Crítica | Death Note vol. 12: Light Yagami, a arrogância e a carta armadilha

Todos os humanos, sem exceção, eventualmente morrem

Death Note vol. 11

E chegamos ao último volume de Death Note. Depois dos preparativos realizados no vol. 11, este conduz tudo para o último ato, o último plano. Para começar, a capa do mangá é linda. Ela reúne os principais personagens da história e mostra Light Yagami acima deles. Em geral, as capas em Death Note ilustram os personagens mais importantes do volume em questão, mas, no último, o que ocorre é quase como uma ilustração da obra inteira: Light e L no centro (um de pé e o outro sentado), Misa, Near e Mello próximos ao meio, mas com uma distância assimétrica entre esquerda e direita. Os coadjuvantes são importantes, no entanto, Light e L são a alma e o coração de Death Note.

Agora vamos aos primeiros capítulos. De cara, Matt é assassinado pelos seguranças da Takada. Ainda que ele tenha sido um personagem terciário, a cena é forte. No proceder do sequestro, embora Mello tenha se precavido quanto a rastreadores, sua benevolência em permitir que Takada tivesse um pouco de privacidade foi o que causou sua ruína. Usando meios menos tecnológicos que os de seu senhor, Takada se utilizou de um pedaço de papel que guardou no sutiã para matar Mello.

Sabendo do sequestro, Near avisou Light que aquilo não era parte do plano, algo do qual Light não duvidou, entendendo que seria apenas um inconveniente diante dos planos de ambos para o armazém. Logo a polícia japonesa agiu para resgatar Takada, graças à possibilidade de rastreio que uma ligação dela para Light permitiu. Ide e Aizawa deram para Light a brecha que ele precisava para matar sua fiel porta-voz usando o relógio.

Takada era um estorvo desde o início. Um óbvio chamariz para qualquer um que quisesse descobrir a identidade de Kira. Embora isso não seja explicitado na história, acredito que Light a mantinha também como uma isca para algum perseguidor mais esperto, do qual se livraria daquele mesmo jeito com o qual eliminou Mello.

Mantendo a tradição dos diálogos repetitivos e bobos, Tsugumi Ohba fez Near confirmar com Light que se encontrariam no dia 28/01. É como o Tatsumi (de Cavaleiros do Zodíaco) repetindo “Ilha da Rainha da Morte”. E no fatídico 28/01, Near recepcionou a força tarefa com uma máscara ridícula de L. A máscara combinou perfeitamente com a postura de Near, jogado no chão por absolutamente nenhum motivo.

Àquela altura, tanto Near quanto Light só queriam esperar o Mikami chegar. Pelo menos o sucessor do L podia ter bolado uma desculpa melhor do que “esperem meia hora e depois eu tiro a máscara para mostrar aquela coisa que vai resolver o caso Kira”.

Apesar de eu brincar com a repetição do “28/01”, era necessário para o plano de Near que o dia não fosse alterado, já que, com a morte de Takada, Light não teria como alertar Mikami sobre a mudança nos planos.

É interessante que Light decidiu não rir antes da hora por medo de levar tiros, mas declarou vitória antes de as pessoas no armazém começarem a morrer. Com tantos policiais ali, dificilmente ele escaparia sem danos, mesmo sem contar vitória. Com o início das mortes, provavelmente alguém da SPK atiraria nele. Destaque para a cara de maluco que Takeshi Obata desenhou na hora do “eu venci”.

Deste ponto em diante se passa uma infinita explicação de planos. É tedioso ler páginas e mais páginas detalhando extensivamente como cada um agiu e o que deu errado. O resultado é que até entender os planos é confuso. Near previu a previsão que Light fez da previsão que Near fez do plano dele.

Resumindo:

Plano do Near: substituir as páginas em branco do caderno do Mikami. Com a descoberta de que o caderno era falso, pegou o caderno verdadeiro e substituiu inteiramente por um falso, feito em uma noite com a caligrafia idêntica à de Mikami.

Plano do Light: deixar o caderno falso do Mikami como isca para Near achar que modificou o caderno verdadeiro e, no dia do armazém, Mikami escrever os nomes no Death Note real.

Eu poderia dizer que esses planos são parecidos demais com Yu-Gi-Oh!, mas este é o menor dos problemas com ambas as estratégias. A mais óbvia e gigantesca burrice dos dois lados é desconsiderar que não é preciso ter o Death Note inteiro para matar. Se Mikami usasse um pedaço do Death Note, seria fácil guardar de forma imperceptível e Near morreria feito um pato.

