Crítica | O Túnel (2016): figuras públicas, a imprensa e a espetacularização da tragédia

O Túnel é um filme de suspense sul-coreano de duas horas de duração. Lançado em agosto de 2016, foi dirigido por  Kim Seong-hun e contou com a participação de  Ha Jung-Woo, Doona Bae e Dal-Su Oh. O longa possui, além de uma boa narrativa, críticas à imprensa e ao poder público

Um homem sai de seu trabalho para casa para comemorar um aniversário especial. Quando ele passa por um túnel acontece um desabamento catastrófico. A equipe de resgate lutará contra o relógio e a natureza para resgatá-lo, custe o que custar.

O Túnel é como um documentário sobre o desabamento do túnel ao mesmo tempo em que é uma história de sobrevivência. Vários filmes já incorporaram atmosferas dualistas deste modo, mas sem conseguir casá-las tão bem quanto O Túnel. Tanto o lado interno quanto o lado externo apresentam bons desenvolvimentos.

O Jung-soo lida bem com as dificuldades físicas, a questão da água e da comida, mas, quando surge a Mi Na, sua capacidade de sobreviver é reduzida, devido à existência de “novas bocas” para alimentar. Mesmo assim, ele faz de tudo para ajudar a Mi Na e mantém o cão vivo. Isto porque, naquela situação terrível, qualquer ser animado poderia ajudá-lo a não enlouquecer e aliviar, mesmo que pouco, sua angústia. Destaque para o jeito que ele para de se importar com a água quando percebe que a Mi Na pode estar morta.

É no lado externo que O Túnel brilha intensamente. A queda do túnel não foi acaso, foi o resultado do trabalho mal feito das autoridades (tanto na construção quanto na fiscalização). A demora no resgate também se deveu à primeira tentativa mal planejada, até porquê, um dos maiores obstáculos para a operação foi a neve que veio depois.

Além da incompetência governamental, O Túnel nos brinda com o lado repulsivo da imprensa. A imprensa que pensa no “furo” acima de tudo, inclusive acima do bem estar de um ser humano. A mesma imprensa que, seja por interesse comercial ou por bondade, veiculou mensagens importantes para o Jung-soo. Toda moeda tem dois lados. Fato é que a mídia transformou o Jung-soo em algo mais, uma espécie de “princesa no alto da torre” que precisava ser resgatada. Claro que o tempo mudaria as coisas.

Em um excelente exemplo do fenômeno da aceitação, O Túnel mostra como, pouco a pouco, o público vai se enfadando da “personagem em perigo” e passa a se importar menos. O Jung-soo então deixa de ser uma celebridade e vira “apenas um homem” que está atrapalhando uma obra. A vigilância do Jung-soo em ajudar a Mi Na protegeu a sua humanidade e o diluir da comoção retirou a humanidade daqueles que, no mundo exterior, desprezaram as buscas.

É evidente que seria improvável encontrá-lo vivo, mas é notável a falta de respeito para com uma vida que pode ser salva e é tratada como um estorvo, uma mera atividade protocolar. Culpar o Jung-soo pelo incidente que matou o operário é outro destes absurdos. Está tudo bem escolher salvar 50 pessoas em vez de uma, o problema está em desqualificar aquela uma como ser humano merecedor de todos os esforços possíveis para ser resgatado.

A mulher do Jung-soo, mesmo acreditando na sobrevivência dele, permitiu que as buscas cessassem. Fazer isso foi como deixar que a pressão externa a forçasse a abandonar uma vida — preciosa, diga-se de passagem. Não digo isto querendo condená-la, mas cabe a reflexão: até que ponto permitimos que absurdos aconteçam apenas para nos livrarmos dos desconfortáveis olhares de reprovação?

A sobrevivência do Jung-soo ocorreu porque tanto ele quanto o chefe da equipe de resgate não desistiram, reforçando a ideia que o restante de O Túnel passa sobre a perseverança e sobre a invariavelmente má intenção das pessoas ao redor (como os repórteres, a ministra e quem mais quis tirar foto).

Ao final de O Túnel há uma cena do Jung-soo com a mulher entrando em um túnel e, enquanto ela passava, eu mentalizei “Não estraga tudo. Não estraga tudo”, pois pareceu um gancho para terminar o filme com mais um desabamento, e isso meio que banalizaria a ideia. Já perdi a conta de quantos filmes tiveram finais que derrubaram a qualidade do restante da história.

O Túnel é uma história sobre humanidade, perseverança e imprudência. A imprudência que encheu o tanque do carro do Jung-soo e a imprudência do Jung-soo ao comer, dirigir e falar ao telefone ao mesmo tempo são ótimos exemplos iniciais. Com boa mensagem, ótima história e ótimo suspense, O Túnel é um filme excelente, provavelmente no meu top 5 geral.


Deixe suas dúvidas, críticas ou sugestões nos comentários. Siga o Blog do Kira por e-mail e não perca os próximos posts. Acesse o Podcast do Kira, um canal com versões em áudio de alguns textos daqui e conteúdos inéditos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s