Crítica | Liga da Justiça (2018): um filme Marvel melhor que a Marvel

Ficha técnica no IMDb

Liga da Justiça é como uma aventura completa. Ele é um filme bem redondo e mantém certa continuidade em relação ao que foi visto no filme anterior, como o abalado Bruce Wayne e a terra que flutua sobre o caixão. Sobre este último detalhe, é bom frisar que a Caixa Materna sobrecarregou o corpo de Kal-El, que não estava morto, mas hibernando. Por isto ele voltou mais forte.

O problema de Liga da Justiça é o contexto no qual está inserido dentro do Universo Estendido DC. Embora Mulher Maravilha tenha sido um filme mais leve, Liga da Justiça foi mais além, diferindo insanamente de Batman vs Superman. E se a principal característica do universo idealizado por Zack Snyder era o jeito sombrio e pessimista, dá para entender a razão pela qual tantos fãs receberam mal o filme.

Considerando a parte interna do longa, o humor é, de longe, a pior coisa. Existem muitas piadas engraçadas e inteligentes (como o sensacional discurso do Aquaman sentado no laço, essencial para construir a dinâmica da equipe), só que o roteiro passa do ponto várias vezes. Além das piadas com o Batman, o destaque negativo fica para a do “pé” do Ciborgue, no final do filme. Achei engraçado, mas foi forçação de barra.

Sobre os personagens:

Ciborgue: tirando a piada do “pé”, está no ponto, perfeito.

Aquaman: tirando a parte em que ele bebe e joga a garrafa na água, está perfeito.

Flash: tem algumas piadas forçadas, mas, no geral, funciona bem, especialmente partindo da ideia de que ele é inexperiente no vigilantismo.

Mulher Maravilha: perfeita. A personificação do ideal de super-herói, com uma excelente cena de entrada.

Superman: estranhei o uniforme mais brilhante, mas está impecável. É um Super Homem, não um Homem de Aço, e este é provavelmente o maior erro de Liga da Justiça.

Batman: não senti que era o Batman. Não é nem pelas piadas, mas, o Batman fragmentado, juntando os cacos, ainda que coerente, não corresponde à imagem que Batman vs Superman criou.

O desenvolvimento do grupo é muito bom. O roteiro leva os planos do Lobo da Estepe a dar motivo para que cada um dos componentes do time procure a união (exceto o Flash, o mais inexperiente). O acerto também está na produção de rusgas orgânicas e pequenos detalhes, em especial os que envolvem o Ciborgue.

Victor tem uma conexão maior com a Diana e a cena da floresta rende uma certa inversão de expectativa muito eficiente. Além disso, é nítido como o Ciborgue aparenta não se importar com os demais, apenas com as Caixas Maternas. Só que, ao final, o cumprimento com o Flash, ocorrido de modo quase casual, como se não fosse relevante, explicita que um tipo de laço familiar já existe. Antes, Ciborgue evoluiu do desinteresse para o sarcasmo. Não é o maior dos desenvolvimentos de personagem do universo, mas, é raro em um filme de herói e merece ser elogiado.

E a qualidade não está apenas nos heróis. Lobo da Estepe é um vilão palpável. Um batedor intergaláctico, cujo objetivo é conquistar planetas para Darkside. Sendo um guerreiro orgulhoso, no passado quis humilhar a terra, antes de destruí-la, e por isso perdeu.

A guerra do passado introduz a perspectiva de que o Lobo não é invencível e traz uma excelente justificativa para o seu novo modo de agir: em vez de se gabar e humilhar os inimigos, como a maioria dos vilões faz, ele vem, pega as caixas e vai embora, pois é este o seu objetivo. Como pegou duas das caixas em pouco tempo, e eram as que ele possivelmente sabia onde deviam estar, sua próxima ação foi caçar a caixa antes de ela “despertar”.

O mínimo que eu espero de um filme é que o vilão aja de forma lógica e coerente, de acordo com os seus objetivos. Não é algo que se possa exigir do gênero super-herói, no entanto.

