Crítica | Arlequina — Aves de Rapina (2020): Margot Robbie compensa o Esquadrão

Uma boa história muito bem contada

Ficha técnica no IMDb

Só o título de Aves de Rapina já rende um comentário. Um dos maiores pontos de enfraquecimento da “emancipação” é a falta de noção do que havia antes. Esquadrão Suicida apresentou um Coringa legal e amável, o que diminui o peso da decisão da Arlequina de superá-lo. Pensei que diminuiria mais, no entanto, Aves de Rapina construiu muito bem o lado humano da Arlequina.

Arlequina sempre esteve na sombra do Coringa. Independente de ser verdade ou não que as ideias vinham mais dela do que dele, fica claro que a falta de identidade própria a atormentava. Ela era reconhecida no mundo do crime por ser a mulher do Coringa, não por ser a Arlequina, e é esta a chave para entender o que a emancipação significa.

Ao fim do filme, Arlequina decidiu abandonar pessoas que se mostravam confiáveis. Se ela quisesse ter uma família, aquele parecia o caminho mais seguro e mais viável, mas ela não o escolheu. Em vez disto, Arlequina decidiu seguir a carreira criminosa que surgia no horizonte, para ser reconhecida. Não como a mulher do Coringa, mas como a Arlequina. É plausível também que ela queira evitar confiar nas pessoas, afinal, a última pessoa digna de sua confiança, seu porto-seguro, a vendeu.

E a traição é uma temática de Aves de Rapina, bem como a impossibilidade de confiar em criminosos. A Canário Negro traiu aquele que a acolheu, o braço direito do Máscara Negra mentia para ele e o pilhava para fazer certas coisas e a própria Arlequina traiu a Cassandra, ao negociá-la com o Máscara Negra.

É preciso destacar a qualidade da construção do filme. Aves de Rapina é narrado pela Arlequina e é ela quem controla o fluxo da história, com a inserção de flashbacks e alteração cronológica dos recortes mostrados. Esse estilo de condução torna o filme dinâmico e empolgante, lentamente movendo os personagens aqui e ali, colocando-os em rota de colisão e, de maneira coesa, unindo-os na cena de ação mais importante de Aves de Rapina.

A ação em Aves de Rapina tem pontos positivos e negativos. O negativo é que é extremamente irreal, com os tradicionais inimigos armados, burros e impactos de golpes ilógicos, bem ao estilo Power Rangers (isto pode se justificar por ser uma história contada pela Arlequina e ela estar exagerando, mas este aspecto tira a imersão do filme). O positivo é que a coreografia é bonita e não há exagero nos cortes (como existe em muitos filmes de super-herói), o que deixa Aves de Rapina gostoso de assistir. Como o intuito do filme é não se levar a sério, o saldo é positivo.

Embora Aves de Rapina tenha sua parcela de humor, não é como se fosse um filme de comédia. As piadas pontuais são engraçadas, sem subverter a expectativa de grandes momentos (como é o caso de Guardiões da Galáxia) e vale destacar a piada com a alcunha da Caçadora, que é algo lógico, já que os outros meio que não tem como saber como ela se chama e os métodos dela são bem diferenciados. Isso me faz pensar na estranha mania dos desenhos japoneses de dizer o nome do golpe toda vez em que o usa.

Aves de Rapina é um filme sobre criminosos. É discutível classificar o Máscara Negra como vilão, pois quem o deteve não estava ao lado da lei. Um dos méritos do filme é justamente não aderir ao maniqueísmo, que poderia realizar meu maior medo: transformar a Arlequina em uma heroína.

E é pela Arlequina não se tornar heroína que eu gostei do final de Aves de Rapina. A Caçadora, a Montoya e a Canário Negro não eram pessoas más, apenas cometiam crimes por motivos compreensíveis (lealdade e justiça), diferentemente da Arlequina, que de fato é uma criminosa comum e assim quis continuar.

Há algumas coisas de Esquadrão Suicida que funcionam melhor em Aves de Rapina. Os “desenhos” em cena fazem mais sentido em um filme cuja narrativa é explicitamente em primeira pessoa, ainda mais sendo esta pessoa a Arlequina. No referido filme existe uma cena que dá a entender que a Arlequina não é louca, apenas se faz, e, em Aves de Rapina, essa sugestão se repete. O fortalecimento do lado humano dela cria uma base mais sólida para essa compreensão de que, talvez, ser assim seja totalmente uma escolha dela.

Creio que a maior decepção com Aves de Rapina seja a falta de violência. A ação fantasiosa até poderia ser relevada, caso apostassem mais em violência gráfica. A cena dos tiros de purpurina, por exemplo, teria sido visceral, caso usassem algo mais realista. A batalha final ficou devendo nesse sentido e fez tudo parecer menos forte do que deveria.

Aves de Rapina é um bom filme. Talvez seu maior mérito seja contar uma boa história, sem tentar ser grandioso demais ou se esforçar de menos, o que prova, mais uma vez, que a Warner sabe fazer filmes de qualidade. Agora é esperar pelo desenvolvimento do mais importante, Superman, Batman e a espinha dorsal do universo compartilhado DC (que pode ser moldada pelo Flashpoint).


 

Deixe suas dúvidas, críticas ou sugestões nos comentários.

2 comentários

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s