Crítica | Midsommar — O Mal Não Espera a Noite (2019): um amontoado de irrelevâncias

Uma viagem hippie psicodélica

Ficha técnica no IMDb

Com mais de duas horas de duração, Midsommar traz uma angustiante sensação de não saber o que dizer.

Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani vai com o namorado Christian e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo se depara com rituais bizarros de uma adoração pagã.

Desde que o mundo é mundo subtítulos em português costumam ter qualidade questionável. Além de desnecessário, “O Mal Não Espera a Noite” é até um tanto engraçado, já que o cenário do filme tem noites curtas. Vale o comentário quanto ao subtítulo por conta da falta de significado que há ao longo de Midsommar, que mais parece uma colcha de retalhos sem a conexão e aprofundamento que se espera de um filme.

Não que Midsommar seja ruim como um todo. A fotografia do filme é belíssima. A ambientação é clara e aconchegante em um lugar que parece tornar literal o paraíso, em sua vastidão, beleza e simplicidade. Há várias cenas que utilizam recursos interessantes, como focar em um personagem e mostrar o outro por meio de um reflexo, assim enquadrando ambos sem precisar que estejam no raio de alcance da lente. Outros momentos incluem planos simétricos ideais para os perfeccionistas. O problema é que são apenas detalhes legais que não ajudam a contar a história.

Midsommar se sai bem enquanto documentário antropológico, mas suas intermináveis duas horas de duração não rendem duas linhas de descrição. O filme é praticamente nulo no que diz respeito a enredo e tudo o que vemos em tela é a rotina daquele povo junto com os hóspedes temporários. É previsível que algo irá acontecer, mas esse algo demora muito e não é chocante de modo satisfatório.

A trilha sonora de Midsommar em vários momentos usa sons provocados pelos personagens (inclusive gritos) em sua composição, o que resulta em cenas extremamente irritantes e, muitas vezes, longas demais. Tudo o que a fotografia tem de bom, a trilha sonora tem de ruim, mas ambas convergem em um aspecto: agregam pouco ou até mesmo nada ao enredo.

Há quem diga que Midsommar é um filme forte, mas não é tanto assim. Existem poucas cenas explícitas e não é como ver um personagem querido sofrer. Esses poucos elementos gore e uma determinada sequência de nudez frontal são, assim como a trilha sonora e a fotografia, detalhes razoavelmente interessantes que não conversam com a “pintura” inteira.

Chega a ser difícil encontrar o que comentar, mas alguns detalhes merecem considerações:

A escolha do Christian por fazer a tese sobre o lugar poderia ser muito impactante em uma história sobre a amizade universitária;

O Christian ficar com a ruiva faz sentido, já que a única coisa construída pelo filme é que ele e a protagonista são um casal problemático;

O Josh foi inacreditavelmente panaca ao tirar foto do livro sagrado escondido. Onde foi parar a ética do pesquisador? Burrice número um;

O Mark urinar na árvore sagrada e reagir como se aquilo não fosse nada de mais foi o cúmulo. Deu a entender que ele urina à vontade no quintal dos lugares em que ele vai. Burrice número dois;

O sorriso da Dani e a sua escolha por matar o namorado poderiam ter tido grande qualidade, caso Midsommar construísse algum arco narrativo para ela além do trauma da perda familiar e o problema de relacionamento. Ocorre que nenhum destes aspectos contribui para parecer lógico o jeito que ela fica “feliz” ao final (há um esboço de tentativa de construir o lugar como uma família para ela, mas não chega a ser desenvolvido devidamente).

Midsommar é um amontoado de irrelevâncias, algumas interessantes, outras clichês e ruins, mas, quando se olha para o filme como um todo, ele parece não querer dizer nada e a sensação que fica é de que perdi duas horas tentando encontrar o macro-enredo de Midsommar.

Noite de Desamor também é um filme em que nada acontece, mas a sua proposta é justamente ser uma noite de conversa (com desenvolvimento de personagem, devo acrescentar), ao contrário de Midsommar, que parece não ter proposta nem desenvolver de modo satisfatório nenhum dos elementos apresentados.


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