Crítica | Coherence (2013): uma obra prima do suspense

Ficha técnica no IMDb

São comuns os filmes com grupos de pessoas interagindo e estes têm como problema recorrente a falta de relevância para tais personagens e, por conseguinte, para o enredo. Filmes que giram em torno de um mistério também não costumam se sustentar decentemente e seus finais podem ser um bocado insatisfatórios. Coherence tinha tudo para ser um filme ruim, mas a inteligência do enredo e da direção o tornou incrível.

Quatro casais de amigos com um passado em comum se reúnem para jantar e para esperar que um cometa atravesse o céu. Entretanto, o fenômeno altera tudo. O desencadear de fatos estranhos os deixa incomunicáveis e sem luz no bairro inteiro, exceto por uma única casa a dois quarteirões.

Para que o filme possa dar as suas revelações bombásticas, Coherence utiliza ações que podem parecer forçadas e tirar o espectador da trama. Na minha segunda vez assistindo ao filme, foi profundamente incômodo ver a frequência com que as pessoas insistiam em sair da casa, em geral sem motivo.

Por outro lado, é reassistindo que podemos ver a clareza do roteiro. Em nenhum momento ele tenta esconder de nós a sua real natureza, muito pelo contrário. Durante aquela conversa chata de início de filme, um personagem diz que o outro dá aulas de yoga, o que o outro nega. O primeiro diz que estrelava uma série e o segundo não o reconhece, mesmo sendo fã da série. Essa é a chave da conclusão final quanto a Coherence.

O suspense criado conforme as coisas estranhas acontecem é muito bom e fica ainda melhor conforme as peças vão se encaixando e vai ficando claro que os amigos estão interagindo com uma versão alternativa deles mesmos. A evolução desse raciocínio nos leva ao ápice do filme: a cena em que a protagonista pega o papel com os números das fotos anotados e percebe que são números diferentes dos que ela havia anotado originalmente.

O interessante desse momento é que eles todos estavam há tanto tempo preocupados com uma possível natureza violenta de suas versões alternativas e eles mesmos já eram versões alternativas. O que imperava de fato era o medo do desconhecido. E foi esse medo que os levou a sair da casa e interagir com a versão alternativa. Se todos eles concordassem em não sair de casa, nada de mais teria acontecido.

Em síntese, nada estava acontecendo. Era apenas uma questão de as versões alternativas se avisarem para não passar pela zona escura. Apesar disso, a loucura e a paranoia os levou ao conflito. Conflito verbal em alguns casos e físico em outros, com destaque para a casa alternativa em que dois deles estavam amarrados a cadeiras.

O suspense da noite levou seus conflitos a se aflorarem. A percepção da protagonista de que seu companheiro tem (ou pelo menos tinha) um sentimento mais forte pela ex do que por ela a fez deixar de se importar com o problema da troca dimensional. Sem um motivo claro, ela escolheu vagar, em busca de um mundo mais ideal.

Foi por essa loucura e essa desesperança que ela atacou sua versão alternativa de uma casa cujos frequentadores nunca passaram pela zona escura. A protagonista podia ter conversado, explicado tudo e buscado outra vida nesta dimensão paralela, mas preferiu a violência. Já que o crime não compensa, ela provavelmente acabou presa.

Lembra do diálogo sobre yoga e a série? Ele é a indicação de que os 8 que foram jantar naquela casa já estavam em dimensões alternativas. As diferenças entre as dimensões podem ser mais grosseiras (como neste caso) ou mais sutis, como a taça quebrada (que a fotografia destacou espertamente), um diálogo sobre uma decoração que aconteceu pela segunda vez e, é claro, a cor dos bastões luminosos.

As subtramas dos personagens não são ruins, mas importam bem pouco. Os personagens são funcionais e interagem bem o suficiente para que o filme funcione. As pistas da troca dimensional também agregam muito valor a Coherence.

O maior defeito do filme é usar um livro para explicar o roteiro, como ocorre com diversos filmes de terror. Dá a impressão de ser a saída mais fácil e cria um contexto científico específico desnecessário para o entendimento da trama.

Coherence é um filme de muita qualidade. Seu início um pouco arrastado pode incomodar, mas, ao assistir pela segunda vez, é possível vislumbrar nos pequenos detalhes que este filme é uma obra prima do suspense.


Deixe suas sugestões, críticas ou dúvidas nos comentários e não se esqueça de seguir o Blog do Kira por e-mail para não perder os próximos posts. Acesse o Podcast do Kira, um canal com versões em áudio de alguns textos daqui e conteúdos inéditos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s