Crítica | Carrie, a Estranha (2013): um bom remake do remake

Carrie, a Estranha foi um filme norte-americano lançado em dezembro de 2013 pela Sony Pictures. O longa teve 30 milhões de dólares de orçamento e 1h40 de duração. Foi dirigido por Kimberly Peirce e teve no elenco Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Portia Doubleday e Gabriella Wilde.

Carrie

Carietta White (Chloë Grace Moretz) sempre foi oprimida pela sua mãe, Margaret (Julianne Moore), uma fanática religiosa. Além dos maus tratos em casa, Carrie também sofre com o abuso dos colegas de escola, que nunca compreenderam sua aparência nem seu comportamento. Ridicularizada por todos, aos poucos ela descobre que possui estranhos poderes telecinéticos.

Apesar do título desta resenha, o Carrie de 2013 é um remake do de 1976, enquanto o de 2002 é mais um reboot ou uma readaptação do livro, pois contém a estrutura narrativa envolta por cenas “documentarísticas” que existem no livro, mas não nos demais filmes. Cabe ressaltar que este é o filme menos agregador do “universo Carrie”, pois não se trata de uma nova abordagem (2002) nem de uma nova história (1999).

Mesmo não sendo inovador, Carrie passa longe de ser ruim, diferente do que eu pensava antes de assistir.

O começo do filme já introduz a Margaret como uma pessoa ruim, pensando em matar a filha recém-nascida. Apesar mudança de ideia, já dá para ter uma noção do péssimo ambiente que cerca a vida de Carrie.

Carrie é apresentada aos espectadores como uma jovem introvertida e desinteressada em esportes, mas com um sutil desejo de ser aceita, de fazer parte do grupo. Isso aumenta o impacto do que vem a seguir, a clássica cena do banheiro. Tudo é coerente e lógico, até que as alunas começam a jogar absorventes na Carrie.

Aquilo foi um exagero, e pior ainda foi gravar e postar na internet. O que a Carrie fez para ser tão odiada pela Chris? Um dos meus problemas com Carrie, a Estranha é essa falta de sentido nas maldades que fazem com a Carrie. Fora que, quando cobrada, Chris diz que elas “não fizeram nada para serem punidas”, sinal da mais completa demência ou psicopatia. A tese da psicopatia ganha força quando a Chris esfaqueia o porco sem titubear.

É interessante a relação mãe e filha. Já na primeira conversa, a Margaret acerta uma livrada na cabeça da Carrie. Extremamente saudável esse laço. Não sei se foi apenas impressão minha, mas quando a Margaret arrasta a Carrie para o quartinho da oração, não parece que realmente ela está arrastando a filha. Ficou um tanto estranho.

Um aspecto que este filme melhorou em relação ao original foi o motivo da punição. Eu aceito muito melhor os exercícios por conta da postagem no YouTube do que apenas pelo ataque de absorventes. Claro que ainda há o problema de todas serem punidas pelo erro de umas poucas, mas, ainda assim, é um ponto positivo.

O atrito jurídico da Chris com a escola faz muito sentido, mas é inacreditável que ela foi burra o suficiente para não apagar o vídeo do celular. Uma grande contribuição da Chris para o peso dos eventos do filme foi questionar se a Sue queria defender a Carrie ou simplesmente ir ao baile. Isso faz a escolha da Sue em pedir ao Tommy para levar Carrie ao baile muito mais interessante e altruísta.

No confronto entre Carrie e Margaret sobre o baile, fica claro que a Carrie não regula muito bem, visto o jeito que ela usa a telecinese para deixar a mãe levitando. É mais uma cena em que a direção do filme faz questão de mostrar que o orçamento é gordo, com a telecinese erguendo móveis.

Os efeitos especiais são bons, mas eu tenho três problemas com o uso dos poderes da Carrie. O primeiro é quando ela prende a Margaret no quartinho da oração e funde o metal da tranca, para impedir a fuga da mãe. Carrie tem telecinese, não pirocinese ou magnocinese para fundir o metal daquela forma. Na cena da tentativa de atropelamento, Carrie para o carro da Chris de modo que a frente dele amassou, não como se ela movesse o carro com a mente, mas como se ela houvesse criado uma parede invisível. O terceiro caso é o mais bizarro, que é quando, ao final, Carrie descobre que Sue está grávida.

O roteiro de Carrie, a Estranha tem alguns detalhes que mostram esmero em sua confecção, entre eles a gravidez de Sue, que amarra duas cenas aparentemente sem propósito que ocorrem durante o filme. Outra cena envolvendo a Sue é quando ela chega ao baile e estaciona ao lado do carro da Chris, o que, posteriormente, dificulta a fuga de Chris e o namorado.

Apesar disto, há alguns momentos estranhos. Assim que entra no salão, Sue vê tanto o balde quanto a Chris, então por que nenhuma outra pessoa, nem mesmo a Desjardin, percebeu? É uma grande forçada de barra, porque ou ninguém percebeu ou apenas pessoas que não gostam da Carrie perceberam.

Fora que a Desjardin arrastar a Sue para fora do baile não faz sentido algum. Se o Tommy chamou a Carrie para o baile e a Sue quer fazer algo de ruim para a Carrie, o Tommy também tem intenção de fazer esse algo. Desjardin acabou impedindo a última chance de salvação da Carrie.

Na principal cena do filme, a do baile, foi mais um exagero a exibição do vídeo no telão. Para que tanta humilhação? De onde vem tanto ódio? A Carrie não fez nada, quem fez foi a Desjardin, com a sua punição. Imagino que a escolha pela exibição do vídeo foi uma tentativa de tornar mais lógico o acesso de risos na plateia, um problema do filme de 1976.

Carrie usa tanto os poderes no filme que chega a parecer um personagem estilo “super-herói”. Longe de ser um defeito, torna Carrie, a Estranha um deleite visual.

Depois daquele início, já era de se esperar que a Margaret tentaria matar Carrie. É interessante que mesmo sendo uma pessoa má, a mãe era tudo o que Carrie tinha e a perder foi como perder a sua última ligação com a realidade. A partir daí, fica coerente o suicídio.

A cena da chegada da Sue, a forma com a qual ela se aproxima da Carrie, com medo, triste e se sentindo culpada, é impactante. Me deixa emocionado só de lembrar a sensação de que a Sue é uma boa pessoa e quer que tudo melhore. Carrie negou a ajuda, salvou Sue e descobriu que ela estava grávida, uma espécie de prêmio pelo “bom comportamento” da Sue. Tudo faz sentido e emociona.

Carrie, a Estranha não é um filme genial, mas é extremamente eficiente no que se propõe e funciona como entretenimento. Pode até estar abaixo da qualidade do original, como alegam muitos fãs, mas não muito abaixo.

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