Crítica | Death Note vol. 13 – How To Read: essencial para os fãs

A enciclopédia de Death Note

O vol. 13 de Death Note é como um grande especial. Um databook, com informações dos bastidores do mangá e detalhamento de questões pouco abordadas durante os 108 capítulos, bem como recapitulações gerais. Há entrevistas com Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, fichas dos personagens (inclusive personagens dos quais você nem lembrava que existiam) e alguns extras interessantes, como o one shot de Death Note.

Os extras

Entre as fichas de personagem, há algumas piadas sutis sobre o que os personagens amam, odeiam e traços de seu comportamento. Depois vem algo mais curioso, informações sobre os shinigamis. É feito um raio-x de suas condições, a confirmação da divisão entre macho/fêmea e conhecemos mais da hierarquia dos deuses da morte. O segundo no comando é uma shinigami cheia de olhos, que possui a pontuação máxima de inteligência. Eu queria ver mais sobre ela, mas parou por aí. Rei Shinigami que é bom, nada.

Há umas tirinhas com os personagens de Death Note. Não são lá muito engraçadas, vale só pela curiosidade de ver situações diferentes com Light, L e companhia.

O processo de elaboração de personagens e cenas é mostrado com várias ilustrações e tem também resumos da ordem cronológica dos acontecimentos e dos planos usados. São bons resumos de Death Note. Se alguém quiser fazer um trabalho acadêmico sobre a obra, ter o How to Read deve quebrar um galho enorme.

O último elemento do vol. 13 é o one shot inicial, que deu origem a Death Note. Nele, o protagonista se chama Taro Kagami e é um pré-adolescente. Taro sofre bullying e usa o Death Note como um diário. Como ele escreveu o nome dos agressores, estes morreram. Ryuk aparece, explica as regras (que tem alguns detalhes diferentes das regras da obra principal) e surgem policiais interessados no caso.

É possível ver alguns detalhes que foram introduzidos no mangá principal ao longo do one shot, como o encontro de Taro com Ryuk; Taro vendo um “adversário” morrer pela TV (a cena é extremamente parecida com a da morte de Lind L. Taylor); a existência de outro humano com o Death Note e o fato de que, ao fim, Taro esteve um passo à frente e não abdicou do poder.

O one shot é muito bom e talvez eu faça uma resenha apenas dele algum dia.

As entrevistas

Na primeira entrevista, Tsugumi Ohba, ao ser questionado sobre o personagem Light Yagami, contou que Light tinha boa intenção no começo, mas se desviou. Nem acredito que estou dizendo isso, mas, Ohba não entendeu o próprio mangá. Já no início, pouco após pegar o Death Note, Light disse que seria o deus do novo mundo. Isso não pode ser considerado boa intenção. Caso tenha se referido a um período anterior, provavelmente Light teve alguns segundos de boa intenção, até pensar que poderia ser Deus.

Sobre a “fraqueza” de Matsuda em relação ao Kira, Ohba explicou que fazia sentido dentre um grupo de cinco pessoas uma não rejeitar por completo o Kira. A ideia era fazer de Matsuda um ponto de equilíbrio. O problema é que em uma equipe de elite responsável por caçar Kira — quando toda a polícia japonesa se rendeu — não há espaço para quem não tem convicção de que ele deve ser preso, de que ele é do mal.

Ohba também mencionou que gostaria de usar a Wedy para algo mais, como ser manipulada por Light para instalar câmeras na central, de modo que Misa pudesse ver o rosto de L. Essa escolha parece ser um caminho muito mais agradável, e de acordo com o histórico de Death Note, para chegar à morte de L do que o plano “encurralar a Rem”. Vale lembrar que a Wedy entrou no QG burlando o sistema de segurança, então havia um foreshadowing armado para esse plano.

Quanto ao final, Ohba não foi claro sobre as teorias de Matsuda estarem certas ou não, mas sugeriu que o Death Note que estava com a polícia japonesa havia sido trocado por Light, tornando o seu “blá blá blá para ganhar tempo” algo real, não apenas um blefe, como eu pensava antes. Esse caderno escondido seria a ponte para o retorno de Ryuk ao mundo humano.

A dupla de autores não trabalhava muito em conjunto. Takeshi Obata não palpitava na história, apenas desenhava, se surpreendendo junto com os leitores. As maiores indicações que recebia quanto ao que deveria desenhar eram sobre os alimentos que L comeria e, em especial, a torre de dados e palitos de fósforo feita por Near.

