Editorial | Notas, qualidade e o problema da crítica objetiva

O hábito de dar notas, sejam elas de zero a dez ou no estilo zero a cinco estrelas, é quase intrínseco à prática de fazer resenhas de filmes. Elas estão por toda parte, em revistas, jornais e, sobretudo, em sites. O problema é que, para dar uma nota, é preciso reduzir ao máximo uma obra, desconsiderando a distinção entre o que é cinema comercial e o que é cinema enquanto arte.

Não existe nota objetiva sem parâmetros bem delimitados. É como a redação do Enem, cada quesito com a sua pontuação e, ao somar todos, obtêm-se o veredito. O problema com essa pretensa objetividade é a seleção dos critérios. Os óbvios seriam roteiro, fotografia, atuação e trilha sonora, os quais, sim, são extremamente importantes em qualquer obra cinematográfica, porém, possuem pesos distintos dependendo da natureza e do objetivo da obra.

O Sétimo Continente (1989) é um filme cuja construção objetiva incomodar o espectador com a sua monotonia e seus intermináveis planos sem diálogo. Noite de Desamor (1986) é, em síntese, uma conversa entre duas pessoas em uma noite. Se em um sobra fotografia e falta roteiro, no outro falta fotografia e sobra roteiro. Neste caso, balizar ambos em uma escala de 0 a 10 parece reducionista ao extremo, o suficiente para distorcer tanto a análise que ela se torna irrelevante.

Para aprimorar a coerência da avaliação seria preciso distribuir pesos diferentes a cada parâmetro e, paradoxalmente, chega-se ao subjetivismo do qual se tentava fugir. Ao fim, o resultado provavelmente será uma nota insuficientemente precisa que talvez sequer se mantenha igual, caso o crítico refaça os passos pensando novamente em qual avaliação dar para cada critério.

Existem notas mais baseadas em emoção, em subjetividade, e elas são, até certo ponto, válidas. Elas têm variedade reduzida e significam algo próximo de “satisfatório”, “esquecível”, “excelente” e “horrível”. Seus números respectivos são 7, 5, 10 e 0. Os demais números dificilmente correspondem a diferenças reais de qualidade, ou, ao menos, diferenças perceptíveis para um espectador comum.

Essas notas que são sinônimos de adjetivos pertencem ao meu método de avaliação, na tentativa de estabelecer para o leitor uma perspectiva mais clara quanto ao que vale a pena assistir e qual a natureza do filme (assumidamente ruim, irrelevante, recomendável ou assistível).

A minha crítica pode ser erroneamente entendida como um ataque ao IMDb, ao Rotten Tomatoes ou ao Metacritic, que são três gigantescos exemplares da “nota sintética objetiva”, mas estes sites cumprem um papel mais próximo de uma visão geral quanto ao sucesso de uma obra do que de uma avaliação. Isto porque, diferente do que muitos imaginam, os três portais são agregadores de críticas. O IMDb, por exemplo, faz um cálculo estimado com base nas notas que os usuários do site deram ao filme e o percentual do Rotten Tomatoes diz respeito à aprovação ou desaprovação, e não ao quão algo é bom ou ruim. O erro é tratar um guia amplo de desempenho como se fosse determinante para a qualificação da obra.

O que quero dizer não é que a crítica é inútil ou que os vereditos numéricos não devem existir, mas sim que notas não importam de fato no que tange à qualidade de um filme. Análises sintéticas podem ser úteis para catalogação e alguns outros fins, mas os argumentos que embasam cada ponto positivo e negativo não podem ser relegados.

Um obstáculo para tentativas de análises técnicas é o filme que não tenta ser tecnicamente bom. O gênero terror é repleto deste tipo de obra. Se o que o público quer é uma sequência de mortes exageradas e não um bom roteiro ou boas atuações, até que ponto podemos dizer que o filme que atenda a estas expectativas é ruim?

A qualidade de um longa-metragem depende, essencialmente, de qual é a sua mensagem, o seu propósito e se este foi atingido. Ou seja, tentativas de industrialização da crítica nada mais são do que o enfraquecimento da identidade de cada obra.


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