Crítica | A Maldição de Carrie (1999): uma versão genérica e sem sal de Carrie

A Maldição de Carrie (The Rage: Carrie 2, no original) é um filme de terror norte-americano lançado em 1999. Foi dirigido por Katt Shea e teve em seu elenco Emily Bergl, Amy Irving, Jason London e Dylan Bruno. O longa de pouco mais de uma hora e meia apenas tenta, sem muito afinco, ser uma sequência do clássico Carrie, a Estranha (1976).

Há vinte e três anos a telecinética Carrie White foi humilhada em um baile no seu colégio. Usando seus poderes paranormais, ela fechou as portas e incendiou o ginásio, matando todos, com exceção de Sue Snell (Amy Irving). Em 1999, a situação começa a se repetir, quando Rachel Lang (Emily Bergl), a meia-irmã de Carrie que também telecinética e menosprezada por seus colegas, está prestes a ir a um baile sem que ninguém tenha ideia de seus poderes.

Conheço muitos fãs de Carrie, a Estranha e nenhum deles conhecia A Maldição de Carrie. Eu mesmo só fui conhecer por conta de uma lista de filmes que li aleatoriamente. Não me recordo de tê-lo visto passando na TV, inclusive, mas, talvez, o motivo para o desconhecimento seja o conteúdo do longa.

A “franquia” Carrie se fundamenta em três pilares: cena do banheiro, cena do baile e Carrie. A Maldição de Carrie altera os três fatores, jogando a qualidade da situação para baixo.

A humilhação

Seria incorreto tentar traçar um paralelo entre a cena do banheiro e alguma cena do A Maldição de Carrie, mas avaliando isoladamente o sofrimento da Rachel, ele é grande, no entanto, é superável. Tão superável que ela leva uma vida normal sem maiores dificuldades. Ela parece uma garota comum.

Apesar de ter pais adotivos, não foi explicitado que ela era abusada emocionalmente por eles. Sobre a vida social, na pior das hipóteses ela tinha uma grande amiga, e isso já é um grande alívio para qualquer um. No mais, Rachel Lang não é uma terrível sofredora.

A cena da festa faz sentido. Rachel colocou em risco a liberdade de todos os amigos do cara lá e a vingança ser uma exposição de um vídeo íntimo é lógico e, a certo modo, proporcional. Os rapazes a odeiam e eu entendo o motivo. Tudo é bem construído até os risos. Foi um acerto do roteiro fazer a Rachel achar que o namoradinho a estava usando como a amiga dela foi usada, traz carga dramática para a escolha dela.

O ódio telecinético

A Maldição de Carrie recicla cenas de ação do filme de 1976, como a ideia do incêndio ou mesmo as portas fechando. O uso do filtro preto e branco é ruim e tira a imersão da situação, bem como certos efeitos utilizados para induzir o espectador a sentir a humilhação que a protagonista está passando. Se o filme de 1976 já exagerava um pouco nesses efeitos das “vozes”, este piora muito. Sem falar nos flashbacks excessivamente numerosos e, por diversas vezes, sem sentido.

Na cena da festa, uma incógnita que ficou foi quanto à marca que se espalhou pelo corpo de Rachel. Não existiu nenhuma explicação e nem havia qualquer paralelo com o filme original, então pareceu apenas uma escolha estilística “maneira”.

O sangue, a cabeça rolando, o vidro, é tudo muito falso, irreal e sem peso dramático. O clima é de um filme trash, especialmente reforçado por uma piada ridícula. Me senti vendo uma paródia de Carrie, a Estranha.

A ideia do confronto com o arpão é legal, mas não faz sentido o tempo que os jovens humilhadores demoraram para atirar na Rachel, fora que a morte de dois deles é absolutamente tosca. Adjetivo que também pode qualificar a forma com a qual Rachel “entende” que o namoradinho não é mau.

Carrie 2

Apesar de A Maldição de Carrie tentar expandir o conceito do gene telecinético e manter a personagem Sue Snell, o filme acrescenta muito pouco, ou até mesmo nada, ao original.

O maior elo de continuidade é a Sue, que, numa atitude louvável, tentou ajudar Rachel. O problema é que, apesar da boa intenção, Sue foi extremamente desastrada. Em vez de auxiliar, mais fez foi confrontar Rachel, como se ela fosse uma criminosa que inevitavelmente mataria pessoas.

Em suma, Sue não conseguiu fazer nada que pudesse ajudá-la e teve uma morte patética. Tão patética que eu me pergunto o que deu na cabeça do roteirista para incluí-la na trama. Se tirar a Sue do filme, ele fica melhor. E fica melhor também por outro motivo, deixaria de ser Carrie 2 e se tornaria Rachel.

A mãe da Rachel também é inútil. Além das conveniências que fizeram ela e a Sue chegarem tarde demais, sua aparição só serve para explicitar que Rachel é meia-irmã de Carrie. É forçado o jeito que ela “piora” o estado emocional de Rachel, só que a mesma piora é praticamente ignorada pela racionalidade dela enquanto fala com o namoradinho. Se tirar a mãe da Rachel do filme, ele fica melhor.

A Maldição de Carrie é uma mistura de continuação com reboot, só que o filme não funciona nem como um, nem como o outro.

Um grande ok

Resumidamente, A Maldição de Carrie é uma versão genérica de Carrie, a Estranha. Ele imita a estrutura, repete até o detalhe da “mãe religiosa” e a perda da mãe próximo a morte da protagonista. A ação não tem a mesma qualidade e a protagonista não tem o mesmo peso, pois Rachel não é nem de longe tão problemática quanto Carrie.

A mistura de todas essas características resulta num filme aparentemente caça-níquel, cujo único propósito é lucrar em cima da fama de Carrie, a Estranha, sem sequer se dar ao trabalho de ser um filme decente, seja como continuação, reboot ou remake.

É bem pior que o caso de O Chamado 3, que funciona como uma versão genérica de O Chamado.

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