A imprudência do plano de Near não tem precedentes em Death Note. Primeiro que Light quase o matou usando o papel que estava no relógio. Segundo que Light poderia simplesmente mandar alguém armado matar todos no armazém e acabou a história, além do já mencionado pedaço do Death Note ser usado por Mikami.

Light aparentemente adquiriu uma deathnotedependência que o cegou para a saída mais óbvia, que ele mesmo utilizou algumas vezes. Chega a ser incoerente. Se o próprio Light nunca sai sem um pedaço do caderno, como ele não pensou em matar todos no armazém dessa forma? É inacreditável.

A SPK conseguir copiar o caderno inteiro com a caligrafia igual a do Mikami em menos de um dia é surreal. É ridículo. É preguiçoso. Nem toda a suspensão de descrença do mundo é capaz de me fazer engolir que eles conseguiriam uma cópia boa o suficiente para passar pelo crivo de Near.

O metodismo exagerado e conveniente de Mikami não foi bem justificado. Não era preciso ele ir há anos para a academia sempre no mesmo horário e ao banco sempre no mesmo dia apenas para Gevanni conseguir tirar cópia das chaves, dos cartões e pegar o caderno. Se a SPK consegue em uma noite copiar o caderno com a caligrafia do Mikami, também conseguiria pegar as coisas dele sorrateiramente. Má decisão de Tsugumi Ohba.

O metodismo de Mikami faz conexão com outro problema: Mello sequestrar a Takada. Apesar de a hipótese de Matsuda sobre Near ter induzido Mello a fazer o que fez ter algum sentido, caso Near quisesse pressionar Mikami, ele usaria um de seus subordinados leais para sequestrar Takada, não o imprevisível rival.

Eu assisti ao anime algumas vezes, li o mangá duas vezes e ainda não entendi o que fez Mello sequestrar a Takada. Não parece que ele ganharia coisa alguma com aquilo, além de ter escolhido o fazer como um fardo a carregar, não exatamente uma chance de vitória. Sua motivação ficou muito nebulosa.

Deixando de lado os pontos negativos, a ideia de fazer a independência e a inteligência de Teru Mikami sabotarem Light foi um acerto de Tsugumi Ohba. Aquilo que fazia Light gostar do Mikami foi o elemento que desequilibrou a balança para o lado de Near.

Vejo muitos fãs de Death Note ralhando o Mikami por ter matado a Takada, mas foi uma ação natural e coerente com o modo dele de agir desde o começo.

Near disse que, juntos, ele e Mello conseguiram superar L. Essa noção também ecoa entre os fãs, mas eu discordo totalmente. Near até venceu Light com uma ajuda indireta de Mello, mas em nenhum momento ambos sentaram para conversar e ter ideias. É impossível dizer que eles se uniram e cooperaram para pegar Light. A aliança foi indireta e, portanto, não deve ser considerada.

Uma das melhores coisas nesse final de Death Note é o discurso que Light faz sobre o mundo melhor que ele criou e a grandiosidade de Kira. Um detalhe de sua fala é ele reforçar que podia ter usado o caderno para ganhos pessoais, mas fez o que fez pelo mundo e foi mais longe do que qualquer um poderia ter ido. De fato, ele foi bem diferente do que um humano comum seria, algo que Near também pontuou.

Near, no entanto, desconsiderou os números e classificou Light como um mero assassino. Basicamente, sua resposta foi que um mundo sem liberdade não é um mundo de paz e justiça. Este pensamento é o que sacramenta Near como um personagem detestável para mim. Considero inadmissível dizer que Kira é mau sem pensar sobre as consequências do que ele fez.

Antes de escrever o nome do Near no papel, Light ganhou tempo com um papo qualquer sobre o Death Note de Aizawa ser falso. Durante esse período de enrolação, Takeshi Obata incorporou a necessidade de explicações redundantes de Tsugumi Ohba e desenhou um sem-número de closes no relógio de Light. Deu vontade de dizer: “tá legal, cara, eu já entendi que o relógio é a única saída”.

A sequência dos tiros é legal e lógica. Matsuda sempre foi muito emocional. Acho até que Light conseguiria convencê-lo a matar Near, se insistisse um pouco mais. Seria épico se Light matasse Near escrevendo o nome com sangue, mas, infelizmente, não aconteceu.

Outra coisa que não entendi foi a reação de Mikami, que disse que Light não era Deus e sim um lixo. Nada até aquele ponto justifica essa mudança de sentimentos. Dali para frente, as justificativas vieram.

