Crítica | Circus Kane – O Circo dos Horrores (2017): meio escape room, meio slasher e plot twist

Circus Kane é um filme norte-americano de terror lançado em setembro de 2017. Foi dirigido por Christopher Ray e estrelado por Jonathan Lipnicki, Victoria Konefal e Tim Abell. Com uma hora e meia de duração, corresponde àquela classe de filmes b de horror.

Um recluso mestre de circo convida estrelas populares das mídias sociais para sua casa de assombrações. Qualquer um que possa ficar sem se assustar ganhará 250 mil dólares, mas os perigos acabam se mostrando mais reais do que inicialmente supuseram.

Circus Kane é fraco e quase amador em diversos aspectos. A fotografia usa fantasmas (imagem de algo ou alguém duplicado, sendo um deles aparentemente irreal) com frequência, algumas vezes para mostrar dois personagens ao mesmo tempo e em outras sem motivo. Esse estilo de imagem incomoda e torna mais difícil a suspensão de descrença.

Pior que as escorregadas nos efeitos visuais é o roteiro. Os diálogos são ridículos, tanto dos assustados quanto dos zombadores do susto. É tudo extremamente artificial e irreal. Destaque para os intermináveis e irrelevantes monólogos de Balthazar, que falava, falava e não dizia nada.

Os personagens são tenebrosos, devido ao roteiro ruim que os torna extremamente burros. Desde o homem com problema cardíaco que “morre de susto” até a mulher que se lança no arame farpado sem absolutamente nenhum motivo. Nesta cena ainda ocorre o absurdo de a outra personagem esperá-la atravessar (inexplicavelmente) a sala de arames inteira antes de resolver ir ajudá-la.

Dentre as reações irreais está o jeito de agir quanto à mudança de noção da situação. Depois de ver um perigo de verdade nos desafios, o mais coerente seria que os personagens parassem de avançar para entender o que era aquilo. Depois da morte do gamer, não fazia sentido “querer voltar”, pois obviamente todos seriam mortos antes de sair. O que os famosos do mundo do horror deveriam fazer era descobrir qual era o objetivo de Balthazar, e, naturalmente, tentar concluir os enigmas para vencer o jogo e sobreviver.

Outro problema dos personagens é que eles todos não importam e é muito difícil criar empatia por qualquer um, desde o começo. Circus Kane os apresenta rápido demais mostrando uma característica marcante, a qual eu esqueço duas cenas depois.

Um problema estrutural de Circus Kane é a indecisão entre ser um slasher (estilo de filme no qual um assassino persegue os personagens) ou um escape room (estilo de filme no qual um grupo de pessoas precisa resolver enigmas ou passar por desafios para sobreviver). Até certo ponto, parece que Balthazar deseja uma competição, mas a morte do gamer, por exemplo, não foi uma execução das regras do jogo. O ponto é que não há uma ideia bem definida do que o vilão quer.

Até este ponto, Circus Kane é um filme muito ruim, mas o plot twist ao final muda tudo. Escrevi este texto sem ler nenhuma resenha do filme ou entrevista de alguém da produção, então a minha interpretação é apenas uma impressão pessoal.

O twist era extremamente previsível (principalmente para alguém com experiência em filmes de terror), mas foi estruturalmente bem preparado. Os flashbacks do passado do Balthazar e o interrogatório servem a este propósito perfeitamente, se justificando ao final (o Balthazar do passado estava ensinando a Tracy). Filmes como Carrie, a Estranha e WTF! usaram o recurso do interrogatório de modo pouco ou até nada agregador ao filme (no caso de WTF! o problema é a revelação se sustentar sozinha contando apenas com a narrativa do passado, ao contrário de Circus Kane, cujo twist se aplica tanto ao passado quanto ao presente).

A revelação de que Balthazar queria ensinar a Tracy a fazer o show explica algumas coisas. Os celulares funcionavam para que os “porquinhos gananciosos” não desconfiassem e pudessem chamar por ajuda, pois devia estar no plano do decrépito Balthazar morrer ao fim da apresentação. O gás do sono foi utilizado para que eles não soubessem o quão distante estavam da civilização, assim mantendo-os na ilusão de que estava tudo bem. E por último, mas não menos importante, a mistura de slasher com escape room tinha o propósito de mostrar à Tracy todas as nuances que poderiam cercar uma apresentação, bem como seus possíveis desdobramentos (com regras e intervenções arbitrárias).

Esses pequenos detalhes bons explicitam que houve esmero na produção do filme, o que reforça a perspectiva de que ele é ruim de propósito. Concluo meu entendimento de Circus Kane assumindo que o filme é uma forma de seus produtores dizerem: “para fazer um filme de terror eficiente, você não precisa de bom roteiro, atores, efeitos especiais ou enredo, apenas de um bom plot twist”. E eu vejo que eles têm razão, pois gostei do filme.

Circus Kane é um filme que aborda de forma metalinguística o ato de contar uma história. Recomendo para quem desenvolve enredos. Fora a metalinguagem, apenas um filme ruim.


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