Crítica | Superman — Entre a Foice e o Martelo (2020): e se o Superman fosse soviético?

Bondade, utopia e autoritarismo

Superman — Entre a Foice e o Martelo é uma animação lançada em 2020 pela Warner Bros. O filme adapta a HQ homônima escrita por Mark Miller e lançada em 2003, basicamente respondendo a pergunta “E se o Superman fosse soviético?”.

Entre a Foice e o Martelo é como uma fanfic do universo DC adequado a um mundo politicamente bipolarizado. Neste mundo temos Superman, Batman, Mulher Maravilha, e outros personagens dos quadrinhos, com algumas diferenças de suas versões originais, mas, ao menos, parecidos. Comparar com Injustice é inevitável, mas, a maior diferença entre ambos é que Injustice mostra um Superman que decide segundo a sua própria consciência se tornar um ditador, enquanto em Entre a Foice e o Martelo a escolha pela governança é mais fruto da adequação mental pela vivência na União Soviética.

Este filme desenvolve bem o Superman. Desde a infância, na qual escolhia fugir para não ferir seus perseguidores, até o momento em que ele se torna uma versão soft de Stalin. E o “soft” deve ser frisado. Independente do quão ditador Superman se tornou, não chegou a cometer as mesmas atrocidades que Stalin. A maior prova da manutenção de sua natureza boa foi fazer lavagem cerebral para garantir o funcionamento do regime comunista. Ou talvez a natureza boa fosse algo que só existia em sua mente, ainda que qualquer motivo seja válido quando a outra possibilidade é matar aqueles que discordam.

Digo isto porque é interessante tentar avaliar o quão bom este Superman é. Em termos práticos, ele é bom. Conseguiu conquistar o mundo inteiro com derramamento de sangue mínimo, se limitando a doutrinar seus inimigos para que se tornassem aliados, diminuindo a necessidade de execução. Até mesmo um terrorista da mais alta periculosidade como o Batman não sofreria a pena capital. Eis um Super Homem rígido em seus princípios.

Por outro lado, mesmo que criasse um mundo de prosperidade, a escolha pelo autoritarismo, por ser um ditador, torna este Superman inerentemente mau. O desejo por ter o mundo inteiro numa garrafa é megalomaníaco. É mau. E ele o tinha. O próprio Superman reconheceu a malignidade de tal pensamento controlador ao final do filme, e esse foi o estalo para que ele compreendesse o mesmo que Lex Luthor: a concentração do poder nas mãos de um homem fomenta nele delírios de grandeza potencialmente destrutivos para o ideal proclamado anteriormente.

Embora Luthor não tenha quisto permanecer no poder, isto não o torna bom. Na verdade, ninguém é bom em Entre a Foice e o Martelo. Luthor causou a morte de inocentes apenas para fazer testes e vencer uma partida de xadrez. Batman era só um aspirante a ditador esperando por uma oportunidade de impor o seu modo de pensar sobre a nação. Todos têm conduta duvidosa e seus preconceitos, sejam mais ou menos aparentes.

O desenvolvimento do enredo empolga e o desfecho é bonito, inspirador e coerente. Luthor vence a partida de xadrez, mas o Superman se mantém vigilante, creio eu que atento a qualquer movimento totalitário injusto que venha a florescer. Talvez o mundo se torne mais violento e pessoas inocentes sofram, mas, este é o preço a se pagar pela liberdade. O preço que braços da União Soviética estavam dispostos a pagar, muito em função do sucesso dos Estados Unidos de Lex Luthor. O desejo interno é sempre mais vigoroso que a obrigação externa.

A animação é fraca em alguns momentos de diálogo, mas as cenas de ação são boas, o que compensa. Entre a Foice e o Martelo é competente a nível narrativo (o quanto a obra entretém) e a nível temático (o quanto a obra gera de discussão), o que o torna muito bom. Não chega à excelência da HQ, mas não faz feio diante das outras grandes produções animadas da Warner.


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