Crítica | Carrie, A Estranha (1976): a inconsequência, a dor da solidão e a telecinesia

O precursor dos filmes de adolescentes humilhados assassinos

Carrie, a Estranha (originalmente, Carrie) é um filme norte-americano lançado em 1976. Baseado no romance homônimo de Stephen King, foi dirigido por Brian De Palma, com roteiro de Lawrence D. Cohen. Teve em seu elenco Sissy Spacek, Piper Laurie, Nancy Allen e Amy Irving. Um clássico do terror, inspirou diversos filmes, teve uma continuação e dois remakes.

Carrie White (Sissy Spacek) é uma jovem reclusa e sem amigos, devido à criação isolacionista empregada por sua mãe, Margaret White (Piper Laurie), uma mulher religiosa. A inocência de Carrie a fez passar por uma situação humilhante, a qual acarretou uma punição aos seus detratores. O que os jovens punidos e vingativos não sabem, é que Carrie possui habilidades sobrenaturais.

Eu já havia visto os quatro filmes e lido o livro antes de fazer uma resenha sobre qualquer um deles e, por ouvir muitas pessoas dizerem que o primeiro filme é o melhor, achei que o ideal era começar por ele. Levando em conta a idade que Carrie, a Estranha possui, ele continua bom, comparado aos filmes de terror desta década.

O primeiro acerto do roteiro foi eliminar o aspecto de documentário que envolve o livro. Com isso, a narrativa fica mais fluida e não é óbvio o que está por vir. Tecnicamente ele é sofrível: edição tenebrosa, efeitos especiais bem qualquer coisa e trilha sonora que mais atrapalha do que ajuda. As cenas em geral têm mais impacto quando o som ambiente toma conta, assim como é na cena inicial, a clássica cena do chuveiro.

Nessa primeira cena, a trilha sonora cria uma atmosfera tranquila, feliz, até a Carrie ver o sangue. Aí só se ouve o barulho da água, combinando com a confusão dela e a falta de reação. Depois, apenas o coro zombeteiro das alunas é o suficiente para sentir o quão acuada e assustada Carrie está, como uma trilha sufocante, perseguidora e paranoica. Essa é a melhor cena do filme.

Outro exemplo de uso do som ambiente é durante a cobrança que a treinadora Collins faz diante das alunas que zombaram de Carrie. Sua voz ecoa, ampliando a sensação de autoridade e até construindo a atmosfera da personagem, preparando o espectador para o que viria depois.

Collins puniu as alunas com exercícios físicos intensos, e esse é talvez meu principal problema com Carrie, a Estranha. É evidente que o que fizeram com Carrie foi uma maldade tremenda, mas a própria situação em que Carrie se encontrava era patética. Mesmo a Collins disse que sentiu vontade de dar uma sacudida na Carrie, afinal, aquela reação era inexplicável. Não quero amenizar o que fizeram com Carrie, mas a punição foi desproporcional e até um certo abuso de autoridade.

A “vingança” da Chris é outra situação exagerada. Carrie não fez absolutamente nada contra ela para levar o banho de sangue. As duas sequer interagiram depois da cena inicial, que por si só já vale como uma “vingança”. A sensação que fica é que Chris queria se vingar da treinadora, mas, por algum motivo, direcionou seu ódio para quem pouco tinha a ver com aquilo.

A desproporcionalidade da Collins e da Chris ressaltam o quanto Carrie é apenas uma vítima de toda a situação, pois, caso Collins não resolvesse tomar as dores de Carrie, o baile teria sido apenas a noite mais feliz de sua vida. Claro que Margaret possivelmente tentaria matá-la, mas aí é outra questão.

Carrie passou toda a vida reclusa, sem viver como jovens comuns. Privada de tudo, ela guardava o desejo de ser feliz. Embora fosse o que mais queria, ela recusou até não poder mais o convite de Tommy para o baile, com medo de sofrer. Depois de aceitar a oportunidade, ela não podia admitir voltar à vida que tinha antes. Por isso disse para Margaret que as coisas iriam mudar.

