Editorial | Responsabilidade, sensacionalismo e a imprensa

Eu criei o Blog do Kira para ser um portal de críticas e artigos, focando apenas em entretenimento. Fiz esta escolha para evitar entrar em assuntos que ou não são de minha competência ou não seriam interessantes, pensando em manter o público engajado no carro-chefe do site. Apesar desta minha certeza, vejo com (alarmante) frequência jornalistas agindo de forma dúbia e pessoas criticando jornalistas ou por motivos torpes ou, muitas vezes, sem motivo, acrescentando ainda generalização com o termo “imprensa”. Me ocorre que tenho o dever de me pronunciar sobre o assunto, não como analista de obras de ficção, mas como jornalista.

A certo modo, este texto serve como complemento ao Parcialidade e imparcialidade e ao A função da críticaPense nos editoriais como peças de um quebra-cabeça.

A motivação jornalística

Muitas pessoas iniciam carreira no jornalismo mais por terem uma ideia glamourizada da profissão ou por preconceitos (tais como acreditar que se você gosta de escrever, automaticamente tem tudo para ser jornalista) do que por realmente quererem ser aquilo. Mas existem outros. Os outros são variados, mas um grupo merece destaque: os jornalistas revolucionários.

Tal “espécie” de jornalista sonha em mudar o mundo e acredita que o fará através desta profissão. Seja o sujeito idealista, o glamourizador ou o perdido, todos, inevitavelmente, esbarrarão na muralha das condições financeiras. Eventualmente, o jovem jornalista terá de sair de uma encruzilhada: fazer o que ele quer ou ganhar dinheiro. Talvez a escolha seja mais fácil e ele possa fazer o que quer e ganhar dinheiro. Talvez ele tenha como única opção ser mal pago para fazer algo chato. O fato é que ideais não costumam saciar a fome.

O invencível poder do mercado

O jovem jornalista, cedo ou tarde, acaba compreendendo que a meritocracia é uma falácia. Independente do quanto você se esforçar, só obterá êxito se preencher um dos seguintes requisitos: o público quer consumir seu conteúdo; o público é obrigado a consumir seu conteúdo.

Para o primeiro caso ocorrer, é necessário ofertar ao público aquilo que ele deseja ou incutir nele uma necessidade. A segunda alternativa é mais fácil para quem está consolidado no mercado, o que obriga os novos players a se remodelarem de acordo com os anseios do público. O problema é que esses anseios nem sempre são positivos ou éticos.

As pessoas, num geral, tem prazer em sentir que são especiais, que estão melhores que outras pessoas, o que torna o noticiário policial atraente. Tragédias vendem por este motivo e porque as pessoas gostam de se preocupar com os outros, de sentir pena, pois isto as humaniza. É como um orgulho pela modéstia. Por isto ou por aquilo, tragédias vendem. E se vendem, é mais rentável fazer durar. Mas e se a notícia já passou? Não faz mal, requenta e estica enquanto vender.

E estes foram os ingredientes para criar o telejornal perfeito, no qual você gasta menos para produzir conteúdo e fatura muito mais do que um jornal de variedades. A lógica do lucro guiada por este espírito carniceiro naturalmente nos leva a situações em que paramos e nos perguntamos “Como chegou a esse ponto?”. Situações como, por exemplo, uma mãe receber ao vivo a notícia da morte da filha.

Mas ninguém nunca iria fazer tal absurdo, não é mesmo, leitor? Não é óbvio que isto seria errado? Talvez não seja óbvio. Malhar o telejornal que transmitiu o referido acontecimento é automático, mas gostaria de lhes relembrar o caso do goleiro Sidão, que havia tido um desempenho ruim em uma partida e, pela gozação, fora escolhido na internet como o melhor jogador em campo. Entregar o troféu a ele sabendo que isso seria uma humilhação em rede nacional? Não, claro que ninguém nunca faria tal absurdo.

Imaginemos um mundo alternativo no qual estes absurdos óbvios  acontecem. Se o absurdo viraliza, o absurdo propaga a imagem de quem o ocasionou. Se a propaganda o levar a angariar público, então o absurdo é recompensado financeiramente. Num mundo hipotético deste tipo, teríamos veículos de comunicação suposta ou aparentemente jornalísticos focando em absurdos, até não noticiosos, e lucrando com isso. Imagine que mundo terrível seria este.

