Crítica | 1408 (2007): o significado de terror psicológico

Se você desistir, o quarto vence

Ficha técnica no IMDb

Mike (John Cusack) é um famoso escritor de livros sobre lugares mal-assombrados. Ele resolve explorar o quarto 1408 do hotel Dolphin onde ninguém coloca os pés há muito tempo. Sem dar atenção as advertências do gerente do hotel (Samuel L. Jackson), ele descobre o verdadeiro significado do terror quando passa uma noite neste quarto mal-assombrado.

1408 é um filme que eu havia assistido há vários anos, antes de começar a escrever resenhas e bem antes de criar o Blog do Kira. Sendo assim, sempre tive curiosidade quanto à real qualidade dele, facilmente um dos três melhores filmes de terror que já vi (ao lado de O Segredo da Cabana e Uma Noite Maldita). E o veredito? É realmente muito bom. E mais inteligente do que eu me lembrava.

A começar pelo ponto negativo, o jumpscare. Este detestável mecanismo consiste em um som brusco, geralmente associado a um corte também brusco, que objetiva assustar quem está assistindo. É uma das maneiras mais baixas de tornar um filme assustador e 1408 a utiliza três vezes. Elas o são porque o som alto não se justifica e a aparente ameaça não é real (e o espectador tem consciência disso, assim como o personagem, que só reage pelo susto).

Apesar disto, a edição de som possui seu valor no ambiente desconfortável. Uma janela que fecha com força, uma torneira jorrando água ou os gritos de um bebê vizinho, tudo incomoda e é totalmente justificável, porque é o quarto tentando afetar o Mike. Fiquei com a sensação de que 1408 não teve coragem de mergulhar mais no terror psicológico em detrimento do terror clássico.

E a ambientação é um dos maiores acertos do filme. É apenas um quarto de hotel, mas ele vai se modificando. Primeiro são pequenos detalhes, como o papel higiênico, mas, a medida em que a trama avança, as deformações se ampliam, até a cartada final do 1408 contra o Mike Enslin. Nesse sentido progressivo, o quarto é desconfortável. Não necessariamente assustador, mas é algo que incomoda, como se faltasse alguma coisa.

Um sentimento que permeia o filme é a expectativa pela aparição de um vilão. O tempo todo parece que, a qualquer momento, um monstro ou espírito vai se revelar e atacar Mike, mas isto nunca acontece. O 1408 nunca tentou matar Mike, a intenção era atormentá-lo ao ponto de ele se suicidar. Esse desejo rende uma maravilhosa sequência de “negociação” ao fim do filme, quando o quarto oferece duas opções: o tormento possivelmente eterno ou a morte.

A morte é uma opção tentadora porque 1408 criou um ponto de continuidade, uma contagem regressiva do sofrimento. Para Mike, tudo acabaria em 1h, então, quanto o timer volta a registrar 60 minutos, é um golpe fatal em qualquer esperança de sobrevivência. Para o espectador, há realmente uma dúvida sobre o que o protagonista fará, isto também devido a uma característica de Mike pontuada em um dos momentos mais assustadores do filme: ele odeia perder.

Antes de tentar alcançar a janela do quarto ao lado, Mike diz ao seu gravador que, caso algo dê errado em sua empreitada e ele morra, o quarto não venceu. Foi essa teimosia o maior motivo de sua vitória contra o 1408. Sabendo que não teria saída, Mike escolheu destruir o quarto, mesmo que acabasse se destruindo no processo.

O roteiro de 1408 é genial em dois objetivos que ele alcança simultaneamente. O primeiro é a progressão do desespero de Mike e o segundo é a exploração de seu passado, de quem ele é. Mike não é um personagem muito interessante ou inovador, mas a forma com que o roteiro mostra trechos de sua vida constrói alicerces para entender como foi que ele chegou àquele ponto. Um exemplo disso é o ceticismo dele, que fora ampliado após um evento traumático.

E a cartada final do 1408 é intimamente ligada ao fim do quebra-cabeça Mike Enslin, num ponto em que a brincadeira já acabou e o quarto mostrou o que é capaz de fazer. É o ápice do terror psicológico e o espectador compreende, pois o filme construiu aquela perspectiva desde o princípio.

Quando o Mike supostamente sai do quarto, dois detalhes me chamaram a atenção. No início do filme, a faixa do avião e o interior do hospital não haviam sido mostrados. Com isso, é possível comprar a ideia de que naquele momento era real, não ilusão do 1408.

E isto nos leva ao aspecto místico. O quarto não possui desenvolvimento de sua origem e brinca tanto com quem assiste quanto com o protagonista em relação ao limite de seu poder. É difícil até dizer o que era real. Será que Mike chegou a comer o chocolate? Ele quase congelou de fato? E o outro Mike no notebook?

A resposta imediata seria que foi tudo ilusão, ou, pelo menos, quase tudo. Só que o fim do filme nos dá outra visão. Se o gravador captou a voz da menina, então ela era real. E se o 1408 tinha a capacidade de emular a voz dela, então todas as alterações físicas tornam-se possíveis. O quarto deve funcionar como uma dimensão paralela, com o controle total do espaço e do tempo. Talvez ele pudesse, realmente, atormentar o Mike pela eternidade.

A única pergunta que fica no ar é: como Mike conseguiu “ferir” o 1408? Não parece possível afetar o quarto sem a sua permissão. Uma saída seria considerar que, na verdade, Mike não saiu de lá. Isto bate com as habilidades que o 1408 demonstrou ter, bem como seus objetivos.

1408 é um genial filme de terror psicológico que convence tanto com o lado do terror quanto com o lado do desenvolvimento de personagem, mostrando que, sim, um filme assustador pode ter um roteiro de qualidade.


1 + 4 + 0 + 8 = 13 e o quarto fica no 13º andar, que é chamado de 14º porque os donos do hotel fingem que o 13º não existe.


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