Crítica | Kimetsu no Yaiba (primeira temporada): é ruim, mas até que é legal

Kimetsu no Yaiba (ou Demon Slayer) é um mangá escrito e ilustrado por Koyoharu Gotōge, cuja publicação se dá desde 2016 na Weekly Shonen Jump. A adaptação para anime foi produzida pelo estúdio Ufotable e exibida entre abril e setembro de 2019. O enredo é até instigante, mas os pontos positivos são poucos.

Japão, era Taisho. Tanjiro é um menino de bom coração que viveu pacificamente com sua família enquanto vendia carvão. No entanto, sua vida vira de cabeça para baixo quando ao retornar de mais um dia de trabalho, se depara com quase toda sua família massacrada. A única sobrevivente é Nezuko, sua irmã mais nova, a qual foi transformada em um demônio. Agora, o objetivo de Tanjiro é encontrar uma forma de fazer com que sua irmã volte a ser humana.

Kimetsu no Yaiba possui uma animação, do meu ponto de vista, estranha. É um misto de desenhos realistas com desenhos cartunescos o tempo todo, como se os personagens fossem recortados de um desenho animado e colados em uma obra com estilo artístico bem diferente. Talvez não seja ruim, mas é desconfortável. As lágrimas, então, são terrivelmente mal animadas. Contudo, este não é um dos grandes problemas de Kimetsu no Yaiba.

Outro aspecto que me incomoda no anime é a pobreza nas cenas de ação. Embora a movimentação me empolgue, os vilões são extremamente repetitivos e suas lutas parecem arrastadas demais. Tomemos os dois exemplos principais: a mulher com seis braços, do início ao fim da luta, tem como única estratégia de ataque atirar suas bolas (sem mencionar a constrangedora sequência em que ela e a Nezuko chutam bolas de uma para a outra); o ex Kizuki apenas bate em seus tambores e nada mais. Eles são como inimigos de videogame, com uma única ação e zero estratégia.

A única luta boa de verdade é Tanjiro vs Cinco Inferior. Ela me emocionou, é bem coreografada e tem um bom desenvolvimento, ainda que não faça sentido a espada quebrar em contato com o fio e depois conseguir cortá-lo (pelo menos o anime não diz que a espada fica mais resistente de acordo com o uso). Só que o Cinco Inferior apareceu em vários episódios, com direito a muito flashback, e isto me leva ao primeiro dos grandes problemas de Kimetsu no Yaiba:

Dramalhão forçado com personagens que acabei de conhecer. É muita cena pretensamente emocionante que não funciona porque eu estou vendo monstros ou personagens que acabaram de aparecer. Me lembra o que ocorre no excelente Akame ga Kill, mas este possui uma carga dramática constante muito além, pois ele faz direito onde Kimetsu no Yaiba mais falha, que é no humor e na construção de mundo.

O humor é, de longe, o pior elemento de Kimetsu no Yaiba. Eu diria que 99% das cenas de comédia não funcionam e, mais que isso, estragam o lado sério do anime. Os maiores pivôs do humor em Kimetsu no Yaiba são o Zenitsu e o Inosuke.

O Inosuke é sem graça e me incomoda, mas o Zenitsu é absolutamente insuportável. Fica gritando o tempo todo, age feito um idiota que não faz ideia do poder que porta e aboba o protagonista só para ter cena de piada. Enquanto o Inosuke pisa em uma criança de forma totalmente absurda, o Zenitsu se esconde atrás da criança.

Como esse idiota virou um dos exterminadores? Ah, talvez tenha sido pela outra personalidade que ele desperta quando está dormindo, a qual possui um conflito muito interessante de saber usar apenas um golpe. Essa outra personalidade só aparece duas vezes e faz as melhores cenas da temporada.

Embora o humor seja terrível, ignorá-lo não é o suficiente para tornar Kimetsu no Yaiba bom. O ritmo do anime é muito ruim. Tem flashback demais, enrolação demais e é inacreditável como em 26 episódios a história praticamente não anda. Um bom parâmetro para comparação é o anime Tokyo Ghoul, que possui algumas semelhanças com Kimetsu no Yaiba, mas que, em 12 episódios, constrói bem seu mundo, pincela a mitologia e trabalha um clímax de qualidade.

Essa combinação de ritmo ruim com má construção de mundo faz Kimetsu no Yaiba ser um anime ruim. A melhor coisa que ele tem é a sua mitologia, mas o roteiro se esforça absurdamente para não explicar nada: eu não sei qual é a lógica dos poderes, não sei qual é a lógica dos exterminadores (como funcionam as atribuições, a escolha das missões e por aí vai) e não sei qual é a extensão dos golpes do Tanjiro, já que eu não o vi aprendendo-os. O terrível Zenitsu também possui a inexplicável outra personalidade forte que não fica claro se ele sabe que existe ou não (se não souber, não faz sentido, já que ele virou espadachim. Se ele souber, então é ilógico ele ser covarde).

Kimetsu no Yaiba tem coisas acontecendo, mas, após o encontro do Tanjiro com o Kibutsuji, parece que não existe uma conexão lógica da motivação e o tema original com o rumo que a trama claramente está tomando. E assim o lado bom do anime vai se perdendo, até o péssimo final.

Como a temporada foi estruturada de maneira burra, o clímax (que podemos considerar como sendo a luta contra o Cinco Inferior) é muito arrastado e afobado, ocorrendo antes do final da temporada, que acaba com um arco de treinamento que pode até ser considerado um conjunto de episódios de transição.

O episódio final fez apressadamente uma expansão de mundo meia boca, pois matou capangas que nunca tinham sido mostrados sem que isso demonstre grande poder do Kibutsuji, já que o Toshioka matou o Cinco Inferior sem nenhuma dificuldade e, provavelmente, o Tanjiro pós treinamento o faria (não tão facilmente, é claro). A mudança de aparência do Kibutsuji sem justificativa é outro ponto negativo do desfecho da temporada.

Agora os pontos positivos de Kimetsu no Yaiba:

A relação do Tanjiro com a Nezuko e o Toshioka é muito boa. Destaque também para a Kanao e para a Kanae, que são importantes no segundo arco de treino da temporada. Inclusive, o treinamento é muito interessante, pois usa conceitos que eu compro. Embora eu deteste a aparência dos ataques de água (sai água da espada? Ele conjura água? Como funciona isso?), gostei muito dos treinos e do desenvolvimento do Tanjiro em meio ao combate (os inimigos não funcionam, o Tanjiro até que sim).

O que mais me incomoda nesta primeira temporada de Kimetsu no Yaiba é que ela parece ser apenas uma desnecessariamente longa introdução para o que realmente a história será. Talvez o anime como um todo seja bom, mas a primeira temporada é muito ruim.


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2 comentários

  1. de fato, você está cheio de razão, o anime se segue com uma história medíocre e sem explicação, o mangá nem é digno de comentários, o desenvolvimento de um único filme já está sendo longo demais e os “poderes” não são justificáveis, como também a origem do Muzan, quem era o médico por trás da doença dele? O blue spider lily foi deixado simplesmente como easter egg mais pra frente, os poderes são desbalanceados, em 26 episódios os Hashiras sequer são aproveitados e o final do mangá não tem sentido. Isso faz Kimetsu no Yaiba ser ruim e ponto. Os hypados se encantam com a animação recheada de erros enquanto não percebem os pontos realmente importantes de um anime. Pelo menos é o que eu acho a respeito disto.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Acho esquisito como as pessoas ficaram encantadas com Kimetsu no Yaiba sendo que ele possui claros problemas de estrutura, ritmo e até o básico, que é a construção de mundo.

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