Crítica | Death Note – Justice or Evil (one shot): a boa ideia, o rascunho e o shinigami ex machina

O que te torna inteligente não é a sua nota, mas a capacidade de resolver problemas

Ao final do Tokubetsu Hen é deixado no ar que Ryuk poderia jogar o Death Note na terra novamente e, mais de dez anos depois, Tsugumi Ohba e Takeshi Obata produziram outro one shot contando a história de mais um Kira. Este que fora chamado por Near de A-Kira. Bem intencionado, o mangá é problemático.

Vários anos após a morte de Light Yagami, Ryuk retorna ao mundo humano e escolhe Minoru Tanaka para ser o portador do Death Note. Poderão Near e a polícia japonesa ser um empecilho aos seus objetivos?

Continuar Death Note é um problema porque o nível de qualidade foi decaindo desde os volumes 3 e 4. A segunda metade é fraca e o Tokubetsu Hen acrescenta pouco conteúdo, então a ideia de haver um one shot novo não me pareceu promissora.

Em síntese, Justice or Evil agrega quase nada à Death Note, além de uma boa ideia: como o Death Note poderia ser usado sem precisar escrever nomes nele. E um dos problemas é justamente esse. Minoru Tanaka não é um criminoso, portanto, Near não poderia capturá-lo nem teria permissão legal para tomar-lhe o caderno. Sendo assim, basicamente, todas as cenas do lado policial são desnecessárias, pois não levariam a lugar nenhum.

A aparência do Near ficou tenebrosa com aqueles cabelos compridos e, diferentemente do Tokubetsu Hen, sua participação neste one shot se limita a dizer que não pode fazer nada e que o Minoru é inteligente. Minoru até teve uma boa ideia, mas não era nada difícil de se imaginar, até porquê, o trabalho prático foi todo feito por Ryuk. Para ele, não havia riscos.

Light Yagami se lançou contra os leões e venceu várias batalhas. Agir no conforto do anonimato não é demérito algum para Minoru, mas Near o considerar digno é sinal de que ele baixou o padrão de qualidade. Como Minoru seria superior ao C-Kira ou ao Higushi?

Chamar Minoru de A-Kira é tão ilógico quanto chamar de assassina uma pessoa que vende uma arma. Ryuk dizer que foi divertido é bizarro, afinal, tudo o que ele viu foi um leilão virtual incomparável à jornada hercúlea de Light Yagami.

Percebem o padrão? Justice or Evil parece ser o rascunho de uma boa história. Temos uma boa ideia (o leilão), situações chave (o plot twist e o retorno do caderno) e as características principais dos personagens (Matsuda é um idiota, Aizawa é responsável e Near acha Minoru inteligente), mas a construção da conexão entre todos os pontos não é satisfatória. Um bom exemplo é Near admitir a derrota. Derrotado por que se não enfrentava um criminoso? Tudo artificial, mas visivelmente pensado na tentativa de ser épico.

O plano de Minoru é simples, mas legal. Um ponto positivo é expor o quão longe os governos podem ir para conseguir poder, ainda que para fins pacíficos, e o limite dos homens (a escolha do presidente dos EUA em recusar o Death Note). Acho questionável conseguir convencer democraticamente duas casas legislativas a liberar 10 trilhões de dólares para comprar uma arma que nem é certeza de que vai funcionar, mas podemos supor que políticos são loucos e fica tudo certo.

O final tem a melhor e a pior coisa de Justice or Evil. O pior se divide em duas partes, a primeira é o shinigami ex machina. O Rei Shinigami nunca havia se intrometido, mesmo com todos os atritos causados entre e por humanos e shinigamis, mas de repente ele acha um absurdo que o caderno possa ser vendido? E mais, todas as regras do Death Note seguem uma linha de raciocínio assimilável, menos essa, que executa sem motivo.

Que eu me lembre, a única ação do usuário que o mata é escrever errado o nome de uma pessoa propositalmente quatro vezes, o que configuraria uma tentativa de blindar alguém contra o Death Note. Regra esta que faz total sentido, já que a função do caderno é matar, não salvar (o mesmo serve para a forma de matar shinigamis).

