Crítica | Jogue ou Morra (2019): só um twist legal

Ficha técnica no IMDb

E quando eu digo “só um twist legal”, estou falando sério. Enquanto os créditos subiam, a sensação era de que a virada do filme era legalzinha e mais nada nele se salvava.

Bem vindo a Paranoia, o “escape game” definitivo. Regra #1: Nada é real. Regra #2: Um dos competidores morrerá. Lucas e Chloe, dois jogadores fanáticos, decidem participar desse jogo exclusivo. Após resolverem a primeira charada, passam para a fase final em um sanatório abandonado, perdido em uma floresta assustadora. Lá, outros quatro participantes os aguardam. Logo, eles saberão que apenas um deles sairá vivo.

Jogue ou Morra tem um problema bem parecido com o problema de Circus Kaneele finge ser um Escape Room e depois se torna um slasher. No caso de Circus Kane, essa mecânica funciona por conta da ideia do filme, explicitada pelo seu plot twist e pela minha interpretação metalinguística. Por outro lado, Jogue ou Morra parece ser um filme mal planejado, pois o plot twist deixa tantas perguntas que faz o roteiro ser preguiçoso e incompleto, tanto em forma quanto em conteúdo.

O início do filme já causa estranhamento por parecer uma introdução já no meio da trama, bem depois de o jogo ter sido iniciado. A maior parte do conteúdo desta metade escape room trabalha mais com o que o espectador acha que é do que com informações claras acerca do que é que está acontecendo.

Escape room

O lado escape room de Jogue ou Morra é ruim, mas com uma justificativa posterior interessante. Os enigmas são todos resolvidos rápido demais para eu sentir que existe desafio e alguns tem a solução tão dependente de conhecimentos específicos (como tocar o final de uma música, no caso do pianista) que fica difícil acreditar na premissa de que é um jogo.

O roteiro beira o ridículo com as falas geniais da dupla protagonista quanto a haver algo errado com o jogo. Bem, eles deveriam já esperar por isso, dada a complexidade dos enigmas anteriores e o aviso de que não poderiam desistir depois de iniciar a fase do sanatório. Mas, bem, a proposta de filmes de terror não costuma ser ter bons diálogos.

Tomemos então o desafio em que a Chloe ficou presa na cama. Primeiro que ela decidiu confiar na tela rápido demais, sem sequer explorar mais a fundo o resto da sala. Pelo que deu para perceber, as peças do quebra-cabeça já estavam lá antes dela se amarrar, ou seja, burrice precipitada. Eu realmente não entendi a lógica de ela ver números na imagem e o Lucas não. Para ajudar mais ainda, é tudo muito rápido.

O desafio em que Chloe segura a porta enquanto Lucas decifra o código desenhado em um baralho é surreal. Em mais uma cena brilhante, Chloe pega o baralho, corre para digitar o código, tropeça e acaba derrubando as cartas, dependendo da memória de Lucas para que eles conseguissem passar de nível. Aliás, quem estava empurrando a porta? A porta estava sendo empurrada? Veremos mais sobre isso depois.

Slasher

Sem que os desafios emplacassem, Jogue ou Morra inicia sua parte slasher. Uma cena em específico une os dois desnecessariamente, que é quando um jogador tem de arrancar seus dentes. É desnecessário porque o desafio já estava fácil de entender sem uma pessoa encostar a ferramenta no pescoço do jogador.

Levando em conta que o começo do filme inseriu a informação de que a Chloe esteve em um hospital psiquiátrico, ter a Naomi também no hospital, sendo o mesmo em que o jogo se desenrola, é repetitivo. Daí saem coisas sem nexo, como a sugestão de que a Naomi está matando os jogadores por algum tipo de vingança e a patética cena em que os três se encontram. Os diálogos são bobos, as atitudes não fazem sentido e tudo telegrafa o plot twist.

Existem quadrilhões de filmes que usam o conceito do falso plot twist para enganar o público e surpreendê-lo, mas o falso twist foi tão previsível que eu comecei a projetar como o twist real poderia ser mentira também. Isto é evidente devido ao mesmíssimo argumento do hospital psiquiátrico que é usado em ambas as personagens e que, de modo ridiculamente preguiçoso, é usado no twist verdadeiro. Por este motivo, quando a revelação vem eu não ligo, só acho legal a ideia.

O problema chave de Jogue ou Morra existe exclusivamente em função do plot twist. Se Lucas era o assassino sem saber e havia organizado o jogo, embora faça sentido que ele tenha resolvido rapidamente os enigmas, fica a dúvida: como foi que ele projetou tudo, a festa, o hospital e os próprios enigmas físicos? Além disso, o quanto do que vimos no filme foi real? O Lucas lutando contra ele mesmo certamente não. A porta segurada no desafio do baralho provavelmente não (se ele era o assassino, não havia quem quisesse entrar).

Três cenas em específico exigem considerações. A Chloe chutando o Lucas foi real? Se foi, por quê? Nada no filme justifica eles estarem bem num momento, mal no outro e, no fim, ela agir como se o amasse, como se ele não tivesse tentado matá-la. E, por fim, o que foram os corpos na grama? Eram reais? Se eram, Lucas os arrastou para fora por qual motivo?

Em resumo, toda a dinâmica do filme é comprometida por essa perspectiva de que o Lucas era o assassino. Outro ponto ruim que destaco no final é o time skip que separa a traição da Chloe e todo mundo do lado de fora. É confuso, é estranho e fortalece as dúvidas.

Deixar perguntas no ar não torna um filme ruim, mas as questões erguidas por Jogue ou Morra fazem o roteiro ser uma salada de ideias esburacadas, mal formuladas e mal organizadas.

Uma particularidade de Jogue ou Morra é ser difícil de analisar. Filmes ruins existem aos montes e eu mesmo já resenhei vários, mas este é tão fraco e não-lapidado que sequer deveria ser chamado de filme. É um rascunho de uma história que talvez fosse legal, caso elaborada com mais esmero.


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