Crítica | Highschool of the Dead vol. 3: como os humanos reagem ao apocalipse

Highschool of the Dead é uma obra bem regular. Prova disso é que o volume abre com o mesmo recurso desgastado dos anteriores: narração pós-apocalíptica. Não que seja ruim a ideia, ela constrói uma excelente atmosfera. O problema é que com a repetição exaustiva das mesmas sentenças pessimistas, o recurso perde força e acaba se tornando enfadonho. Dá vontade de dizer para o Daisuke Sato : “Eu já entendi que é um apocalipse, pode parar de repetir isso”.

A estrutura política do mundo segue derretendo, com o esfacelamento do governo dos EUA. Toda a tripulação do Força Aérea Um sucumbiu porque a benedita da primeira dama foi mordida e não contou para ninguém. Uma das últimas medidas do presidente foi autorizar o lançamento de mísseis na China e na Coreia do Norte, países com mísseis apontados para o território norte-americano. Um jeito bem duvidoso de se encerrar a passagem por este mundo.

Depois da noite de luta, tudo estava ligeiramente tranquilo para a turma do Komuro. Foi revelado que o nome da garota que salvaram era Alice Maresato, e chamaram o cão de Zeke. Devido ao esgotamento mental crescente, Komuro e Hirano brigaram, muito em função de o segundo querer falar sobre armas numa hora inapropriada.

O grupo decidiu ir para a casa da Saya por ser mais perto. No caminho, estranhamente não viram muitos zumbis, mas, uma página depois disso ser ressaltado, a quantidade de zumbis cresce exponencialmente conforme eles se aproximam do objetivo. Essa rapidez de transição de situações é um problema de ritmo recorrente em Highschool of the Dead.

O carro em que estavam acabou parando no arame atravessado na rua. As rodas derraparam e a Rei caiu de cima dele, numa sequência anatomicamente estranha. O que se seguiu foram quadros de combate esquisitos que pareciam muito avançados em relação à última posição em que os personagens apareceram.

Em um momento tocante, o Hirano pediu para a Alice levar o Zeke para outro lugar, na tentativa de tirar ela dali, mas ela percebeu que seria como um adeus, do mesmo modo que ocorreu com seu pai. Hirano então ameaçou jogá-la à força para o outro lado, quando os soldados dos Takagi os salvaram. Sem dúvidas, todos teriam morrido ali, se não fosse pelos pais da Saya.

A turma do Komuro enfim encontrou um grupo maior e mais organizado, que lhes garantiu um momento de paz, diante do inferno que já tinham vivido. Uma ilha, de certa forma. Ali era o lugar certo para Alice Maresato e Zeke.

Aí entra um flashback ridículo de inexplicável, mostrando a batalha que quase os levou à morte. Rei caiu de costas (um movimento bem estranho anatomicamente) e todos tiveram de lutar. É emocionante e bem impactante. Talvez seja o melhor trecho de todo Highschool of the Dead enquanto mangá de sobrevivência.

O problema é que ele devia ser no tempo presente. Sendo um flashback, eu já sei que não há o risco de alguém morrer e, portanto, ver aquela cena não acrescenta em nada. Não entendi essa escolha. É similar ao que Tsugumi Ohba faz no vol. 2 de Death Note.

Aparentemente foi revelado o objetivo das aeronaves militares que apareceram anteriormente no mangá. O governo japonês as enviou para manter as instalações geradoras de energia, assim impedindo o país de chegar ao colapso. A ideia dos Takagi era, a partir deste conhecimento, resgatar e cuidar das pessoas dispostas a sobreviver e que estavam operando as geradoras de energia.

Dentro do domínio dos Takagi, os adultos enxergavam a turma do Komuro como crianças, ignorando tudo o que passaram para chegar até aquele ponto. Por isto, desgostam da ideia de Hirano carregar armas e enxergam o grupo do Komuro como um bando de moleques incapazes.

Depois de sua imponente chegada, Soichiro Takagi, pai da Saya, explicou aos sobreviventes que estavam em seus domínios que é preciso ser impiedoso com zumbis, mesmo que tenham um rosto conhecido. Alguns dos presentes desgostaram dessa atitude e se fecharam na sua ilusão.

