Crítica | The Hunt (2020): é eficiente sem se levar a sério

Ficha técnica no IMDb

Excepcionalmente, desta vez, vou resumir o filme e depois fazer as considerações (spoiler total).

Esquerdistas elitistas norte-americanos brincam com a possibilidade de caçar humanos por diversão. A conversa vaza e direitistas os malham na internet, considerando que aquilo é real. Para se vingar, os esquerdistas escolhem alguns dos críticos, os sequestram e levam para um local preparado na Europa para que sejam caçados. Os escolhidos foram, em especial, um anti-imigrante, um amante de armas e um anti-aquecimento global. A título de curiosidade, um dos esquerdistas se incomoda de ter que caçar um negro e outro critica o uso de um quimono que, segundo ele, seria apropriação cultural. Ao final do filme, a mentora da caça luta com a última sobrevivente e descobre que, em vez de capturar uma pessoa chamada Cristal, capturou a Crystal, que nada tinha a ver com as críticas.

Com esse resumo, fica claro que o The Hunt é um filme para não se elevar a sério. Existem muitos outros filmes assim, mas, o diferencial deste é que ele é bom e cria pontos fortes que compensam seus pontos fracos, impedindo o filme de parecer uma trasheira qualquer.

The Hunt é curto (mais ou menos 1h20min) e demora quase meia hora até apresentar o espectador à protagonista. Esse primeiro terço do filme é frenético e inesperado, quando pensamos que o personagem em tela é o principal da trama, ele morre. Isto rebate o problema onipresente em filmes de grupos de pessoas que vão morrendo aos poucos: nós sabemos quem é o protagonista desde o começo e dificilmente tememos sua morte, o que torna o filme previsível. The Hunt, com a sua imprevisibilidade inicial, não elimina por completo esta questão, dado que sua protagonista é uma supermulher, mas a primeira meia hora empolga tanto que engaja o espectador o suficiente para que ele não se importe com esse detalhe.

O segundo terço do filme é uma aventura. O mais interessante aqui é a cena em que a protagonista para na linha do trem e atende às suas necessidades fisiológicas. Obras de ficção, no geral, não incluem cenas que não sirvam para avançar o enredo, mas elas são essenciais para que a história pareça real, humana. Claro que também serviu como piada, mas o efeito desse momento em The Hunt é, guardadas as devidas proporções, análogo ao efeito da naturalidade dos diálogos em Pulp Fiction. Eu compro a ideia de que aquilo não é um fantoche de um roteirista, mas um ser humano como eu.

O último terço do filme possui duas sequências de ação principais. Na primeira, ocorre uma situação deveras interessante. A vilã do filme sugere que o companheiro da protagonista na verdade é um dos caçadores, através de um comunicador em viva-voz. O homem nega, mas não abaixa sua arma, como fora pedido pela protagonista, que o mata. Mais tarde, a vilã deixa no ar a possibilidade de ter mentido, o que faz muito sentido, afinal, caso o homem fosse um caçador, teria matado a protagonista imediatamente, em vez de negar e manter a arma em posição.

A segunda sequência é uma luta entre a protagonista e a vilã na casa da vilã. Apesar dos exageros de resistência, as cenas de luta são tão boas quanto as de um filme de ação médio. São usados objetos do cenário, ambas vão para fora da casa, retornam, inclusive com algumas piadas legais, que obviamente só fariam sentido se as duas fossem amigas brigando com honra, não inimigas lutando pela vida.

Neste embate, a vilã conta toda a história por trás daquela caça e descobre que capturou a pessoa errada, que é o que eu expliquei no resumo. É curioso como a caça só existe porque achavam que ela existia, como costuma acontecer com boatos em geral. Problemas de identificação por homônimos existem aos montes e ver isso no filme o torna mais crível, pois é algo que realmente poderia acontecer. Faz sentido, é uma boa piada e é inesperado.

Existem zilhões de filmes que exploram a ideia de uma elite que tortura pessoas, mas The Hunt acrescenta um fator político de qualidade. A elite tem ideologia e quer caçar expoentes da ideologia contrária. O filme dá aos personagens traços estereotípicos, sem tornar um lado bom e o outro ruim, e sem ser escrachado, fazendo tudo parecer natural.

Ótimo ritmo, ação de qualidade (melhor que Aves de Rapina), detalhes humanos em boas piadas e o visível desejo de tornar o filme bom. Evidente que The Hunt não é excelente, mas, em meio a tantos filmes sérios e ruins, ele se destaca.


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