Rápidas refutações

Muitas pessoas por aí entenderam que a regra nova surgiu pois seria “instaurado o caos no mundo”, devido à venda do Death Note, mas há vários indícios de que esse pensamento não faz sentido.

Consideremos que o Rei Shinigami não quer que alguém utilize o caderno de forma incorreta. Se fosse o caso, o Death Note teria alguma restrição de uso, e não tem. Se o caderno é infinito e não há nenhuma regra acerca de quem se pode matar (as regras são sobre “como”, não “quem”), o problema do Rei não é com o alvo das mortes nem com a quantidade.

Outros dizem que o que incomodou o Rei Shinigami foi a venda do caderno. O problema aqui é que, além de objetivamente esse incômodo não fazer sentido, nada em Death Note sugere que o Rei tenha tal pensamento. Light Yagami presenteou Higushi e Mikami com o caderno. Ele, Misa, Rem, Ryuk, Mello, Soichiro Yagami e até o Sidoh trocaram a posse e o porte do caderno entre si algumas vezes sem que o Rei Shinigami dissesse um único “a”. Qual é a grande diferença entre todas estas trocas e uma venda?

Mesmo após estes dois pontos, é possível dizer que o Rei Shinigami é infantil e ficou de frescura na vez do Minoru, uma ideia inenarravelmente ridícula da parte de Tsugumi Ohba (e, de modo assustador, não surpreendente).

A segunda parte do pior é o fim do Minoru Tanaka. É extremamente infantil que o Ryuk não tenha dito a verdade apenas para seguir ao pé da letra a orientação, inclusive por ele mesmo ter a tradição de esclarecer as coisas, ou sugerir o esclarecimento. O problema é pior por conta da criação da regra ser posterior ao plano do Minoru, o que confere infantilidade também ao Rei Shinigami, que muda as regras do jogo por não gostar do resultado.

É o terceiro final questionável feito por Tsugumi Ohba (a obra original e o primeiro one shot são os outros), sendo este verdadeiramente ruim. É uma forçação de barra além da conta, apenas para “fechar por completo” a trama. Vejo até um problema na regra.

Quem compra morre no momento em que recebe o caderno e quem vende morre assim que recebe o pagamento. Se o presidente dos EUA não aceitou o caderno, então não existe compra, afinal, Minoru foi pago pelo quê? Por deixar o Trump conhecer o Ryuk? Ou os dois deveriam morrer ou nenhum.

A melhor coisa no one shot é a participação do legado do Kira. O Japão enriqueceu devido à venda do Death Note, devido ao Kira, por isso é natural que as pessoas agradeçam a Kira pelo dinheiro. Suponho que a partir daí o mito de Kira como um Deus deva crescer e ganhar adeptos. O mundo não sabe a verdade e o verá como alguém que de tempos em tempos volta para ajudar os menos abastados.

Kira ser objeto de estudo nas salas de aula é uma informação bem interessante e é natural que o moralismo cegue os construtores do material didático para os benefícios de Kira ao mundo. Reduzi-lo a um mero serial killer é desonesto.

Outro ponto da ambientação é colocar em cheque se Light Yagami conseguiria vencer os obstáculos em tempos modernos, nos quais a tecnologia oferece muito menos brechas. É interessante para fazer um exercício de imaginação, mas podemos supor que Light daria um jeito, como sempre deu.

Uma cena em específico do Matsuda é absolutamente patética (chocando um total de 0 pessoas), em vez de seguir com o plano de observar a movimentação de Ryuk para descobrir onde está Minoru Tanaka, ele escolheu aparecer diante das câmeras e passar algum tipo de lição de moral. O resultado de sua estupidez foi a perda da chance de seguir Ryuk e conferir mais credibilidade ao inacreditável (o que é um tremendo problema no roteiro) leilão do Death Note.

Death Note – Justice or Evil é um one shot fraco, tanto em roteiro quanto em arte, que traz uma ou outra informação legal, mas que, no geral, só serve para encher o Universo Death Note com mais uma obra de qualidade duvidosa.

Mesmo podendo ser alterada a causa e a hora da morte, a morte em si nunca poderá ser evitada após a vitima ter seu nome escrito


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