Crítica | Depois de Lúcia (2012): Alejandra, a dor e a forma de reagir

Depois de Lúcia (Después de Lucía, no original) é um filme mexicano lançado em 2012. Foi dirigido e roteirizado por Michel Franco, tendo em seu elenco Tessa Ia, Gonzalo Vega Jr., Tamara Yazbek, Hernán Mendoza e Monica del Carmen. Tratando do tema bullying, o filme é contemplativo e angustiante.

Quando a esposa de Roberto (Hernán Mendoza) morre, a relação dele com sua filha Alejandra (Tessa Ia), de 15 anos, fica abalada. Para escapar da tristeza que toma conta da rotina dos dois, pai e filha deixam a cidade de Vallarda e rumam para a Cidade do México em busca de uma nova vida. Alejandra ingressa em um novo colégio, e sentirá toda a dificuldade de começar de novo quando passa a sofrer abusos físicos e emocionais. Envergonhada, a menina não conta nada para o pai, e, à medida que a violência toma conta da vida dos dois, eles se afastam cada vez mais.

Depois de Lúcia não é um filme para todos. Uma peculiaridade técnica pode torná-lo enfadonho para muitos: o uso de planos longos. Eles se espalham por toda a uma hora e meia de duração do longa, acompanhados de outra escolha técnica peculiar: câmera fixa.

Na maior parte das cenas, vemos os personagens se moverem, mas a câmera não os acompanha. Isto leva o espectador a ter de “completar”, através de sugestões do filme, o que de fato está acontecendo. Esse método de filmagem torna quase tudo uma visão “documentarística” da vida daqueles personagens. É como um simples retrato da realidade, e, de certa forma, Depois de Lúcia o é.

A forma encontrada por Roberto para enfrentar a dor foi dar vazão à agressividade, e esta tendência se concretizou também ao final do filme. A escolha de Roberto é chocante e compreensível, tendo em vista tudo o que aconteceu com Alejandra, mas, é necessário ter em mente que dois erros não fazem um acerto.

Ao contrário do pai, Alejandra lidou com a dor buscando evitar o conflito. Por este motivo, deixou de contar ao Roberto o que estava passando. Se por um lado o deixou tranquilo, por outro, permitiu que a bola de neve aumentasse mais e mais de tamanho, chegando ao ponto de fazer explodir o mesmo Roberto que ela tentara proteger.

É possível ponderar sobre a imprudência de Alejandra ao permitir que José gravasse aquele vídeo. Por que alguém gravaria se não para divulgar posteriormente? Sua escolha de ficar com ele pode ter sido afetada pelo vazio que sentia, ou talvez pelo desejo de aceitação que podemos observar nitidamente na cena da piscina.

Na piscina, é facilmente perceptível que Alejandra vai da felicidade para o desconforto. Ela tenta fingir que está bem, mas não consegue esconder o incômodo. O incômodo é não fazer parte do grupo, uma das maiores dores que o ser humano pode sentir.

Talvez Alejandra pensasse que, caso não reagisse, os colegas parariam de atormentá-la. O apego a tal postura passiva foi a pior escolha que a jovem poderia fazer. Se você diminui o seu espaço de ação, o espaço do outro cresce e ele vai saber que pode avançar. A inércia de Alejandra em tomar uma atitude drástica contribuiu para que ela fosse estuprada (provavelmente várias vezes).

O que digo, entretanto, não é que a culpa era de Alejandra, pois quem agride sempre é o principal culpado — desde que tenha consciência dos seus atos —, mas sim que ela era a única pessoa capaz de mudar a sua situação. Me irritava ver que ela não dava um basta naquilo e, ao mesmo tempo, ver que um final trágico se aproximava.

Depois de Lúcia é um filme eficiente em retratar uma realidade pouco rara, envolta por uma escolha automática e devastadora para muitos: a passividade.

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