Crítica | Highschool of the Dead vol.1: zumbis invadem a escola

O medo gera o caos e o caos leva à ruptura da ordem

Highschool of the Dead foi um mangá escrito por Daisuke Sato e ilustrado por Shouji Sato. Ele foi serializado entre 2006 e 2013 pela revista Monthly Dragon Age. Teve a sua vida marcada por hiatos e pela não conclusão da obra, devido à morte de Daisuke Sato. Eu tenho um carinho pelo protagonista Takashi Komuro e lamento que o mangá não tenha fim. Para nós, fãs de HOTD, o que fica é a possibilidade de resenhar a obra.

O vol. 1 de Highschool of the Dead tem vários momentos de narração em off que inserem um contexto de alguém contando uma história depois de muito tempo do ocorrido. Há pinceladas de mistério ao longo de todo o mangá, o que é um dos maiores pontos positivos de HOTD, a meu ver.

Por outro lado, o início traz algo que eu detesto: flashback. O mundo dominado por zumbis vem antes da explicação sobre como tudo estava antes de eclodir o “apocalipse zumbi”. Takashi Komuro, Hisashi Igou e Rei Miyamoto enfrentam os zumbis, apelidados por Hisashi de “eles”, descobrindo no processo que a única forma de vencê-los é batendo na cabeça.

Outra descoberta foi que uma única mordida basta para a infecção ocorrer. A morte de Hisashi foi bem desenvolvida para a reação de Rei, mas o Komuro pareceu não se importar, algo que estranhei. Outra esquisitice foi a demora absurda até Hisashi virar zumbi, levando em conta que a maioria dos zumbis é muito mais veloz na transformação.

Existe uma tensão amorosa entre Komuro e Rei, que eram amigos de infância. Ele gosta dela, mas ela quis ficar com o Hisashi. Após a morte do Hisashi, essa tensão some por completo. Não era um drama muito interessante, mas, descartá-lo tão rápido ajuda a tornar o roteiro deste vol. 1 fraco.

É engraçado que foi por causa do professor metido a valentão que a infecção entrou na escola. Bastaria ele não fazer aquilo para que percebessem que o ser diante do portão não era humano. Um pouco mais de inteligência e várias dezenas de jovens não teriam morrido.

Depois de ver esses primeiros zumbis, a reação do Komuro foi estranha, querendo fugir sem nem saber o que exatamente estava acontecendo. Ele devia ficar confuso, não querer sair correndo. Mais estranho foi a Rei e o Hisashi seguirem-no sem grande resistência. Mais adiante, eles se armam e parecem saber mais do que de fato sabem.

Eu li o encadernado lançado pela Panini (em março de 2010) e tem algumas falas bem estranhas no início do vol. 1. Quando a Rei questiona o que Komuro diz sobre os professores estarem se matando, ele mandou um enfático “então fica aí e morre”. Depois vem algo pior, Hisashi diz “primeiro, vamos sair da escola. Estou preocupado com nossas famílias”. O problema é que Komuro não parece saber que se trata de zumbis e a preocupação de Hisashi não faz sentido de seu ponto de vista. Para ele, estava apenas ocorrendo uma briga mortal no portão da escola, não um apocalipse zumbi. Por que se preocupar com a família?

Nas páginas seguintes, um alto-falante alerta os alunos sobre uma ocorrência no interior da escola e a pessoa que fala é atacada por zumbis. Nesse momento, sim, faz sentido achar que tem algo muito errado e querer fugir da escola. O que se segue é um tumulto com alunos se pisoteando e o alastramento da infecção, imitando o caos que já ocorria na cidade.

É sabido que a polícia não irá atender nenhum chamado e militares foram vistos em um helicóptero. Deviam estar numa missão desconhecida. A cena, inclusive, se dá em uma bela página dupla.