Um mundo em que o entretenimento se sobrepõe à notícia e a distorce. Um mundo em que jornalistas se tornam personagens e abandonam a função de mediador dos fatos. Um mundo em que jornalistas estão correndo risco de extinção.

O papel do jornalista

Jornalismo é, essencialmente, selecionar, agrupar e editar informações. Neste sentido, aquele que o pratica adquire a função de mediador. Ele age como um especialista em informação e permite que o infindável universo de fatos seja subcategorizado e compreensível para o público não-especialista. Uma responsabilidade incomensurável.

O jornalista domina a palavra, que é uma arma extremamente poderosa. Um exímio escritor não precisa mentir para fazer uma notícia positiva se tornar negativa. É como um árbitro de futebol: basta inverter um lateral aqui, marcar várias faltas para justificar um amarelo ali e se posicionar mal de propósito acolá. O árbitro define o resultado do jogo e ninguém percebe.

Um profissional ganancioso, ou simplesmente desmiolado, pode utilizar o sensacionalismo e as notícias violentas para lucrar e ganhar público, uma clara fuga da sua responsabilidade enquanto jornalista, ainda que compreensível do ponto de vista financeiro. Todavia, outro profissional, astuto, pode relegar seu dever ético a fim de atingir metas puramente egoístas e, sobretudo, ideológicas.

Podemos condenar juridicamente aquele sujeito que troca a palavra “enviar” pela palavra “mandar” no intuito de anexar autoritarismo ao ator principal da notícia? E quanto às fotos enquadradas de modo a distorcer a quantidade de manifestantes em uma determinada ocasião?

Feliz ou infelizmente, mau caratismo não é crime, então não podemos condenar juridicamente.

O que pode ser feito

Por outro lado, é dever de todos, principalmente dos jornalistas, escancarar e refutar o jornalismo militante que subverte a sua função social de propagar a verdade com isenção e seriedade. Ninguém é imparcial, mas estes militantes escolhem ser parciais por motivos obscuros, não mero acaso, e isto não deve ser tolerado.

A vitória contra tais sujeitos inescrupulosos está em provar seus desvios de conduta propositais para a população. A fraqueza da militância é o jornalismo, pois a verdade sempre vence.

O que não pode ser feito

Diante da presente exposição, é fundamental ter em mente que, apesar de existirem setores da imprensa mentirosos e mal intencionados, há também os sérios, que praticam jornalismo e querem chegar à verdade, ainda que isso os leve para campos ideologicamente divergentes da natureza de seu pensamento. Um bom jornalista ataca e defende ideias, não pessoas. Até mesmo dos homens mais estúpidos é possível extrair informações corretas e relevantes.

Outro ponto a se ressaltar é que, se o profissional imitar o militante na tentativa de vencê-lo em uma batalha de influência, terá se tornado o mesmo que ele. Talvez apenas com o sinal invertido.

O futuro da profissão

Vivemos um período delicado para o jornalismo — período este que pode nunca terminar —, e isto não se deve às críticas que político A ou B faz à imprensa. Tampouco o responsável é o crescente descrédito das mídias tradicionais. A própria relevância da facilidade atual para recolher informações é quase insignificante. O grande vilão é a deformação da mentalidade jornalística.

A polarização radical tem trazido ao jornalismo o mesmo efeito Espiral do Silêncio que menciono no A função da críticapressionando os profissionais a assimilarem o comportamento militante de seus pares ideológicos, sob pena de serem linchados virtualmente e expulsos do “bando”.

A debandada dos profissionais para a militância é reforçada pelo suporte financeiro que grupos ideológicos fiéis podem trazer, inclusive dando feedbacks positivos para bobagens rasas e mal estruturadas, mas que incluem elogios ao pensamento do bando e dizem o que eles querem ouvir.

Se você está em uma situação na qual defender a verdade o fará ser ridicularizado por um grupo de pessoas e pensa em ceder, não desista. Enquanto você persistir, eu garanto, o jornalismo viverá.


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