O fato de o Lobo não ser invencível combina com a batalha de igual para igual que trava com a Mulher Maravilha e, consequentemente, com a surra que leva do Superman.

Preciso mencionar também o bom uso dos poderes do Flash. Sua caracterização é útil para o mover da trama, é especial e inclui interessantes consequências para “desvios de rota”. Se você é super rápido e tropeça, tem uma super queda.

Retirando as piadas em excesso, vejo em Liga da Justiça um filme que se esforça para funcionar, para fazer sentido, muito diferente de O Homem de Aço.

A Warner

O maior erro de Liga da Justiça é a falta de continuidade com o Snyderverse. O Superman cheio de esperança é lindo, mas não possui nenhuma ligação com o problemático Kal-El de Batman vs Superman (mesmo que possamos associar sua raiva do Batman à humilhação que sentiu ao confrontá-lo como homem e perder).

De um filme para o outro, magicamente, Kal-El deixou de ser sombrio e virou um símbolo de esperança. Detalhe que o maior erro de Batman vs Superman é matar um Superman que não era um símbolo e o filme posterior esquece disso, esquece do status quo do mundo. Um mundo dividido, não um mundo que perderia a fé após a morte do Superman.

Gosto muito de ambos os Superman e acredito que a trilogia Superman (O Homem de Aço, Batman vs Superman e Liga da Justiça) iria transformar um no outro originalmente, mas não foi o que aconteceu. Esse tipo de mudança de personalidade é uma falha gravíssima em um universo compartilhado. A falha que coroa a irresponsabilidade da Warner, uma produtora que troca de motorista com o carro em movimento.

E obviamente não estou falando sobre o Joss Whedon no lugar do Zack Snyder. Estou falando sobre abandonar a visão sombria e adotar o clima Marvel sem trocar o Superman e o Batman, feitos para o mundo sombrio. Isto criou um universo cinematográfico mutante.

Outro erro da Warner foi querer fazer diferente da Marvel. Vingadores foi o que foi principalmente por ser a união de heróis que o público conhecia de outros filmes, heróis que já tinham seu lugar no cinema. Não acho que Liga da Justiça introduziu mal seus personagens, mas, se reunisse heróis que já tivessem seus filmes solo, teria feito muito mais que 1 bilhão de dólares.

Não satisfeitos com as lambanças feitas até o Liga da Justiça, a Warner ainda tratou de lançar os desnecessários (e competentes) Coringa e Aves de Rapina antes de termos um filme solo do Batman, condenando-nos a não ver um filme focado no melhor Batman dos cinemas, o BatAffleck (Christian Bale é um bom herói realista, mas não é o Batman).

Longe de mim esperar pelo pior de Robert Pattinson, mas o Ben Affleck merecia mais, assim como o Henry Cavil. E se o Flash Point justificar a mudança de ator, será apenas a Warner insistindo no erro que cometeu em Mulher Maravilha, o filme de origem que vem depois de o personagem já ter sido apresentado (desnecessariamente, devo acrescentar).

Também não parto do pressuposto de que o Snyder Cut seria incrível, pois ele cheira a Batman vs Superman, no sentido de ter elementos demais. Snyder merece todo o crédito do mundo pela ideia, mas nada pela execução, pois O Homem de Aço é falho enquanto obra completa e Batman vs Superman é uma bagunça.

A avaliação negativa dada a Liga da Justiça é injusta. Parte dela parece advir muito mais de uma birra do que da qualidade do filme. Em síntese, me parece que as reclamações são quanto ao que Liga da Justiça não é, em vez de ser sobre o que ele é. E o que ele é? Um filme de super-herói para a família assistir. Ele faz o que uns 90% do Universo Cinematográfico Marvel faz, só que melhor.

Liga da Justiça é um bom filme, mas matou a confiança que eu tinha na Warner.


Deixe suas dúvidas críticas ou sugestões nos comentários e siga o Blog do Kira por e-mail para não perder os próximos posts. Acesse o Podcast do Kira, um canal com versões em áudio de alguns textos daqui e conteúdos inéditos.

2 comentários

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s