Conforme Komuro e Rei se movem, os núcleos de personagens aparentemente figurantes se desenrolam em dois blocos, Doutora Shizuka Marikawa com a Saeko Busujima e o Kouta Hirano com a Saya Takagi. Depois de formarem estas duplas, eles caminham por aí, de modo que podemos conhecer seus traços mais importantes.

Saeko mata um homem para manter sua honra, ante a possibilidade de ser um zumbi. O comportamento dela se assemelha ao de um samurai, não à toa utiliza uma espada de madeira. É fria, forte e parece ser inteligente.

Hirano se arma com uma pistola de pregos e dá indícios de gostar de armas. Muda de expressão para um tom mais fofo em alguns momentos, algo que me incomodou. Preferia que essas cenas não existissem.

Saya conclui que os zumbis não enxergam e nem reagem ao toque, apenas ao som. Ela é a garota espertinha, provavelmente arrogante, que, inclusive, usa óculos. Sobre a dedução dela, tenho algumas dúvidas. Se os zumbis não reagem ao toque, eles têm tato? Se não, como podem definir como irão atacar os humanos ou mesmo saber que estão tocando humanos? Não foi comprovado que sejam atraídos pelo calor e, mesmo que fosse, há uma cena de um zumbi segurando em cada uma das mãos uma ponta de um pano que um rapaz carregava no pescoço. O zumbi sentiu o pano, que não é humano nem possui calor.

Os núcleos se juntaram e o grupo se conheceu para salvar a Saya e o Hirano. Rapidamente decidiram que iriam pegar o ônibus escolar e checar o estado da família de cada um deles, ainda sem exatamente saber para onde iriam depois.

Foi descoberto que a imprensa e o governo estão escondendo a verdade sobre os zumbis, tratando tudo como meros tumultos. Então a Saya disse algo que me fez refletir. O motivo de o fazerem é para evitar o medo, que levaria à ruptura da ordem e dificultaria ainda mais o enfrentamento dos zumbis, mais ou menos como ocorreu na própria escola.

É confirmado que os zumbis estão por todo o mundo, sendo que há pouco tempo estava tudo em ordem. O que houve? Um ataque químico global? A cólera de um deus furioso? O mistério é bom.

Depois de chegarem ao ônibus, Komuro decidiu esperar pelo professor Shidou e outros alunos que estavam com ele. No caminho, um aluno torceu o pé e pediu ajuda a Shidou, que respondeu com um pisão na cara. Sutil essa caracterização de personagem feita pelo Daisuke Sato, não?

Divergências de ideias acerca dos objetivos levaram a um atrito no ônibus. Depois de Rei acertar um cara na barriga e deixá-lo no chão, Shidou correta e astutamente explicou que situações como aquelas exigiam um líder. Independente do quão mau fosse Shidou, ele estava certo.

Era preciso um líder para haver legitimidade na tomada de decisões, especialmente quando uma escolha errada pode matar todos. O plano pela metade da turma do Komuro incomodaria qualquer um com mais de dois neurônios. Shidou era a melhor escolha mesmo, afinal, era mais velho e mais experiente que os demais. Além disso, por ser naturalmente superior hierarquicamente, dificilmente suas decisões seriam contestadas por alguma briga de ego.

Rei disse que o Shidou é nojento, mas não deu maiores explicações. Deve ter um bom motivo, porque saiu subitamente do ônibus. Komuro a acompanhou e um acidente de trânsito os separou dos demais, restando apenas um encontro acertado entre Komuro e Saeko em uma delegacia.

Sobre a arte, Shouji Sato faz um trabalho agradável de coloração. Em várias peças de roupa, o tom se aproxima do preto puro, dando margem para muitos tons distintos na composição do cenário e das vestimentas. Há muitas páginas bonitas, mas às vezes a quadrinização é confusa em cenas de ação.

Não vou comentar sobre o ecchi. Highschool of the Dead é mais do que isso.

No geral, é um bom vol. 1. Tem boas cenas de ação, o início da aventura, o clima apocalíptico e faz bem a introdução da personalidade dos protagonistas.

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