Crítica | Premonição (2000): 45 minutos de muita qualidade

Você pode até evitar a morte por um tempo, mas, no fim, ela sempre vence

Ficha técnica no IMDb

Quando um adolescente tem uma premonição de que o avião em que está vai explodir, ele e alguns colegas não viajam. Para surpresa de todos, o avião realmente explode. No entanto, os integrantes do grupo começam a morrer misteriosamente, um a um, até que os sobreviventes resolvem se unir para tentar entender o que está acontecendo, antes que eles mesmos se tornem as próximas vítimas.

Reassistir Premonição foi uma grata surpresa. Eu não tinha lembranças positivas do longa, mas ele possui muita qualidade nos primeiros 40, 45 minutos. Antes do acidente, tudo parece estranho, deixando uma sensação de que há algo de errado, como um mau presságio. O espectador se coloca no lugar do Alex automaticamente e reage junto com ele. É extremamente humano ver o que ele viu e não concluir nada, apenas deixar rolar. O suspense aqui é bem empregado.

Quando as coisas começam a dar errado e o avião dá sinais de que um acidente se aproxima, os medos que afloram nos passageiros do voo 180 também engolem o espectador, numa atmosfera de terror muito boa. Os detalhes da turbulência, das máscaras de oxigênio e, especialmente, da abertura que suga um banco, conseguem desenvolver a situação em uma perspectiva em primeira pessoa que sustenta a angústia de um modo que nenhum acidente espalhafatoso conseguiria igualar.

Depois que Alex e os demais deixam o voo, ocorre o primeiro problema de lógica do filme: a explosão. Ela acontece rápido demais, como se não houvesse toda aquela sequência de turbulência e despedaçamento prévio. Com o enterro, vem o segundo problema, algumas pessoas aparentemente rejeitarem o Alex por tê-las salvo, algo injustificável. Ao menos, o roteiro fez um dos personagens tratar o Alex como um vidente ou algo assim, reação mais natural.

O maior erro do roteiro é um “ponto de virada” do enredo, criado provavelmente para quebrar a previsibilidade da trama: a inversão dos lugares de Alex e Clear. O argumento de que a morte não vai atrás do Alex primeiro porque ele não trocou de lugar não se sustenta, afinal, o que determina a ordem das mortes é o acidente na premonição, não o acidente real, com interferências do visionário. Inclusive, se a lista levasse em conta as alterações do acidente, sequer iria atrás do sobreviventes.

Outro detalhe com jeito de mal planejado é a união dos quatro sobreviventes no carro, que parece existir apenas para a cena do trem poder acontecer. A Clear não apresentou um motivo de verdade para serem eles três a procurar pelo Alex.

As mortes possuem qualidade mista. Enquanto a da banheira é extremamente angustiante, a da professora me tirou completamente do filme quando ela se inclinou para perto do monitor que estava soltando fumaça. No geral, com alguma boa vontade, é possível passar pelas cenas de morte sem grandes incômodos.

O problema do minuto 40 do filme é o Willian Bludworth. Ele surge com uma desnecessária e caricata aura fantasmagórica que tem como único propósito explicar a trama. O pior de tudo é que essa cena patética pode ser excluída de Premonição sem fazer nenhuma diferença (além, é claro, de tornar o filme menos caricato). A ideia de um esquema da morte poderia ter sido sustentada organicamente pela mera sobreposição do “mapa de assentos” no trajeto da explosão.

Premonição é um filme legal de se assistir, mas possui um roteiro bem limitado e algumas decisões bem questionáveis do diretor James Wong.


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