Apesar da tentativa de Saya em mostrar-lhes o novo mundo que se apresentava, as pessoas recusaram a realidade. Seus semblantes alucinados enquanto teciam estratégias de sobrevivência alheias à necessidade de assassinato exemplificam uma das facetas da humanidade em meio ao sofrimento.

As pessoas fecham os olhos para aquilo que não querem ver e procuram algo para substituir o vazio assustador que a nova realidade traz. Foi o mesmo fenômeno que causou a alucinação nas pessoas violentas, no Komuro, no Hirano, nos alunos que estavam no ônibus com o Shidou e naqueles pacifistas. Cada qual com o seu modo de fugir da verdade. Imagino que Daisuke Sato tenha feito esses paralelos propositalmente, e esse é um dos grandes pontos positivos de Highschool of the Dead.

O ambiente tranquilo facilitou que os ânimos se exaltassem. Como explicado no próprio mangá, a ilha encontrada pelo bando do Komuro os fez relaxar e brigar por bobagem. Hirano se estressou e agarrou-se ao ego, às armas. Resistiu até mesmo quando Soichiro o confrontou.

Nessa cena, inclusive, aparecem os personagens principais de forma extremamente conveniente. A página é linda, mas a Saya e a Saeko estão de costas para o Soichiro, o que não faz sentido. A Saeko foi desenhada com um rosto branco, tendo apenas um olho de detalhamento, o resto foi só uma linha delimitadora. É notável a preguiça do Shouji Sato em desenhar rostos. Várias vezes quando aparecem pessoas em quadros menores ou mais ao fundo os rostos são meio detalhados, com um olho só.

A partir daí começa uma série de trocas bruscas de núcleos narrativos. Surgem também quadros confusos, em que não se sabe quem está falando. Um em especial é absurdo de mal desenhado. A proporção corporal é horrível, a posição dos corpos não faz sentido e existem várias mãos estranhas em tela. A cena em questão se passa no ônibus escolar.

Apesar dos discursos fervorosos — quase religiosos — de Shidou, suas verdadeiras intenções e justificativas não ficam claras. É difícil dizer se ele é um megalomaníaco sedento por poder, um lunático que acredita em algum tipo de espiritualidade que o privilegia diante dos demais (algo como ser um “iluminado”) ou apenas um pervertido (qual seria a justificativa para promover o que ele promoveu no ônibus?). É um personagem que me interessa.

É estranho que no ônibus apenas um dos jovens tenha pensado “ei, de repente eu devia me importar com a minha família”. Todos no bando do Komuro pensaram nessa questão, mas parece que o ônibus exerce uma força sobrenatural sobre os presentes, tornando-os meros animais irracionais. Triste fim daquele jovem questionador.

O óbvio também aconteceu. Komuro enfim foi reconhecido como líder, a certo contragosto dele, devo ressaltar. Apesar disso, Soichiro Takagi chamou a Saeko de canto e resumidamente disse a ela que era um pilar necessário, pois a convicção do Komuro não é sólida, e seria necessária a presença de outra pessoa no grupo.

Komuro e Saeko se completam.

Mais ao final do vol. 3 de Highschool of the Dead a Rei encontrou o Komuro no quarto dele e, basicamente, disse que queria ficar com ele porque ele a protegeria. Essa máxima do interesse é quase uma pá de cal na possibilidade de ambos ficarem juntos. É improvável que um homem como o Komuro aceite ficar com alguém que não gosta verdadeiramente da pessoa que ele é, mas apenas da capacidade dele de protegê-la.

Eu comecei a resenhar Highschool of the Dead sob a tese de que o mangá tem pontos positivos. De fato, ele tem um roteiro com detalhes bem interessantes, os quais abordei nesta resenha. Por outro lado, um dos defeitos mais frequentes na trama é a montagem das cenas, que altera bruscamente os núcleos narrativos e cria vácuos de plot. Não raramente o leitor precisa completar em sua mente os diálogos que não são explicitados.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante, Highschool of the Dead é bom.

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