Ainda no processo criativo, Tsugumi Ohba não fazia grandes antecipações, ele mais ia definindo enquanto a história caminhava (ele afirmou ter feito isso no caso da Yotsuba e da Naomi Misora). Uma mania sua era inserir alguma cena de comédia a cada capítulo. Imagino que L se algemar ao Light foi um meio de promover essas cenas “engraçadas”. Ficar pensando nisso nos leva a várias cenas estranhas que pareciam destoar do resto da história.

Sobre o final das mulheres que amavam Light Yagami: Misa Amane se suicidou; Sayu Yagami continuou em estado catatônico e tanto ela quanto Sachiko Yagami não souberem a verdade sobre Light.

A motivação por trás de Death Note

Eu sempre tive interesse em ver entrevistas do Tsugumi Ohba para conhecer mais sobre o processo criativo de Death Note e, principalmente, para entender as mensagens e os propósitos empregados por ele na obra. Pensando nas lições de Death Note e seu conteúdo mais filosófico, decidi fazer um artigo sobre a estrutura temática (o enredo e o que cada situação significava diante do tema do mangá), em contraponto a outro artigo, que trataria da estrutura narrativa (o mangá enquanto entretenimento, se é divertido, independente de coerência ou profundidade).

Digo isto porque, depois de ler How to Read, cogito não escrever sobre a estrutura temática. Nas entrevistas presentes no vol. 13, Tsugumi Ohba deixa claro que a intenção dele não era criar nada filosófico. Ele ressalta que enxerga Death Note como uma simples obra de entretenimento e que trabalhou para evitar esses “dramas humanos” que, segundo ele, deixariam a história chata (especialmente em uma revista para jovens).

Isto explica coisas como a ausência de debates sobre certo ou errado durante boa parte da trama e a falta de exploração dos impactos da presença de Kira no mundo. Pensando bem, Death Note não dá a entender que “certo ou errado” é o mais importante na obra. Justamente por isso, Near e Mello têm pouca ou nenhuma conexão com este assunto (é interessante que, a partir desta descoberta, a maior parte da minha raiva dos sucessores do L perde o fundamento, já que Tsugumi Ohba nunca pretendeu escrever personagens profundos).

Todos os fãs de Death Note que eu conheci nutriam altas expectativas sobre os pensamentos do autor e sua motivação. As conversas geradas pela obra levam a inúmeros debates existenciais, como o Quem é a justiça? ou vídeos e podcasts que não são difíceis de encontrar. A pergunta que fica é: a não intencionalidade de Tsugumi Ohba anula a relevância destas discussões?

Eu acredito que não. Com todo o respeito ao Ohba, de quem admiro o trabalho em Bakuman e Platinum End (pretendo fazer resenhas de ambos os mangás em algum momento), mas a obra é maior que o autor. Se nós enxergamos em Death Note cenas que podem ser interpretadas de várias formas e levar a várias conclusões, não estamos errados em atribuir ao mangá atributos que não foram colocados lá propositalmente pelo autor.

Curiosidades

Em Death Note: How to Read há várias informações interessantes que não rendem bons parágrafos, então leiam a partir daqui como uma lista de curiosidades:

Misa Amane foi criada para ser uma garota bonita, quebrando o estilo de arte usado na esmagadora maioria dos personagens.

Naomi Misora foi criada para ser uma mulher legal, mais inteligente e ativa.

Tsugumi Ohba pensou em usar golfe, em vez de tênis, para o confronto entre Light e L. Acho que ficaria bizarro o duelo intelectual se dar em algo tão pouco conflitante e pouco dinâmico quanto golfe.

A pergunta “qual dos oito é o Kira”, do arco Yotsuba, foi uma tentativa de fazer os espectadores se divertirem, como num jogo de detetive.

Apesar de o mangá apresentar flashbacks (que me irritam um bocado), Ohba demonstrou desgostar deste recurso.

Na hora de desenhar a briga entre Light e L, Takeshi Obata não pensou em capoeira, o chute parecido foi apenas coincidência. Inclusive, a cena existe sem função narrativa, apenas porque Ohba queria ver a briga desenhada pelo Obata.

As páginas do Death Note nunca acabam. Fiquei curioso sobre como esse mecanismo funciona, mas, é um caderno assassino sobrenatural, então eu aceito que as folhas sejam infinitas.

A maçã não significa nada. O Tsugumi Ohba só achava legal usar uma maçã.

Qualquer causa de morte que mate outros humanos não vai funcionar. Neste caso, a vítima morrerá de ataque cardíaco

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