Crítica | Centopeia Humana (2009): más decisões, má execução

Ficha técnica no IMDb

Não é um filme à altura da lenda urbana “Centopeia Humana”.

Duas jovens estão em viagem quando seu carro quebra numa floresta. Elas buscam ajuda e encontram a casa de um cirurgião aposentado, mas logo elas descobrem que ele pretende juntá-las num só corpo para criar uma centopeia humana.

Sempre que vejo um filme, procuro pontos positivos para comentar, mas este tem como acertos, em sua esmagadora maioria, meras obrigações lógicas de roteiro, como um personagem decidir algo que faz sentido, considerando o que ele já sabia sobre o ambiente.

Isto posto, senti que o Centopeia Humana era bonito, fotograficamente falando, mas caricato, em vez de assustador. Caricato é a definição ideal para o vilão, um médico nazista que varia entre cientista obstinado e sádico. Esta variação prejudica o personagem por não permitir que ele adquira uma personalidade específica. Seu jeito de “cara mau” o torna raso e a sua burrice é injustificável.

Burrice é o grande recheio do roteiro fraco deste filme. Centopeia Humana é extremamente previsível e raso. Seu início pouco aprofunda as protagonistas antes de coloca-las na absurda situação de estarem em uma rua no meio do nada com o pneu furado durante a noite. Apesar da boa cena em que um homem para ao lado do carro delas e faz “sugestões sexuais”, a circunstância perde peso com a falta de sinal do celular (um clichê absurdo) e a decisão de andar por aí para buscar ajuda. As protagonistas realizaram a proeza de sair da estrada e se perderem no meio da floresta. E lá havia uma mansão.

Chamei o vilão de médico nazista porque parece ser essa a intenção do roteiro de Centopeia Humana, ao colocar jovens mochileiras como cobaias de experimentos de um renomado médico alemão. Como de praxe, novamente, as protagonistas ingênuas aceitaram água batizada e o cárcere começou.

O período de confinamento contém algumas imprudências absurdas do médico, como fazer amarras possíveis de se desamarrar apenas com a boca. Uma curiosidade minha: se a amarra era tão amadora, porque nenhum personagem se livrou dela sem que o médico estivesse na sala? No geral, os personagens de Centopeia Humana são bem burros, mas os policiais se destacam.

Antes de comentar especificamente o que eles fizeram, um deles disse que uma testemunha contou que ouviu gritos de uma mulher norte-americana vindos da casa. O problema é que a casa fica no meio do nada, e se houvesse uma vizinha tão próxima, os personagens (provavelmente) esboçariam uma tentativa de ir para a outra casa pedir ajuda.

Tradicionalmente, policiais em histórias não-policiais são burros, mas estes se superam. Mesmo com o médico dando todos os sinais possíveis de ser um sádico com prisioneiros no porão, ambos não chamaram reforço nem fizeram esforço para imobilizar ele e garantir que ele não tentaria nada. É inexplicável como um deles foi burro ao ponto de tomar a água servida pelo suspeito e ainda continuar sua incursão, mesmo sentindo os efeitos do composto químico em sua capacidade de se mover. Nesse momento, inclusive, Centopeia Humana faz uma traquinagem bem serelepe. Como é muito difícil explicar como o médico incapaz de andar conseguiu tomar a arma do policial batizado e matá-lo, há um lapso temporal que esconde a ação. Para fechar a sequência com chave de ouro, o policial restante é alvejado pelo médico e acerta um tiro certeiro no meio da testa do vilão.

Bobo, artificial, mal desenvolvido e caricato. Todos estes adjetivos se encaixam em Centopeia Humana sem que eu precise mencionar a grande atração do filme: a centopeia humana. A ideia em si é assustadora, mas o filme parece se esforçar para que o espectador não se importe. Além de explorar pouco o sofrimento causado pelo procedimento cirúrgico, o roteiro tem a brilhante ideia de, após 40 minutos explorando a dupla de protagonistas, colocar um personagem novo, sem absolutamente nenhuma conexão com elas, como a “cabeça”, ou seja, o único na centopeia capaz de falar. O resultado é que eu não me importo com ele e passo a me importar menos com elas.

Sobre o japonês (que o médico nazista chama de kamikaze), cabe ressaltar o final estranhíssimo no qual, depois de atacar o médico e bater no vidro da janela para fugir, ele o chama de Deus e começa com um papo sobre punição, como se estivesse aceitando a morte. É ridículo colocar um personagem do nada na trama, inserir um background qualquer do mais absoluto nada e fazê-lo se suicidar, como se isso fosse significar algo para quem está vendo o filme.

O final desolador é interessante, mas Centopeia Humana é tão recheado de más decisões com péssima execução que qualquer acerto do filme é aniquilado. A meu ver, a pior escolha foi “silenciar” as protagonistas, o que sepulta a conexão emocional entre o filme e quem assiste.

Vi pelo YouTube que existem histórias de terror em áudio com boa duração, acima de 20 minutos. Se vocês quiserem (ou não) resenhas desse tipo de conteúdo, digam.


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