Crítica | Carrie, a Estranha (2002): o ponto de ruptura

Essa é estranha de verdade

Carrie, a Estranha é um filme norte-americano lançado em 2002. Foi dirigido por David Carson e roteirizado por Bryan Fuller. Teve em seu elenco Angela Bettis, Patricia Clarkson e Rena Sofer. Com pouco mais de 2 horas de duração, seu objetivo era ser o piloto de uma série de TV.

Carrie White (Angela Bettis) é uma adolescente solitária. Ela sofre constantemente com os abusos da mãe, uma mulher religiosa, e dos colegas de escola. Aos poucos, a garota vai perdendo a sanidade mental, até que descobre seus poderes telecinéticos. A noite da formatura do colégio está chegando e tudo pode acontecer.

Carrie, a Estranha é um filme fraco tecnicamente. Várias cenas com o uso de efeitos especiais são meia boca, mas, o que mais critico é a montagem, a edição, que transita entre os dois extremos: planos muito longos e planos com muitos cortes. Cenas de ação entrecortadas dificultam a compreensão do que está acontecendo e aumentam o cansaço dos olhos do espectador.

Os planos longos são ruins não apenas por serem longos, mas por agregarem muito pouco à narrativa. Esse exagero de tamanho é um dos motivos que tornam Carrie, a Estranha um filme longo. Outra razão é a inserção de cenas no “presente” entre as cenas do “passado”.

É evidente que isso ocorre porque o filme tenta ser mais fiel ao livro, no entanto, tudo o que consegue é ser mais tedioso e durar mais tempo. Seu conteúdo no presente é pouco relevante e acrescenta quase nada, pois do começo ao fim do filme não parece que o enredo avançou. A sensação que fica é que poderíamos retirar todas as cenas no presente e Carrie, a Estranha ainda faria sentido, talvez até se saindo melhor, mais tragável para o espectador.

A trilha sonora e a edição de som ficam devendo. Muitas cenas teriam mais impacto se fosse removida a trilha ou alterada, para não parecer que o filme está implorando para que o espectador fique tenso.

Angela Bettis atua bem e sua aparência é crível, uma jovem que ficaria bonita se cuidasse mais do corpo. Meu porém em relação à atuação é: o diretor a orientou a parecer uma doente, com aqueles tremores e o olhar ora apressado ora estrábico ou foi coisa dela? Porque, dependendo da resposta, minha perspectiva quanto ao filme muda. Destaco a cena do convite para o baile, na qual Angela emula perfeitamente a hesitação e a felicidade contida de Carrie.

Carrie é uma personagem adorável, uma jovem reclusa que é prisioneira da escuridão, ainda que às vezes enxergue pontos de luz. Pontos como os pequenos detalhes que demonstram que Carrie enfrenta a mãe, discorda dela e sente que seus ensinamentos estão errados. Nós torcemos por Carrie até o fim, nos afeiçoamos a ela, muito em razão do sofrimento que a acomete. E o sofrimento é injustificável.

A cena do banheiro é absolutamente revoltante (e forçada), pois Carrie não faz nada, apenas fica parada, com medo e confusa. O que torna o momento forçado é justamente não haver motivo para piada. Qual a graça em uma mulher estar menstruada? As alunas não sabiam que Carrie não sabia do que se tratava, ou pelo menos não tiveram tempo o suficiente para deduzir isto, já que Carrie não disse nada.

O ódio da Chris é inexplicável. Ela poderia até culpar a Desjardin por ter perdido o baile, mas não a Carrie, que já fora humilhada inúmeras vezes. Há exagero na utilização do sangue de porco, mas existem problemas práticos com a vingança. Como ninguém veria o balde a tempo (como de fato não viram)? Como a Chris poderia ter certeza de que a Carrie ficaria exatamente no lugar em que o sangue cairia? Fora que dependendo da força usada para puxar a corda a trajetória do sangue mudaria. Tudo muito conveniente.

Um grande ponto negativo na cena do baile é o uso do recurso “sonho” da Carrie, o que só gasta tempo com uma fantasia cuja capacidade de fazer o espectador se importar com a cena é irrelevante, dado todo o resto do filme até aquele ponto.

Ao longo do filme Carrie apresenta tremores, geralmente associados à tensão emocional e ao uso da telecinesia. É possível dizer que esses tremores são a ação de uma “coisa” no interior de Carrie. A coisa, outra personalidade, lado ruim, ou o que quer que seja, floresce como uma resposta à dor e libera o uso dos poderes.

Talvez o outro lado seja uma ferramenta inconsciente criada por Carrie para combater o sofrimento ao qual era exposta. Sendo o baile o momento de maior dor na vida de Carrie, logo após um momento de felicidade, o outro lado tomou o controle do corpo. Um lado provavelmente composto apenas por raiva, rancor e desejo de vingança, que não pouparia ninguém naquela cidade, como foi demonstrado pelo final do filme.

Todos têm seus demônios internos para controlar e Chris foi o ponto de ruptura que libertou o demônio de Carrie. Minha suposição quanto à existência dessa “outra Carrie” se deve pela maneira diferente de agir, desprovida de emoções, e o fato de ela não conseguir se lembrar do que fez. No mínimo, ela não estava totalmente consciente de seus atos.

O lado bom da história tem um roteiro coerente e agradável, até o final positivo. Para alguém que sofreu tanto, Carrie merece uma nova chance de viver. Desta vez, viver do jeito certo. É interessante que o filme dá a entender que Carrie nunca quis fazer coisas ruins, o que difere do original, do remake e da continuação.

O destaque negativo de Carrie, a Estranha fica para a cena ridícula em que Carrie atrai meteoros para a própria casa. É ininteligível o poder que ela precisaria ter para fazer algo desta magnitude, além de ser algo extremamente exagerado, estranho e facilmente perceptível por qualquer um no mundo. Ressalto também os dois “jumpscares” ao final do filme, os quais foram ridículos e desnecessários.

Carrie, a Estranha é um filme bem intencionado. Conta uma história interessante, mas o faz com grandes problemas de direção (principalmente edição) e roteiro, o que acaba baixando a qualidade drasticamente.

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