Crítica | Suicide Room (2011): uma distorcida história de amor

O mal feito sem querer

Recentemente, escrevi uma resenha para o filme 2h37, que também inclui “suicídio” como parte de sua composição. Enquanto assistia Suicide Room a comparação era inevitável, todavia, reparei que o último possui uma estrutura que não privilegia este tema, o qual que aparece quase como um adereço eventual em uma história de amor.

Suicide Room (no original, Sala Samobójców) é um filme polonês de drama, lançado em março de 2011 e dirigido por Jan Komasa. A trama gira em torno de Dominik Santorski (Jakub Gierszał), um garoto sensível e perdido, que é filho de pais ricos e bem sucedidos. Depois de desafios e eventos de humilhação, colegas de classe dizem que Dominik é homossexual e zombam dele em redes sociais.

Uma história de amor, sim. Ainda que de forma distorcida e baseada em sofrimento, a evolução romântica é o cerne da trama. Porém, ela existe em duas formas, de modo parecido com “parte 1” e “parte 2”. As duas partes aparecem ao longo do filme, mas são divididas de um jeito a formar conflitos distintos no longa.

Essa junção de conflitos diferentes me deixou com a sensação de que Suicide Room foi mal estruturado. É um filme que tenta ser algo e depois abandona a ideia quase que por completo. A síntese desse problema é fácil de obter com um resumo do enredo: um rapaz gay é zombado e encontra amigos em um mundo virtual de suicidas, onde se apaixona por uma mulher.

Percebe a mudança de abordagem?

É evidente que filmes podem tratar de diferentes aspectos sobre um mesmo assunto e, independente da opinião do público, não precisam ser lineares ou coerentes para serem produzidos — ou até mesmo serem bons. No entanto, me parece que Suicide Room perde uma boa oportunidade de explorar a aceitação e a repressão sexual para dar enfoque na espiral da destruição de Dominik por si só, acompanhada apenas pelo romance com Sylwia.

Não posso dizer que foi uma decisão ruim, mas, certamente, se Suicide Room tivesse foco único, seria muito melhor do que é.

Além do desvio de foco, a profundidade dos conflitos erguidos pelo filme é rasa. Dominik é zombado por ser gay, mas não tanto assim. Não é como se ele estivesse sendo perseguido e intensamente atormentado. O motivo para ele ficar trancado no quarto tem muito mais a ver com a convivência na Suicide Room. E é essa a melhor coisa no filme.

A convivência com um determinado tipo de pensamento deforma e remodela a mente do mais são dos homens (falo um pouco sobre isso em A função da crítica e Parcialidade, imparcialidade e crítica). Dominik entrou na Suicide Room sem o mínimo pensamento autodestrutivo e demonstrou ter, no máximo, uma curiosidade mórbida pelo autoflagelo. Apesar disso, as conversas sobre morte e o compartilhamento dos desejos suicidas de Sylwia fizeram de Dominik também um suicida, a despeito da boa vida que levava.

Boa vida talvez entre aspas. Sem dificuldades financeiras, Dominik apenas não tinha muita atenção dos pais, pessoas elitizadas muito preocupadas com as aparências e com seu projeto de poder. É interessante como eles queriam consertar o filho para não serem mal falados, não por quererem vê-lo saudável. Talvez este tenha sido um agravante para a situação mental de Dominik.

Embora o pai não apresente nenhuma mudança de comportamento perceptível, a conduta doentia de Dominik fez a mãe enxergar a realidade dura que enfrentava. Desde o claro problema mental do filho até a vida de aparências que o marido queria manter. Ela é emotiva em vários momentos, se preocupa mais com o filho e teve a consciência de que os amigos virtuais eram importantes. A decisão de contar a eles sobre o suicídio de Dominik é como um acerto de contas, um dever para com o filho e aqueles que Dominik chamou de família.

O descaso e a despreocupação familiar permitiram a Dominik portar o frasco de remédios, mas, se Sylwia não tivesse dito para que ele entregasse a ela, o que ocorreu não ocorreria. Frustrado com a vida e sem perspectivas positivas quanto ao desenvolvimento social, era natural que Dominik se sentisse tentado a tomar os comprimidos.

Primeiro, a pequena tentação de tomar um só. Depois, a coragem e a desculpa “se já tomei um, por que não tomar mais?”. E a escolha tem consequências. Dominik se divertiu um pouco antes de sofrer os efeitos colaterais, mas, já era tarde demais. O jeito que ele chama pela mãe e fantasia beijando Sylwia nos dá uma dica de que ele não queria morrer, no fim das contas.

Ele sentiu dor, se sentiu encurralado e viu uma saída. Se a saída não estivesse lá, dificilmente ele cometeria suicídio. Portanto, Sylwia teve grande parcela de culpa na morte dele. Ela sabia disso. Por isso chorou ao descobrir o ocorrido, ela matou Dominik, mas não queria que ele morresse.

É um prognóstico mórbido, mas acho provável que ela tenha se suicidado após saber que destruiu a vida de um bom rapaz com a sua atmosfera negativa e autodestrutiva. Isso é comum no mundo real. Os jovens da “moda sadboy” não fazem ideia do quão prejudiciais os pensamentos negativos podem ser (escrevi um artigo sobre a moda sadboy no meu outro blog) e acabam contribuindo para a destruição de vidas.

Um ponto a se destacar em Suicide Room é o uso de animações para a construção de cenas “imaginárias” e trazer um dinamismo maior para o filme. Elas agregam qualidade e sustentam bem a imagem de romance, ainda que Dominik e Sylwia não se encontrem pessoalmente nenhuma vez.

Suicide Room é um romance que mostra o perigo que os pensamentos negativos representam e a responsabilidade que cada um de nós tem pelo que impulsionamos no outro.


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4 comentários

  1. Gostei da análise, até por discordar de alguns pontos. Mas concordamos que é filme a se assistir. Belo trabalho. Lerei mais das suas coisas. Obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

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