seu nome for escrito errado quatro vezes de forma não intencional

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