Crítica | 2h37 – É Só Uma Questão de Tempo (2006): o mundo além do seu umbigo

Romance, discriminação e plot twist

2h37 – É Só Uma Questão de Tempo é um filme australiano, lançado em agosto de 2006. Foi dirigido por Murali K. Thalluri e distribuído pela Village Roadshow Pictures, tendo em seu elenco Teresa Palmer, Frank Sweet e Clementine Mellor.

Seis jovens estudantes vêem suas vidas unidas pelas situações mais comuns de toda a juventude moderna. São exatamente 2h37 da tarde: uma jovem descobre que está grávida; nem tudo é o que parece para o confiante jogador de futebol; um indivíduo sem moradia tem de aturar as provocações do colega; uma linda garota luta contra distúrbios alimentares; um estudante dedicado se esforça para ter a aprovação dos pais; e outro garoto mergulha nas drogas para escapar de seus próprios demônios.

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Foto por Pixabay em Pexels.com

Após terminar de ver o filme, eu não sabia se conseguiria escrever uma resenha. O longa acompanha os dramas de seis personagens incentivando o espectador a ponderar sobre qual deles é o suicida mostrado no início, o que me fez pesar na balança os sofrimentos de cada um e imaginar o que viria a seguir.

Steven me parecia o pior. Com um problema físico relacionado à incontinência urinária que o levaria a ser zombado sempre, inevitavelmente. Com o sonho de ser jogador de futebol, apesar de ter uma perna maior que a outra. Ele parecia irremediavelmente abatido, atacado pelo mundo exterior. Mesmo vivendo tal sofrimento, Steven entendia que a família dele já o apoiara muito para receber seus lamentos. Uma postura perigosa para a mente, mas um sinal de amor.

Embora a moça que engravidou do irmão tivesse uma vida trágica, ela não era tão bombardeada e injustiçada quanto Steven. Por este motivo, eu tinha certeza de que o Steven iria se matar. Ironicamente, talvez fosse ele quem mais esteve perto da oportunidade de impedir que o suicídio ocorresse.

Da forma como o filme apresenta, é dado a entender que Marcus abusava da irmã por conta do que viu quando era pequeno. Todavia, imagino que uma criação que o privilegiava em detrimento da irmã, definitivamente, teve mais impacto em seu comportamento. Um rapaz obcecado pela perfeição que encontrou uma válvula de escape.

A relação entre os dois gays é trágica mais num sentido de viver infeliz. O assumido, infeliz por ser zombado e por não poder concretizar seus desejos afetivos devido à repressão alheia. O não assumido, infeliz por não aceitar a sua condição naquele mundo. Infeliz por criar um universo à parte em que pode manifestar seus desejos sem medo, mas apenas enquanto outras pessoas não virem.

Mesmo que ambos concordassem em ter um relacionamento público, o medo e a incerteza quanto ao futuro e à reação das pessoas provavelmente iriam dificultar o progresso da felicidade deles.

A condução de 2h37 faz com que quem o assiste mergulhe nas nuances de cada um dos seis personagens principais. Cada qual com seus problemas e sofrimentos. Os níveis de dor variam, sempre mantendo o espectador na pergunta proposta no início do filme: quem é o suicida?

O plot twist subverte toda essa expectativa. Em vez de ser algum dos personagens cujas vidas continham problemas óbvios e aparentes, o suicida era a moça que nunca foi o foco. Aquela que era invisível. Uma pessoa que só precisava ser notada. Há uma diferença entre ser notado e ser acolhido. O acolhimento tem a ver com o sentimento de pena, de que algo deve ser protegido, o que não era o caso de Kelly.

O filme não deixa claro, mas imagino que se Steven tivesse parado e conversado com ela, ela se sentiria viva (ou bem, se preferir). Bastaria desviar o olhar do próprio umbigo, deixar um pouco de lado os próprios problemas e qualquer um poderia ter salvado a vida de Kelly.

Quando os créditos subiram, parei e refleti por um tempo. Normalmente eu criticaria de forma pesada um roteiro que cria vários personagens para, no fim, utilizar outro no clímax. Contudo, em 2h37, o recurso é necessário para causar impacto, a reflexão que tive. O plot twist serve ao propósito do filme e o torna relevante de se assistir, não por ser bom, mas pela mensagem que carrega.

Às vezes, um simples “bom dia”, ou uma conversa normal, pode salvar uma vida. Nunca se esqueça de que existe um mundo inteiro além dos seus problemas, além das suas dificuldades.


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