Crítica | Swallow (2019): a opressão que te mata lentamente

Ficha técnica no IMDb

Após Swallow terminar, ainda que tenha qualidade, fica a sensação de que ele demorou demais.

Hunter, uma dona de casa recém-grávida, se vê cada vez mais obrigada a consumir objetos perigosos. Enquanto seu marido e sua família reforçam o controle sobre sua vida, ela deve enfrentar o segredo sombrio por trás de sua nova obsessão.

Swallow é tecnicamente competente. Demonstra bem a atração irresistível sentida pela protagonista e trabalha o entorno dela, com alguns belos planos. O suspense e a tensão crescente a cada cena de perda de controle são notavelmente bem feitos.

O filme progressivamente apresenta como o marido e a família dele não se importam com a protagonista, embora aparentemente ela seja importante. O marido se interessa mais pelo trabalho do que por conversar com ela. Em cenas como a da gravata, o que fica é a impressão de que a protagonista é apenas um mal necessário, não uma presença querida.

Num ambiente em que tudo a empurra para baixo e ela precisa se submeter aos outros para se sentir bem, a resposta emocional foi comer objetos estranhos, a fim de obter o controle. Não à toa ela sentia o desejo sempre que era posta de lado ou minimizada diante de outra coisa. Um mérito de Swallow neste ponto é, quando a mania da protagonista é descoberta, nos fazer saber que a quantidade de objetos comidos era superior ao que pensávamos, ou seja, a situação era ainda pior.

Em Swallow existem três tipos de pessoas. Pessoas muito babacas: a mãe da protagonista, que recusou-se a recebê-la em casa; o marido desinteressado e o amigo do marido, que pedia abraços sob pretexto de ser solitário. Pessoas meio babacas: a terapeuta que aceitou passar informações acerca da protagonista para o marido. E pessoas legais, como o enfermeiro que fora pago para vigiá-la, mas que, sentindo pena do tratamento dado à protagonista, ajudou-a a fugir. O mundo não é feito apenas de pessoas boas nem de pessoas ruins.

Além da submissão permitida pelo desejo de agradar, Swallow tem como parte de sua trama o estupro, uma submissão forçada, a qual é ventilada como o catalisador de todo o problema psicológico da protagonista. Por este motivo, quando ela decide ir enfrentar o pai, sem saber exatamente o que tiraria de tal confronto, está enfrentando seus demônios e atuando em prol de sua saúde mental.

Erwin se arrependeu do que fez e isso prova que as pessoas podem mudar. A protagonista também mudou, assumiu o controle e virou a mesa. Se a única coisa nela que interessava ao marido era o filho, o único jeito de romper por completo a ligação entre ambos era abortando. Aborto, inclusive, é uma rima interessante com o desejo por comer objetos dolorosos, não só pela ingestão, mas também pelo sangue, que apareceu em alguns momentos de Swallow.

Embora seja um bom filme, o mais interessante de Swallow é que, em tempos de mitada e lacração, ele explora a submissão da mulher, mostra o aborto como um método de emancipação (entre algumas aspas) e não demoniza o homem, criando personagens mais tridimensionais.

A mensagem de Swallow é que submeter-se aos outros é matar-se aos poucos.


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