A cena em que Carrie tenta convencer a mãe a permitir que fosse ao baile me agradou bastante. Trovões e clarões de relâmpagos com um quadro da Santa Ceia e um belo enquadramento de ambas jantando. A transição de Carrie argumentando contra uma irredutível Margaret é orgânica e deságua na decisão da jovem paranormal: fazer o que quiser fazer.

Um detalhe me deixou um pouco confuso. É compreensível que Tommy seja legal com a Carrie e a leve ao baile, dance com ela. Mas, se ele namora a Sue (ou pelo menos está próximo de namorá-la), o que foram aqueles beijos na Carrie? Achei estranho.

O baile tem um desenvolvimento parecido com a cena inicial, momentos de felicidade e paz precedendo a virada negativa. O banho de sangue tem uma boa construção do suspense com as várias perspectivas, mas é muito demorado. Sue e Collins percebendo o que estava ocorrendo e agindo foi demasiado arrastado, ao ponto de me incomodar, principalmente por estar em câmera lenta.

Embora a Sue não tenha sido “banida” do baile e tenha sido legal com a Carrie, por motivo nenhum a Collins a colocou para fora do salão, de modo extremamente autoritário. O pior é que aquela poderia ser uma chance de a Sue impedir que o sangue caísse na Carrie. Novamente, a culpa é da Collins.

É inexplicável que a plateia tenha rido da situação. Primeiro que é lamentável o banho de sangue (mesmo tinta, caso pensassem nisso), segundo que o balde bateu na cabeça do Tommy e ele desmaiou. A princípio achei que fosse coisa da cabeça da Carrie, mas parece que estavam realmente rindo dela.

Talvez Tommy pudesse confortá-la e impedir o que se seguiu. Ressalto a irresponsabilidade de Chris, pois era evidente que o balde poderia cair na cabeça de algum dos dois. Mais uma vez, o uso do coro da plateia como trilha sonora junto de frases direcionadas à Carrie torna a cena tensa.

É palpável a condensação de todas as humilhações, a solidão e a opressão, até o ponto de decisão. O som cessa e Carrie tranca todos no salão. O olhar assustador e determinado, acompanhado pela ausência de palavras de Carrie, tornam as cenas de ação no baile excelentes e aterrorizantes, especialmente porque nós vimos a doce Carrie ser feliz e perder tudo por conta de pessoas maldosas.

Nessa sequência do baile, o pior momento é quando a Carrie explode o carro da Chris. A explosão não tem muita explicação e a cena é rápida demais, acho que eu ficaria confuso, se já não soubesse o que ocorreria.

Após o retorno de Carrie para casa, é natural a transição entre a quebra da barreira emocional de Margaret e a revelação de seu passado fornicador, que a levou a uma vida de castidade rompida por uma única vez, a vez que gerou Carrie. Depois dessa necessária conversa, é possível deduzir que o trauma e o remorso de ter pecado acabou mexendo com a mente de Margaret, e a guiou para a criação reclusa de Carrie.

Como era de se esperar, Margaret tentou matar Carrie e acabou morta. Ela podia ser má o quanto fosse, mas era a única pessoa que Carrie tinha, sobretudo, naquela noite. É compreensível que aquela perda representava algo pior que a morte: a mais profunda solidão.

A última cena do filme é a pior de todas, um jumpscare sem nexo da Sue vendo a Carrie sair da terra, que na verdade é um sonho. Péssima escolha de encerramento, sem nenhum cabimento.

Carrie, a Estranha é um filme legal, mas funciona mais como um protótipo dos filmes de adolescentes que morrem e voltam assassinos. É um clássico, sem dúvidas, mas seu enredo não é tão impactante (e, nesse sentido, coeso) quanto seu descendente Tamara. Uma coisa que eu mudaria sem pensar duas vezes é o título, pois esse “a Estranha” é um adjetivo muito negativo e spoilerzento. Apenas “Carrie” já basta.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s