Crítica | Centopeia Humana 2 (2011): acerta na forma, erra no conteúdo

Ficha técnica no AdoroCinema

Centopeia Humana 2 tenta ser o que Centopeia Humana devia ser, mas não tentou. O problema é que ele insiste em se vincular ao anterior, em vez de funcionar sozinho.

Martin (Laurence R. Harvey) é um homem solitário com problemas mentais, que vive com a mãe. Ele trabalha no turno da noite como segurança em um complexo de estacionamento sombrio e sinistro. A fim de esquecer sua lamentosa existência, Martin começa a reproduzir as meticulosas habilidades cirúrgicas do Dr. Heiter (Dieter Laser).

Em toda análise que faço sobre obras de entretenimento, meu parâmetro principal de qualidade é o enredo, a história a ser contada. Para o meu desespero, Centopeia Humana 2 é oco, tendo como único traço de roteiro o background do Martin, vilão que, inclusive, não possui fala alguma.

Martin

É notável a escolha de Tom Six por construir um vilão com um passado de sofrimento, o que torna o personagem mais crível, no entanto, há um grande exagero. É como se o ambiente no qual Martin está inserido tivesse sido pensado a partir de um brainstorming das piores coisas que uma pessoa pode sofrer em seu lar (de um jeito pior do que em Halloween: O Início). Não que não seja possível aquilo ocorrer, mas sobrecarrega a suspensão de descrença, a qual se rompe com os “procedimentos”.

Martin não é um mau personagem. Muito pelo contrário, poderia ser um excelente vilão, mas não o vilão de Centopeia Humana. O passado de abusos físicos e psicológicos não incorre na obsessão pela centopeia humana. Parece haver uma lacuna entre o background de vilão do Martin e a idealização do plano de costurar pessoas.

Conveniências

Além dessa falha no raciocínio, Martin em momento nenhum é mostrado como conhecedor de medicina. Assim fica difícil engolir a audácia do projeto centopeia, e, portanto, “acreditar” na centopeia formada.

Também é difícil acreditar que toda aquela gente foi sequestrada e é mantida viva sem que nenhuma autoridade chegue ao Martin. Pensando nisso, é fácil sacar o plot twist de Centopeia Humana 2, que é a desculpa perfeita para todo e qualquer exagero do roteiro.

Metalinguagem

Centopeia Humana 2 se aproveita daquela acusação de que filmes podem influenciar pessoas desequilibradas a cometerem crimes para construir seu enredo, como se Tom Six confessasse que, sim, o filme dele influenciaria alguém a imitar os passos do médico nazista.

A metalinguagem é legal, mas o retorno da atriz do primeiro filme, além de forçado, não agrega nada dramaticamente, pois Tom Six a fez interpretar um personagem irrelevante cujo único propósito é ser torturado por um sádico.

Em A Hora do Pesadelo 7, a ideia funciona porque Heather Langenkamp protagonizou os melhores filmes da franquia e sua personagem, Nancy Thompson, tinha qualidade.

A aparência

Centopeia Humana 2 é em preto e branco, uma opção que sempre reforça a atmosfera de horror. Particularmente, não gosto, mas nem vale pontuar como sendo um problema.

A escolha mais evidente de Tom Six aqui é ser explícito, quase que compensando a aparência “soft” do filme anterior. Neste, há golpes com pé-de-cabra, incisões, pessoas nuas, estupro e uma curiosa cena de masturbação. Esse é o tipo de característica que eu espero em Centopeia Humana.

A virada

Ao final, previsivelmente, o espectador descobre que o filme inteiro foi apenas imaginado pelo Martin. Uma pessoa sofredora que fantasia com a realização de crimes é um embasamento interessante, mas, em Centopeia Humana, isso mais estraga do que melhora o filme, deixando aquele gostinho de que ainda não é o Centopeia Humana definitivo, digno da lenda urbana que o acompanha.

E se for real?

Se Martin realmente fez o que o filme retrata, provavelmente Centopeia Humana 2 tem o pior roteiro que eu já vi, repleto de conveniências, gore pelo gore, absolutamente inócuo e desprezível. Neste caso, seria um filme preguiçoso e caça-níquel, que não deve ser assistido por ninguém.

Centopeia Humana 2 é um filme de terror razoável, bem mais memorável que o primeiro filme, mas muito distante de ser bom.


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