Light chamou Misa, Takada e sentiu que não tinha saída. Pedir a ajuda de Ryuk, pela primeira vez, foi a admissão de sua derrota. Clamar para que o shinigami resolvesse seus problemas marcou o fim de Kira. E Ryuk percebeu isso. Light se tornou desinteressante, o que, somado ao tédio de acompanhar a vida dele na prisão, resultou na conclusão inevitável: matar Light Yagami era a melhor escolha.

Light se desesperou e agarrou a cintura de Ryuk. Tornou-se patético, ante a morte iminente. É interessante que o Ryuk disse no começo da história que iria escrever o nome de Light quando chegasse a sua hora. Não era exatamente a hora dele, mas Ryuk era diferente de Rem. Ele nunca amou Light.

E como o Tsugumi Ohba ama flashback, usou mais um para revelar que, na primeira conversa entre Ryuk e Light, este deduziu, corretamente, que céu e inferno não existem. Independente de como viveram a vida, o pós-vida é igual para todos. Isso meio que refuta a teoria de que o Light virou shinigami, para a tristeza de muitos.

É possível dizer que o enredo acabou na morte do Light, mas há dois epílogos que complementam alguns aspectos do mangá (o segundo tem resenha própria).

No primeiro, Matsuda e Ide conversam sobre o mundo pós-Kira e o Matsuda conta algumas teorias sobre as ações de Near. Segundo ele, Near escreveu o nome de Mikami no caderno e o manipulou para que não testasse seu Death Note (uma atitude estranha da parte de Mikami) antes de ir ao armazém. Isso faz sentido, pois o plano de Near era muito arriscado e Mikami morreu dez dias depois, na prisão. A segunda teoria é que Near induziu Mello a sequestrar Takada, mas desta eu discordo.

Um ponto importante é a demonstração de que o mundo voltou a ser o que era antes de Kira, ou seja, pelo menos em parte, o legado de Kira não se consolidou. O retorno da criminalidade fez Matsuda considerar que talvez o mundo com Kira fosse melhor. Lamento, Matsuda, mas agora é tarde para se arrepender.

A conversa entre Ide e Matsuda reforça alguns pensamentos que tenho sobre a polícia japonesa. Ide disse que não via Near como a justiça, mas que considera a ação de capturar Kira correta, pois, caso não o fizessem, estariam mortos. Esta é a cereja do bolo que coroa o quão patética é a Força Tarefa do caso Kira.

Todos foram quase que completamente inúteis. O máximo que faziam era o trabalho pesado de juntar papéis, pois as ideias, conclusões e deduções só provinham de L e Light. É inacreditável que em cinco anos andando em círculos nenhum deles pensou na possibilidade de Light ser Kira.

Eu gostaria de ver como foi o jogo de gato e rato nesse período, pois Light teria que ser muito bom para simular a perseguição de L sem obter resultados. Vale lembrar que L encontrou o Light em menos de um ano.

A Força Tarefa ainda teve a incompetência de em momento algum testar a regra dos 13 dias, que era a única prova concreta da inocência do Light. L morreu logo após decidir testar a regra, então a conclusão óbvia seria que testar a regra ameaçaria Kira, ou quem quer que tivesse matado L.

Além disso, eles viram que havia páginas rasgadas, mas não se preocuparam em, por exemplo, deixar Light no banco de trás do carro. É muita displicência. É muita ingenuidade.

Matsuda é o pior deles. Não por ser o bobalhão inútil, mas porque sempre teve dúvidas. Se somarmos seus questionamentos à reação que teve quando Watari deu os cintos especiais ou outros momentos de coragem estúpida, fica claro que Matsuda quis ser policial porque queria ser um herói, um agente secreto. Matsuda nunca foi motivado pela pureza das ações, mas pela sensação que teria ao ser importante.

O mais irritante é que o mesmo Matsuda que impediu Light de matar Near duas vezes é o Matsuda que entende que o mundo sem Kira não é um lugar melhor de se viver. Sua fantasia egoísta é muito pior que o idealismo obsessivo de Soichiro Yagami.

Nas últimas páginas do mangá, durante a noite, uma procissão religiosa sobe um monte para cultuar Kira. Ao fim, Near criou um Novo Mundo — nome que intitula o último episódio do anime —, no qual Kira, de fato, se tornou um Deus.

Uma vez mortos, humanos jamais poderão voltar à vida

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