Crítica | A Invasora (2007): Muito bom, até ficar muito ruim

A Invasora é um filme de terror francês que foi lançado em 2007 e dirigido por Julien Maury e Alexandre Bustillo. Com 1h20 de duração, contou com a participação de Béatrice Dalle, Alysson Paradis, Jean-Baptiste Tabourin e Nathalie Roussel. Possivelmente é o filme que mais me irritou na vida.

Sarah (Alysson Paradis) e Matthieu Scarangelo (Jean-Baptiste Tabourin) sofrem um acidente de carro quatro meses antes do fim do ano. Apenas Sarah, grávida, sobrevive. Na véspera de Natal, ela fica em casa sozinha, onde se prepara para o parto, que está previsto para o dia seguinte. Porém, a viúva é atormenta por uma mulher que deseja ter o bebê de Sarah a qualquer custo.

A Invasora trabalha o suspense de forma incrível, construindo toda uma sensação de solidão e desconforto em Sarah. Quando a invasora surge, é palpável a apreensão da personagem diante da realidade, estando grávida e provavelmente indefesa.

Tudo antes desse acontecimento, que inclusive faz parte da sinopse do filme, é orgânico e necessário, para que o espectador conheça e se importe com a personagem, sinta seu desejo de ter uma família ao mesmo tempo em que conserva a tristeza da perda do companheiro. Como o filme é curto, esse período introdutório não entedia.

Várias camadas de proteção são criadas para que o tempo todo haja a perspectiva de que “alguém pode chegar”. Entre os momentos angustiantes de sofrimento físico de Sarah, surgem alguns personagens protetores. Suas mortes são bem preparadas, ainda que com alguns exageros, com destaque para a mãe de Sarah. Aquela cena me entristeceu e aumentou meu desejo pela vitória da protagonista, e foi aí que A Invasora me ganhou.

Embora a vilã tenha muitos momentos de “sorte”, a escalada da complicação da situação é plausível. Ainda que estranho, não é tão difícil de engolir quanto tantos outros pares do gênero terror/suspense. Somando essa razoabilidade da violência à tensão crescente e orgânica (ignoro a trilha sonora ridícula e a arte mostrando o feto, algo extremamente patético e desnecessário) do longa, temos um excelente filme de suspense.

Minha impressão era tão positiva que eu já pensava em recomendar o filme e colocá-lo na minha lista de favoritos, mas, após 1h05, tudo cai por terra.

Antes do problema, quero ressaltar que alguns detalhes, como o flash iluminar o cenário e a vilã acender o cigarro, foram pincelados ao longo do filme, preparando o espectador para certas cenas do final. Não dá para dizer que ele foi mal feito, e é essa a razão do veredito que darei a A Invasora.

A violência um tanto quanto exagerada deixava os personagens degradados, até o ponto em que Sarah mal conseguia andar, estava inteira ensanguentada, com as mãos cortadas (sendo que uma delas fora perfurada por uma tesoura) e deitada no chão. A vilã foi acender o cigarro, próximo da protagonista, e esta acionou um spray. O resultado foi um jato de chamas tomando o rosto da vilã.

Neste ponto eu senti que a coisa estava saindo do normal, mais ou menos como no caso de Advogado do Diabo. Sarah então fez uma lança com um aparato metálico e uma faca, se aproximou da vilã meio desfigurada e deixou-a contar seu “passado triste”. Em seguida, um personagem que devia estar morto se levantou (cego) e ligou a eletricidade da casa, Sarah se aproximou sem motivo, ele a espancou sem motivo e a vilã encravou a lança no peito dele nem parecendo ter acabado de levar um jato de chamas no rosto.

O passado triste da vilã é que ela perdera o bebê em um acidente de trânsito causado pela protagonista (o qual é a primeira cena do filme). Ignorando questões práticas sobre como a vilã sabia tanto de Sarah e conseguiu entrar na casa, até é uma revelação legal. Faz sentido e chega a ser previsível, o que não a torna ruim.

Na sequência final do filme, Sarah entra em trabalho de parto, a vilã corta sua barriga, arranca o feto/bebê e termina A Invasora o segurando em seu colo, como desejava fazer desde o princípio. Fiquei triste pela morte da protagonista, mas o vilão vencer não torna um filme ruim.

Eu queria evitar dizer tanto a minha impressão pessoal, mas neste caso é difícil. Quando o personagem aparentemente morto se levantou e surrou a Sarah, senti como se o diretor de A Invasora me acertasse um soco e dissesse “perdeu seu tempo, idiota, agora é paródia de horror”. O policial zumbi foi uma questão que ficou em aberto. A cena da “morte” dele não é clara e sequer entendi como foi que ele ficou cego ou qual foi o ferimento que o tiro provocou nele.

O excesso de sangue não é um problema, mas a mudança drástica no tom e o abandono das bases estabelecidas pela trama são uma traição para com o espectador. É como se ao final de Harry Potter o Harry acordasse na cama e dissesse: “caramba, tive um sonho muito louco”.

Pegando o título desta resenha, o que mais odeio em A Invasora é que ele é muito bom e se torna muito ruim por opção, não por incompetência. É uma grande piada sem graça.


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